Afluente de um rio hoje corrente na dramaturgia de género, chamado Novo Terror, menos interessado na dinâmica quase muscular do jump scare e mais preocupado em investigar as complexidades psicológicas de personagens em situação de perigo, “Shapeless” vem roubando a atenção em Tribeca, impondo-se por uma potência sinestésica singular na seleção de filmes do festival nova-iorquino de 2021.

É difícil encontrar uma agonia – num âmbito psíquico – tão ou mais incómoda do que a da cantora Ivy, brilhantemente interpretada por Kelly Murtagh nessa longa-metragem de Samantha Saldana. Historicamente, o filme conversa com “Um Ramo” (2007) e “Trabalhar Cansa” (2011), de Juliana Rojas e Marco Dutra, e com “Grave” (“Raw”, 2016), de Julia Ducournau; e (sobretudo) “Swallow”, de Carlo Mirabella-Davis, revelado na mesma Tribeca que hoje aplaude a fotografia bruxuleada de Natalie Kingston no filme de Samantha.

Assim como a tradição de longas com a conversa, o calvário de Ivy é pautado pela subtileza, contagiando o espectador mais pela estranheza do que pelo susto, embora se abra para o assombro, sazonalmente, como em cenas nas quais feridas no corpo da protagonista revelam dedos humanos com uma sanha de agarrar quem se aproxima da hospedeira.

Ambientado num universo musical de tom jazz, “Shapeless” acompanha a transformação súbita que acontece na rotina de Ivy depois dela ser acometida de uma compulsão por comer sem parar, embora tenha uma silhueta S: quanto mais come, mais esquálida fica. Empenhada em construir uma carreira pautada na sua aveludada voz, ela tenta administrar as suas falências afetivas, em investimentos em encontros que não firmam como namoro. A sua frustração abre espaço para essa moléstia alimentar, que não abre espaço para comidas saudáveis e, sim, para o fast food. A sequência em que ela abastece a sua dispensa num mercado, comprando biscoitos cheios de glúten, gordura e corantes descortina-se na tela numa montagem tensa, que acentua a vergonha de Ivy e relação a sua necessidade de mastigar sem parar. Necessidade essa que abre espaço para uma inteligente manifestação gráfica do horror, com uma metamorfose na sua aparência, com direto a olhos brotando de sua pele.

Samantha conduz essa jornada pelo extraordinário sem jamais se separar de Ivy e da sua inquietação. O que interessa à cineasta é saber como a cantora lida com a ansiedade que a consome e com o medo de a atual bizarrice à sua volta descarrilar a sua sanidade. O trabalho de edição do montador Stephen Pfeil respeita o desejo de observação da realizadora, sem abrir mão das cartilhas do suspense, sem precisar de monstros.    

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
shapeless-a-dieta-do-medoÉ difícil encontrar uma agonia – num âmbito psíquico – tão ou mais incómoda do que a da cantora Ivy