Católico, homossexual e senador controverso: morreu o cineasta Franco Zeffirelli (1923-2019)

(Fotos: Divulgação)

Faleceu aos 96 anos Franco Zeffirelli, controverso encenador e realizador italiano

A notícia foi avançada pelo seu filho Luciano à Associated Press: “Ele sofreu durante um tempo, mas partiu de maneira pacífica“.

Nascido em Florença a 12 de fevereiro de 1923, Zeffirelli foi assistente de realização de Luchino Visconti, trabalhando com a lenda do neorrealismo em A Terra Treme (1948), Belíssima (1951) e Sentimento (1954). Antes de se estrear como realizador em Camping (1958), foi também assistente de Antonio Pietrangeli em duas obras: Il sole negli occhi (1953) e O Solteirão (1956).

“Luchino revelou-me o campo da criação, no palco e no ecrã, e mostrou-me como projetar e dar estrutura a um projeto para o ambiente cultural correspondente”, afirmou.

Figura franca, mas extremamente controversa, chegou a ser membro do senado italiano de 1994 a 2001 pelo partido de direita Forza Italia, liderado por Silvio Berlusconi, sendo fortemente conotado por ideais contra o aborto e a defesa de uma agenda profundamente católica nas causas políticas. Essa posição afastava-se claramente das ideias do seu mestre, Visconti, com quem iniciou um relacionamento amoroso durante as filmagens de O Sentimento. O fim da relação dos dois foi explosivo, com Zeffirelli a descrever o processo como “muito doloroso“, mas que definitivamente lançou a sua carreira artística.


Elizabeth Taylor e Richard Burton em A Fera Amansada

Foi em 1967, dirigindo Elizabeth Taylor e Richard Burton em A Fera Amansada (1967), que deu nas vistas, mas seria um ano depois com a adaptação ao cinema de Romeu e Julieta que conseguiria a sua primeira de duas nomeações aos Oscars.

Muito mais ativo no Teatro e na Ópera que no Cinema, Zeffirelli gostava de fazer filmes com antecedentes literários, com obras de Shakespeare à cabeça (para além de Romeu e Julieta, também adaptou Hamlet e Othelo), mas igualmente trabalhou em obras a partir da escrita de Scott Spencer (Um Amor Infinito, 1981), Charlotte Bronte (Jane Eyre, 1996) e até da sua autobiografia (Chá com Mussolini, 1999). Foi no clássico Jane Eyre que encontrou o seu maior desafio como realizador, dizendo em entrevista que William Hurt tinha sido o ator mais complexo com quem teve de lidar.

Dramatizou a vida de São Francisco de Assis em 1972, adaptou La Traviata ao cinema em 1982, e é dele também um dos filme que mais choros provocou na 7ª arte: o drama O Campeão, onde John Voight é ex-boxeador que descobre que sua maior batalha de todas será com sua ex-esposa, Annie, que retorna depois de abandonar o seu filho sete anos antes.


O Campeão

Vale a pena ainda mencionar o casamento das suas duas paixões, o Cinema e a Ópera, no seu Callas, a Diva (2002), onde Fanny Ardant assumia o protagonismo. Um filme inevitável na carreira do cineasta, que  fora confidente e trabalhara com Callas em encenações musicais como La Traviata, La Boheme, Carmen e Othello.

Nas polémicas da sua vida, encontramos o seu catolicismo ardente, embora fosse abertamente gay. Ele mesmo foi criticado por católicos pelo que eles consideravam representações blasfemas nos seus filmes, mas ao mesmo tempo era atacado por ativistas gays pelo seu apoio às posições da igreja (como a oposição à união dos homossexuais). As suas convicções religiosas levaram-no mesmo a lançar uma campanha contra A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, apresentado em Veneza no mesmo ano que o seu A Vida do Jovem Toscanini, sobre o célebre maestro italiano Arturo Toscanini.

No ano passado, durante o calor do #MeToo, o ator Johnathon Schaech afirmou que Zeffirelli atacou-o sexualmente durante a produção de Storia di una capinera (1993). Schaech, agora com 48 anos, escreveu na revista People que tinha 22 anos quando Zeffirelli o importunou, tentando entrar no seu quarto à noite, forçando-o a trancar a porta. Noutra noite, Schaech escreveu que o cineasta conseguiu a chave, entrou no seu quarto e agrediu-o. Zeffirelli negou totalmente estas alegações.

Este ano, numa entrevista em março ao Corriere della sera, Zefirelli dizia que a velhice era um fardo enorme, mas ainda procurava ideias de coisas para fazer. Ele também confessou ter dois arrependimentos na sua vida como cineasta, lamentando nunca ter executado uma longa metragem sobre o Inferno de Dante, e um “grande afresco sobre a vida e obra dos Medici”.

Por fazer também ficou I Fiorentini’, um filme sobre o encontro de 3 das mais significativas personagens renascentistas na capital da Toscânia, que programara filmar em 2003 e 2004, mas que nunca se concretizou.

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