Paulo Branco: “A Lusomundo anda há quarenta anos a tentar ser monopolista e conseguiu”

(Fotos: Divulgação)

A NOS revelou que vai lançar uma sala de cinema português no Alvaláxia, mas nem todos mostraram regozijo com a iniciativa

O cinema Alvaláxia vai ter uma sala exclusiva para o cinema português. O anúncio foi feito ontem na 4ª edição dos Encontros do Cinema Português por um responsável da NOS. A abertura “oficial” do espaço ainda não tem data marcada, até porque a empresa ainda vai procurar parcerias, mas ficou explícito que para além das habituais longas metragens que estreiam comercialmente, a sala vai também exibir curtas metragens, documentários e terá debates ligadas à 7ª arte. 

A novidade surgiu num debate que juntou vários nomes ligados à “indústria” do cinema nacional. Luís Chaby Vaz (Presidente do ICA) mostrou-se agradado com o lançamento deste espaço, mas o mesmo não se passou com uma grande figura da produção e exibição nacional: Paulo Branco. Na plateia, junto do público que assistia ao painel de convidados, Paulo Branco desvalorizou a inciativa, defendendo que não quer os seus filmes sejam exibidos num “gueto“. “Eu não quero que um filme meu estreie numa sala gueto, no Alvaláxia. Não quero. Quero que estreie no Colombo, nas Amoreiras, em todo o lado. Não aqui numa sala única. Se me dissessem, ‘As Amoreiras, no seu conjunto, vai dedicar-se ao cinema português’, eu abria uma garrafa de champanhe. Mas sei que isso também não é possível”.

O produtor, exibidor e distribuidor seguiu a linha de pensamento de Luis Urbano, do Som e a Fúria, que também defende a diversificação dos espaços de exibição além da sua presença nos centros comerciais. “O trabalho tem de ser feito abrindo novos espaços, novas maneiras de mostrar os filmes, novas maneiras de os promover, não da forma estandardizada que se faz. É um trabalho que se devia ter feito há anos. Agora, talvez seja tarde demais.“, referiu Branco.

Quanto à questão que estava na origem do debate, “Como chegar a 1 milhão de espectadores no Cinema Português?”, Paulo Branco revelou-se provocador: “É pagar 5 euros a cada espectador para ver um filme. Talvez assim consigam. E se fizerem contas, ainda ganham dinheiro com tudo o que há por trás [da máquina], desde [vendas] a canais, distribuição. Talvez seja um bom investimento“. Branco alargou o debate para além do cinema português dando o exemplo de muito do cinema europeu atual, afastado dos multiplexes: “Tem de haver maneiras de diversificação das salas. Tem de haver uma maneira para que outros operadores possam mostrar os filmes de outra maneira. (…) O cinema dos multiplexes não afetou apenas o cinema português, mas de grandes realizadores europeus. Vejam o que acontece com o Almodóvar, com o Moretti. Quantos espectadores faziam há dez anos e quantos fazem hoje? Há uma uniformização do público que vem a estas salas [nos centros comerciais]“.

Lusomundo-Zon-NOS, a história de um monopólio

Logo a abrir a  sua intervenção, Paulo Branco foi bastante crítico com a falta de análise por parte das autoridades ligadas à concorrência em Portugal, que permitiram que a NOS atualmente tenha o monopólio do cinema, quer na exibição, quer na distribuição: A Lusomundo anda há quarenta anos a tentar ser monopolista e conseguiu. Nem na América isso seria possível. E o problema não é da NOS. O problema é da [Autoridade] da Concorrência e de todas as coisas deste país que permitiram que isso acontecesse. (…)  Eu não estou contra vocês, pois quanto mais conseguirem melhor para vocês… para os vossos acionistas (…) Estou contra quem permite estas situações, mas não permitem que outros consigam ocupar espaços. Eu tentei. Já desisti. Um exemplo está aqui [referência ao cinema Alvaláxia, que na sua criação pertencia ao grupo Medeia, de Paulo Branco, e agora é do grupo de comunicações e entretenimento português].

Segundo dados do ICA, até ao final de abril deste ano, a NOS arrecadou em 2019 cerca de 70,1% das receitas em Portugal no que diz respeito à distribuição e 62,2% de receitas em termos de exibição [salas de cinema]. 

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