Adeus Agustina Bessa-Luís (1922-2019)

(Fotos: Divulgação)

 A autora de obras notáveis, como A Sibila, faleceu ontem no Porto, aos 96 anos. 

Não tenho medo de nada, exceto dos silêncios que podem ocorrer numa entrevista como esta. E quem tem medo de morrer… enfim, era melhor não nascer.” Estas palavras ao jornal Público, em 2004, ilustram parte da resposta de Agustina Bessa-Luís, nascida Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa, quando questionada se teria medo de deixar de escrever. Retirada da vida pública há quase uma década, após um AVC, Bessa-Luís será hoje homenageada numa cerimónia em sua memória na Sé do Porto. O funeral realiza-se terça-feira, 4 de junho, no Peso da Régua.

Nascida em 1922, Agustina Bessa Luís escreveu a sua primeira obra, Mundo Fechado em 1949, mas seria com A Sibila que teria um grande retorno por parte da crítica, que a associa à corrente neorromântica, profundamente ligada a Camilo Castelo Branco, cujo legado se faz sentir a nível temático (retratos da sociedade de Entre Douro e Minho) e na técnica narrativa (explorou ficcionalmente a própria vida de Camilo). Noutras influências, aponta a literatura russa numa entrevista de 2004, afirmando que a sua última “musa” tinha sido mesmo Dostoievski, “uma figura protetora e presente durante toda a minha vida“.

Vencedora de inúmeros prémios literários ao longo da sua vida, como o Prémio Camões, nunca conseguiu o Nobel, tendo afirmado uma vez “preferir o Nobel da Paz ao da Literatura“. O seu último romance foi A Ronda da Noite, de 2006, embora em 2018 tenha publicado Deuses de Barro (escrito em 1942, quando tinha apenas 19 anos).

No seu extenso currículo, onde se incluem obras de ficção, biografias (Florbela Espanca; Sebastião José; etc), peças de teatro (Estados Eróticos Imediatos de Soren Kierkegaard; Garret: O Eremita do Chiado; etc.) e crónicas, memórias, textos ensaísticos (D. Sebastião: o Pícaro e o Heroico; Aforismos; etc.), destaque ainda para a sua colaboração frequente com o cineasta Manoel de Oliveira, uma parceria que começou com Francisca em 1981, adaptação do livro Fanny Owen de 1979, e “terminou” com o Espelho Mágico em 2005, adaptação da obra A Alma dos Ricos também da autora. Pelo caminho, colaboraram ainda em Vale Abraão (1993), O Convento (1995), Party (1996), Inquietude (1998), e O Princípio da Incerteza (2002)Agustina gosta de não gostar dos meus filmes, mas eu não gosto que ela não goste“, disse Manoel de Oliveira na apresentação de Espelho Mágico no Festival de Veneza de 2005, mostrando uma conflitualidade criativa permanente que os amigos há longos anos possuíam desde Francisca.


Agustina e Manoel Oliveira

Bessa-Luís também se aventurou na literatura infantil, em obras como – A Memória de Giz (1983), com ilustrações de Teresa Dias Coelho, ou Vento, Areia e Amoras Bravas (1990), com ilustrações de Mónica Baldaque, a sua filha, e colaborou ainda no cinema com João Botelho na adaptação de A Corte do Norte, romance histórico que tinha publicado em 1987.

Epítetos ao longo da sua vida não lhe faltaram, como a “perversa” (“Não me acho perversa. Sou capaz de todas as composições que a natureza humana permite. Mas daí à ação vai uma distância muito longe“, disse numa entrevista ao Publico); a “barroca” (como Oscar Lopes a chamou); a “insubmissa” (como disse Bruno Vieira Amaral); a “gloriosa” (segundo Gonçalo M. Tavares); a “rebelde” (de acordo com Pedro Mexia); a enorme (“uma escritora do tamanho de George Eliot ou Jane Austen”, segundo António Lobo Antunes); a “controversa” (como Isabel Rio Novo, que escreveu uma biografia sobre a autora), e a “perigosa” (“Sou perigosa na medida em que conheço profundamente a natureza humana“).

Lido muito mal com a minha imagem“, dizia Bessa-Luís em Nasci Adulta e Morrerei Criança, uma vídeobiografia assinada por António José de Almeida, estreada em 2005 na Cinemateca, e na qual também afirmava: “A literatura está em vias de extinção. A literatura tem cinco milénios, é tempo de mudar de caminho.

http://www.youtube.com/watch?v=7JQNLiSNoX4

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