© GK Films
Será lançado nos EUA esta sexta-feira (23), de forma limitada, o filme «In the Land of Blood and Honey», primeira obra de Angelina Jolie como realizadora.
Estreado no Festival de Sarajevo, e já distinguido com o Prémio Stanley Kramer (atribuído pela – Sindicato dos produtores norte-americanos), «In the Land of Blood and Honey» retrata uma complexa história de amor com um fundo que nos remete para os terrores da Guerra da Bósnia, especialmente no que concerne às mulheres.
O c7nema teve acesso à conferencia de imprensa que marcou o início da promoção americana da obra e foi uma Angelina Jolie emocionada que relatou as dificuldades em executar uma fita que ela se sentiu obrigada a realizar, especialmente porque serve de homenagem às mulheres e ao sofrimento que estas passaram, existindo feridas ainda muito activas.
O filme está construído de uma maneira emocional, mas é nos detalhes da guerra que se encontra uma forte uma ligação às diversas histórias que os próprios intervenientes do conflito lhe contaram. E quanto valeram esses relatos num argumento com um fundo real mas uma história fictícia? « Acho que tudo começou com a questão, “E se fosse eu?”. E se isto tivesse acontecido comigo e com a minha família. O que é que eu teria feito. E se acontecesse amanhã? O que eu faria? Quando tempo duraria eu entrar numa espiral depressiva e mudasse e alterasse a minha maneira de ser. Fiz muita meditação sobre o assunto e escrevi o melhor que pude. Depois quando enviei o que escrevi aos actores, todos começamos a trabalhar juntos . Todos aqui presentes [na conferência de imprensa] sabem mais sobre este conflito que eu. Eles viveram o conflito. Fisicamente eles estiveram, em campos diferentes do conflito, sob ataque numa guerra. Por isso, eles preencheram muitos espaços e ajudaram-me a contar esta história.»
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E não foi fácil contar esta história. Os jornalistas recordam uma cena particular em que os soldados sérvios obrigam as mulheres mais velhas a despirem-se a dançar para eles. Como se pede aos actores para repetirem cenas reais que muitos viveram durante a guerra?
Angelina mostra-se mais emocional na resposta e aponta que não abordou as pessoas sobre o que viveram porque queria fazer um filme. «Durante muitos anos fui perseguida por falta de intervenção, por falta de conhecimento e estudo do trauma das pessoas que passaram por estas situações. Sentia-me frustrada em ver estas pessoas a pensar se poderíamos ter previsto o que aconteceu e impedir esta violência, especialmente contra as mulheres. Por isso sentei-me e pus-me a escrever sobre a Bósnia, uma guerra da minha geração e que eu sentia a obrigação de saber mais sobre ela, pois desconhecia. Quanto mais eu aprendia sobre o conflito, mais culpada me sentia por saber tão pouco sobre esta guerra na adolescência e fiquei chocada pelo tempo que durou. Por isso, quando pela primeira vez me sentei com uma mulher para falar de essa história particular, foi muito emocional pois elas viviam com esses segredos e não falavam deles, ou pelo menos nunca tinham falado dessas coisas. Por isso eu estava a pedir-lhes para se recordarem de coisas e claro que me senti culpada em pedir às pessoas para se lembrarem de muitas coisas e de aceder às suas memórias».
A actriz embarcou então na memória pessoal de uma vítima da guerra específica que lhe contou em grande detalhe sobre quando foi usada como escudo humano, para além de outras histórias, como a já citada em que os soldados sérvios obrigaram as idosas a despirem-se e a dançarem nuas para eles. «Não foi a cena mais violenta que ela viu, mas foi das que mais a arrasou mentalmente e ela nunca recuperou disso. Por isso, quando tentámos recriar essa cena foi muito duro para toda a gente, pois como realizadora não queria pedir às pessoas para fazerem isso, pois pensava que agora estava eu a torturá-las. Eu quase não consegui fazer a cena e estava constantemente a pedir desculpa e a lembrá-las que estavam a fazer um grande serviço para as outras mulheres. E acho que foi ainda mais duro para os homens que estavam lá pois eles tinham que agir de uma maneira que ia contra a sua natureza. Eles não queriam ser aqueles homens, mas sabiam que o que estavam a fazer era no fundo a presentear estas mulheres ao contar a história e o horror que foi esta guerra. E foi isso que fizeram neste filme [mostrar o horror] ao actuarem de forma agressiva e isso foi muito nobre por parte deles.»
«In the Land of Bloody & Honey» ainda não tem data de estreia em Portugal.
http://www.youtube.com/watch?v=wDBU8CqU0dg
Jorge Pereira

