O que está errado com «Tower Heist» (Alta Golpada)?

(Fotos: Divulgação)

Que Hollywood é pura propaganda não é novidade, qualquer filme tem, a maior parte das vezes sem dar por isso, uma mensagem política contida nos valores e na cultura em que a história se baseia. Seria impossível que assim não fosse. Por vezes essa propaganda é mais ou menos central à história do filme, por vezes mais ou menos subtil, por vezes chega a ser cínico, um anúncio glorificado a todas as marcas que contribuíram para a sua produção e ao consumo, como é o caso de “Sex and the City 2”. O curioso é quando pretendem ter uma mensagem política e os valores em que assentam o traem. Aqui entra o “Tower Heist” (Alta Golpada).
No ano em que surgiram tantos movimentos populares que se opuseram às medidas políticas tomadas contra a crise e ao sistema económico que a criou, é normal que esta consciência política tenha chegado ao mainstream e seria inevitável que surgissem filmes sobre ela. Se o ano passado tivemos a sorte de ver “Inside Job”, que ganhou o Óscar para Melhor Documentário, este ano somos presenteados com uma fantasia onde os pobrezinhos que trabalham num prédio de luxo se vingam contra o mauzão rico que vive na Penthouse desse prédio e que lhes roubou as poupanças que tinham.
 Vamos ignorar que qualquer um dos actores que ali aparece não se pode candidatar a nenhum apoio social fornecido pelo estado e que possivelmente não fazem ideia do que é pertencer à classe que representam no filme, vamos ignorar as representações exageradas e distorcidas da estupidez/eficácia da polícia que consegue não encontrar provas óbvias, mas consegue processar todos os envolvidos na “Golpada” sem ter provas, vamos ignorar que o momento mais arriscado do filme está patente no trailer (a piada dos moradores deste prédio estarem a comprar vizinhos brancos) e que mais nenhuma se compara a nível de crítica, vamos ignorar que o final do filme é completamente absurdo, com cada um dos elementos do prédio a receber parte das suas poupanças (sim, é um filme desses) de forma a que não consegue fazer nada com elas, vamos só reflectir sobre as representações raciais, as da Economia e as da crise e das alternativas viáveis de saída desta.
Um dos grandes problemas do filme é constante na mono-cultura ocidental globalizada e surge muitas vezes em discursos políticos do partido conservador dos EUA: o mito de que não há problema nenhum com os sistemas que existem, apenas que existem algumas pessoas mal intencionadas (“a few bad apples”) que se servem sem escrupulos destes sistemas para proveito próprio. Já várias vezes este mito foi posto em causa e até mostrado que está errado, mas tornamos aqui a ver na personagem do vilão alguém que age mal para com os outros, não havendo qualquer indicação de que o problema tenha a ver com os sistemas económicos em que age, reduzindo-a a um ladrão que desviou fundos dos investimentos que tinha para proveito próprio. Esta leitura da crise económica é obviamente errada e constrói uma narrativa onde a acção de correcção é limitada ou mesmo inexistente. 
 
 
Sobre esta premissa é normal que os “heróis” do filme sejam obrigados eles próprios a recorrer ao crime de forma a poder reaver o que lhes foi roubado. Aqui levantam-se mais questões sobre a moral do filme: se o que se pretende ilustrar é que o crime não compensa, pelo menos para o vilão, como pode este compensar para os protagonistas? Os fins justificam os meios? O fim do filme também mostra a dificuldade que os guionistas tiveram com esta questão, tentando penalizar o cabecilha dos bem-intencionados, mas mostrando que a penalização deste não é tão má como a do vilão de uma forma que se torna ridícula.
Outro dos grandes problemas do filme são as representações raciais: se o vilão rico é branco, também o são o “herói”, o seu irmão e o economista falhado bem intencionado, o hispânico é mostrado a encontrar facilmente trabalho em restaurantes fast-food e a aspirar a servir num prédio de luxo e todos os negros são criminosos, com Eddie Murphy a fazer o papel de criminoso de rua e Gabourey Sidise (que ganhou projecção há uns anos em “Precious”) revelando ser uma arrombadora de cofres nata. As representações são tão estereotípicas e unidimensionais que a russa que trabalha no prédio, a fazer um trabalho não especificado no fim do filme, ascende a advogada. É óbvio que estamos num universo onde o papel social é determinado pela cor da pele, com os tons mais claros destinados aos lugares superiores e descendo na escala social e ética até aos mais escuros, destinados ao crime, a tal ponto que um deles tenta enganar todos os outros para ficar com o espólio.
Se a ideia deste filme era aparentemente boa (os trabalhadores a vingarem-se dos ricos, soa quase a marxista) a sua concretização acaba por traí-la e construir uma narrativa onde a maioria dos criminosos com poder se encontram acima da lei, a sociedade se encontra definida pelo tom da pele e onde as únicas alternativas a quem saiu prejudicado nesta crise é o suicídio ou o crime. Mais uma vez se revela o interior da máquina de sonhos como um mecanismo de construção de narrativas que favorecem os interesses económicos e mantêm o status quo, apresentando modelos de conformidade enquanto aliena o seu público com entretenimento, fazendo-nos rir enquanto reforça a nossa miséria económica e cultural.
 
João Miranda 

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