Primeira banda-desenhada com o Homem-Aranha vendida por 1.1 milhões de dólares

(Fotos: Divulgação)
Segundo notícias veiculadas na imprensa norte-americana, a primeira aparição do Homem-Aranha em banda-desenhada, em “Amazing Fantasy #15”, foi vendida a um coleccionador privado e anónimo por 1.1 milhões de dólares.
 
De notar que a cópia da banda-desenhada estava intacta e ainda nunca aberta/lida.
 
 
Sobre o Homem-Aranha
 
Criado em 1962 por Stan Lee para a editora americana de BD, a Marvel Comics, depressa o Homem-Aranha ficou conhecido pelo mundo inteiro por ser uma das mais originais criações deste autor e pelo facto do personagem representar o zénite da revolução que implantou: o super-herói com falhas humanas; o homem normal que poderia, de repente, ver-se dotado de poderes extraordinários e que, para além de ter de lidar com as ocorrências normais do dia-a-dia, teria também de enfrentar as agruras-maiores-que-a-vida de ser um super-herói.
 
Na opinião deste vosso relator, Peter Parker e seu alter-ego, o Homem-Aranha, representavam também, do ponto de vista literário, uma das três mais originais criações da BD americana e, mais especificamente, da editora americana, a Marvel Comics. Enquanto que a concorrente, a DC Comics, tinha os (ainda) três maiores ícones, o Super-Homem, o Batman, a Mulher-Maravilha, a Marvel tinha já os “Fantastic Four” (Quarteto Fantástico), agora o Homem-Aranha e, uma década mais tarde, Wolverine. Estas são criações que não devem nada a ninguém no interior da BD, são profundamente originais e todos os outros super-heróis, com algumas excepções, provêm da fonte que eles descobriram.
Peter Parker, o incógnito que todos desejariamos ser?
A revista era “Amazing Fantasy” e o número era o 15. No ano de 1962 Stan Lee decide experimentar com o conceito de um jovem dotado de poderes proporcionais aos de uma aranha (um bicho nojento que o editor da altura, Martin Godman, havia aconselhado o também jovem Stan Lee não usar como motif para um super-herói). A pequena história engendrada pelo escritor e peloa artista Steve Ditko (lenda muitas vezes esquecida apesar do inqualificável contributo que deu às aventuras e aspecto estético do herói) iriam de tal modo provocar reacções positivas que, poucos meses depois, já em 1963, é lançada a revista homónima do personagem, “Spider-Man”, que perdura, ininterrupta, até os dias de hoje 
 
 A história era simples e iconográfica, como todas as grandes histórias. Um jovem tímido, orfão de pai e mãe e a viver com os seus dedicados e idosos tios, repudiado pelos seus colegas pelo facto de achar mais importante os livros de Física e Química e os bicos de Bunsen do que as noitadas e as raparigas (erro que viria a corrigir mais tarde!). Ostracizado, metido no seu pequeno mundo, Peter Parker apelava a um certo público alvo pela mensagem muito específica que protagonizava mas cedo perceber-se-ia que esta possuía um alcance muito mais poderoso e não tão elitista. 
 
Peter, atraído por uma demonstração científica daquelas que parecem apenas acontecer na BD americana do auge da Guerra Fria, torna-se alvo de uma aranha irradiada pela radiação da experiência, e é picado. Por mais estranho que possa parecer o jovem, ao invés de morrer, adquire os poderes proporcionais da aranha, passando a poder trepar paredes, possui agora reflexos de uma velocidade estonteante, pode mover-se melhor que uma mescla de um gato e de um acrobata, adquire uma força várias vezes superior às de um homem e um 6º sentido (de aranha) que permite pressentir o perigo antes que aconteça.
 
O jovem colegial Peter Parker nunca mais seria o mesmo, mas será que as dificuldades que enfrenta como ser humano desapareceriam apenas devido ao facto de agora ser dono destes poderes extraordinários? A teoria de Stan Lee é que não, muito pelo contrário. Todos os problemas que possuía seriam multiplicados e novos problemas surgiriam. A teoria é depressa posta em prática.
 
Inebriado pela suas habilidades, Peter decide criar um uniforme, uns disparadores de teia (as capacidades científicas de Peter parecem inquestionáveis) e lança-se como estrela de TV. Depressa o jovem torna-se prepotente e um dia deixa fugir um criminoso, achando que isso não faz parte das suas responsabilidades.
 
 Peter vive com os seus tios Ben e May Parker. Estes tios são os seus pais e os seus guias para o mundo que começa a agora a desenhar-se à sua frente. São a sua família nuclear, aqueles que o dotam dos mais básicos principios sociais, que lhe fornecem um ambiente positivo sobre o qual Peter poderá crescer e tornar-se num homem. Mas o criminoso que Peter deixou fugir assassina o seu Tio Ben e Peter depressa aprende o quão verdadeiro é o mote que o mesmo Tio tentou tantas vezes ensinar-lhe: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.
 
Da noite para o dia, literalmente, Peter decide tornar-se num homem, encarando as responsabilidades que vêm com as fantásticas habilidades que agora possui. Peter torna-se no Homem-Aranha.

Mas a vida contiua…
 
Os alicerces morais sobre os quais é erigida a personalidade de Peter depressa é posta à prova porque as suas aventuras como super-herói, e não só, trazem-lhe mais dissabores que avenças. 
 
A situação económica da família Parker vê-se fortemente deteriorada com a morte do Tio Ben. Peter vê-se obrigado a procurar trabalho ao mesmo tempo que estuda. Felizmente encontra-o no jornal nova-iorquino, o “Daily Bugle”, chefiado por um homem que se tornaria num dos maiores inimigos do Homem-Aranha: J.Jonah Jameson. Odiando o trepador de paredes com todas as suas forças, Jameson escreve editoriais atrás de editoriais denegrindo a imagem do Homem-Aranha e tornando-o, nos olhos da opinião pública e da lei, num dos mais temidos personagens dos céus nova-iorquinos.
 
Na escola, Peter não vê a sua imagem melhorada, muito pelo contrário. Devido às noitadas que tem de fazer como Homem-Aranha para enfrentar os perigos normais que advêm do facto de ser um super-herói, mas também devido ao facto das fotografias que tira (dos confrontos com os seus inimigos) servirem para o jornal para onde agora trabalha, Peter tem muito pouco tempo para socializar, tornando-se um pária dentro da sua escola. Ninguém parece gostar de Peter (que não é bem assim, porque, de repente, as raparigas começam a notar Peter e, sem mais nem menos, depressa o jovem é disputado por duas jovens, Liz Allen, colega de escola e Betty Brant, do emprego, sendo que esta última torna-se na sua primeira namorada).
 
Para além de tudo isto tem que lidar com uniformes rasgados, constipações, com uma tia que parece estar sempre doente e com o ódio de morte dos seus múltiplos e coloridos inimigos.
 
 A vida do Homem-Aranha não é pêra doce. E aqui reside o maior apelo do jovem personagem. Enquanto que os outros super-heróis parecem levar a vida na maior das facilidades, Peter mal consegue sobreviver ao dia-a-dia estonteante e ofegante que enfrenta. Mas enfrenta e perdura. Endurece. Resiste. Mais do que isso…vive.
 
 
Por acaso existe melhor exemplo do que este para dar aos nossos filhos?
 
E continua…
 
A vida de Peter Parker e do seu alter-ego tem sofrido as mais diferentes agruras, as mais diferentes contrariedades, ao mesmo tempo que alegrias e passos em frente são dados encaminhando o trágico jovem para um futuro que é ainda indecifrável.
 
Ao longo dos já longos 40 anos de histórias, o Homem-Aranha já passou por quase tudo: a morte de um amor; o casamento com um outro – este maior – grande amor; a morte de um número maior de amigos do que desejaria; o coleccionar de uma tapeçaria de inimigos que deixaria qualquer ser humano com vontade de se enroscar num qualquer canto e nunca de lá sair.
 
Mas o jovem continua e a Marvel dá graças a Deus por isso. A Marvel continua a ter nas suas mãos – como os últimos dois filmes baseados no personagem bem o provam – um peso-pesado da cultura popular que parece apelar a algo primordial na psique colectiva da nossa sociedade. O Zé Ninguém que parece perseverar apesar de todas as dificuldades. Uma pessoa que parece igual a qualquer um de nós em quem a sua maior virtude é a força do seu carácter e não os poderes com os quais foi abençoado. Esta é a lição de Stan Lee. Esperamos todos podermos aprendê-la da melhor maneira possível.
 
José Pedro Castello Branco

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