O produtor, realizador, e por vezes actor, Baltasar Kormakur é um homem que gosta de viagens ao submundo e de personagens sistematicamente sobre pressão. Isso já se tinha visto na sua excêntrica obra criminal (com tons dramáticos) “Jar City”, e também no thriller de acção com bastante comédia “Reykjavík-Rotterdam”. A dose repete-se neste “Inhale”, um filme que viaja por perigosos caminhos do tráfico de órgãos em Juarez, no México, e que só pela sua temática cria um certo receio, pois este género está repleto de telefilmes, ora associados a imigração ilegal, ora a exploração sexual. E esse medo adensa-se quando os elementos são postos em cima da mesa.
Paul Stanton (Mulroney) é um homem sob pressão no trabalho e em casa. No primeiro tem de lidar com um caso bastante complicado. No segundo, tanto ele como a sua mulher vêem a sua filha caminhar para a morte devido a um problema nos pulmões. Com todas as opções riscadas do mapa, começa a considerar-se seguir caminhos ilícitos para conseguir um doador de ógãos. Juarez (no México) pode ser a solução, através do mercado negro que existe no seu submundo.
Assim, e já em desespero, Stanton viaja até lá em busca de uma pessoa que ele sabe que está envolvido no negócio. Porém, e devido à natureza negra do tráfico de órgãos, será muito complicado a este homem conseguir os seus intentos. Ao invés, ele vai passar por um mau bocado na mão de criminosos locais com poucos (ou nenhuns) escrúpulos.
Kormakur, que prepara afincadamente a versão americana de ‘Reykjavík-Rotterdam’, sabe lidar muito bem com o lado negro das cidades: quer existam estranhos cultos, negócios de contrabando, ou tráfico de órgãos. E faz isso fugindo do estilo postal para ‘gringo’ ver. Aqui ele mostra a pobreza, mas não de uma forma contemplativa ou miserávelmente turística, ainda que por vezes pareça que quer fugir tanto dos clichés que torna tudo irreal.
Mas apesar da cidade ser uma personagem, ela é secundária. Kormakur coloca toda a pressão, em grande parte do filme, sobre Dermot Mulroney, um homem que terá de tomar decisões importantíssimas e que marcarão para sempre a sua vida.
E mesmo que se critique a sua decisão final, pois se fossemos nós utilizaríamos certamente mais coração, no fundo ele tem razão, e o maior triunfo deste filme é afinal ser um Anti-Fausto.
Destaque também para Diane Kruger, no papel de mãe da criança, e para a cinematografia de Ottar Gudnason, que consegue carregar na tela a acção em Juarez, tornando tudo muito mais cinzento e tenebroso. O facto de Kormákur apresentar cronologicamente a narrativa de forma não linear ajuda a iludir-nos em relação ao fim.
Mérito para a edição final….
A ver…
O Melhor: O final chocante e a entrada de Stanton no submundo de Juarez
O Pior: Fugir a clichés é bom, mas por vezes torna as decisões e atitudes muito irreais.
A Base: Apesar de se tratar de uma história batida no cinema, o carácter Anti-Fausto e a estrutura não linear desta obra destaca-a das demais… 7/10
Jorge Pereira

