A personagem de Lisbeth Salander, criada por Stieg Larsson – um autor já falecido, na sua trilogia Millennium (“Os Homens que odeiam as mulheres”, “A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo” e “A Rainha no Palácio das Correntes de Ar”) tornou-se num ícone literatura contemporânea e uma estrela no cinema Europeu, ajudando a lançar definitivamente a carreira da actriz sueca Noomi Rapace (em baixo), que agora tenta a sua sorte na América.

Com mais de 50 milhões de obras vendidas em todo o mundo, a trilogia foi adaptada ao cinema na Europa, revelando-se um tremendo sucesso, ainda que só o primeiro filme tenha sido executado para cinema (os dois restantes foram idealizados para passar na TV e por isso tiveram orçamentos muito contidos).
Com o sucesso mundial da saga, é natural que nos EUA surgissem os desejos de executar um remake, um pouco à semelhança do que tinha acontecido com o sucesso do filme sueco “Let The Right One In”.
O primeiro capítulo da trilogia está actualmente a ser readaptado ao cinema por David Fincher, um cineasta de renome, que cativou a atenção em “Alien 3”, explodiu com “Se7en” e tornou-se um cineasta de culto com “Fight Club” (outra adaptação literária).
Entre estes últimos dois filmes o cineasta ainda executou “The Game”, um filme memorável pelo intenso puzzle misterioso em torno de uma personagem central (Michael Douglas) que já não sabe bem o que é real ou montado em sua função.
Todos estes filmes partilham algo em comum. Neles, os vilões são multidimensionais, quer seja Kevin Spacey em “Se7en” ou Brad Pitt em “Fight Club”. E todos eles tem uma especial apetência pela violência, quase que de forma poética, ainda que anarca e visualmente bastante gráfica. Se pensarmos bem, Lisabeth Salander é uma personagem perfeitamente do universo de Fincher, e nas mãos dele, se não houver pressões por parte dos Estúdios americanos – por vezes demasiado preocupados no que mostram devido a audiências/espectadores, pode sair de novo uma personagem mágica e memorável. Tal como John Doe ou Tyler Durden. Tão rebelde como perigosa. Tão compreensível e frágil como vingativa.
Como Fincher afirmou à revista W, “Lisabeth Salander não é sobre sofrimento. Ela não é Jesus Cristo. Ela é a vingança”, e o seu “The Girl With The Dragon Tattoo” será muito negro e muitas vezes desviante a nível sexual – repleto de cenas sadomasoquistas, com violações e tortura. Tal e qual com a mesma sensibilidade do trabalho original.
Para isso, e necessitando de uma actriz capaz de ser a hacker Lisabeth Salander, cruel mas ao mesmo tempo uma heroína rebelde e muito fiel ao seu próprio código moral, Fincher meteu mãos à obra e escolheu Rooney Mara para protagonizar este papel. Mas estará esta actriz preparada para complexidade do carácter que a sua personagem exige?
A Escolha recai em Rooney Mara
Apesar de dizer que desde o início pretendia Mara, David Fincher e os produtores consideraram diversos nomes. Natalie Portman foi um deles, só que a actriz tinha terminado três obras de rajada e estava exausta. Scarllet Johansson era demasiado sexy para o papel (curiosamente, o realizador da versão sueca considerava o mesmo de Noomi Rapace, quando a viu pela primeira vez). Jennifer Lawrence era demasiado alta. Depois surgiram algumas ideias um pouco ortodoxas, como Yo-Landi Vi$$er, vocalista de uma banda punk sul-africana; Sophie Lowe, uma desconhecida australiana, e Katie Jarvis que tinha brilhado em “Fish Tank”.
Fincher relembra que tiveram cinco ou seis raparigas na audição em que o que tinham de recriar era a cena da violação. “As raparigas tinham de enfiar um dildo numa personagem. Essa é a grande cena que Salander executa ao seu violador e tínhamos de ver se elas eram capazes.
Mas essa não era a única cena elas que tiveram de fazer. Mara lembra-se que estava a chegar aos limites quando Fincher lhe disse que tinha sido a escolhida. A partir daí começou todo um trabalho em se transformar em Lisbeth Salander.

Mara transforma-se em Lisbeth
Já em Estocolmo, os longos cabelos castanhos da actriz foram pintados de negro e cortados de maneira como se tivesse sido a própria a fazê-lo com uma navalha. A franja ficou muito curta e irregular, e o resto do cabelo (que sobrava) mergulhou para o rosto da actriz.
O resultado final foi um
mash-up do
look punk dos anos 70 com o gótico dos anos oitenta. Adornada com meias rasgadas, roupa de couro apertada e com umas botas, a actriz ficou com look que Fincher desejava (como se tivéssemos na frente uma versão gótica da Pipi das Meias Altas). Essa é a sua Salander, de pequena constituição e mesmo franzina, mas que mostra a sua natureza: “como se de um anjo vingador se tratasse”.
Com as sobrancelhas descoloradas e repintadas, faltavam os piercings. Para além das sobrancelhas, Mara adicionou piercings no lábio, no nariz e nos mamilos. As orelhas, com quatro furos cada, também não escaparam.
Com o cisual delineado, veio outro tipo de treino. Mara teve de aprender a andar de mota e praticou kickboxing. A sua tatuagem temporária (um Dragão nas costas) foi outro elemento complicado de criar. Fincher não queria um estilo asiático, nem desejava que a tatuagem parecesse descender de um livro de banda-desenhada.
Estava assim criada a aparência da nova Lisbeth Salander no cinema, ainda que numa fase muito conceptual. Falta agora avaliar a força que Mara irá dar à personagem nas filmagens, porque a estética é importante, mas não é de todo tudo para que digamos… sim, esta é a Lisbeth que conhecemos e imaginamos.
Jorge Pereira
Fonte: Revista W
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