Quarenta e cinco anos depois de conquistar o Leopardo de Ouro com o seu filme-estreia, “Maledetti vi amrò”, o italiano Marco Tullio Giordana – responsável por obras como “A Melhor Juventude” e “Romanzo di una strage” – voltou a Locarno, não apenas para apresentar o seu mais recente filme, “La vita accanto”, mas também para receber uma homenagem pela carreira.
“As minhas recordações do Festival de Locarno, há 45 anos, são muito agradáveis”, explicou o realizador ao C7nema. “Estive aqui pela primeira vez em 1980, com o “Maledetti vi amrò”, e ganhei o Leopardo de Ouro. Na época, foi algo completamente inesperado. Voltei outras vezes a Locarno, é um lugar afetuoso. Fico sempre impressionado quando percebo que já passou tanto tempo desde a primeira vez que aqui estive.”
Exibido fora de competição, a adaptação do livro de Mariapia Veladiano, “La vita accanto”, leva-nos a Vicenza e ao seio de uma família rica, cuja alegria do nascimento da filha é acompanhado pelo temor do que os outros dizem e pensam por a pequena ter uma enorme mancha vermelha na cara. “Não quero que a chamem de monstro”, diz a mãe da jovem, que nunca aceita esse destino. “Quis transformar uma marca que identifica alguém como um monstro, numa criança bela apenas com uma mancha”, explicou Giordana, adiantando igualmente o que o atraiu ao projeto”: “Ela não era mais um monstro, alguém diferente dos outros. Era uma criança, adolescente e mulher muito bela e não repugnante. Além disso, a marca que esta mulher carrega não se sente, não a vê. Não é um problema para ela como é para todos à sua volta (…) Agradava-me muito o ambiente provincial neste filme. A Itália está cheia de cidades belas, repletas de cultura. Também me atraiu o ambiente familiar em que não se deixa exprimir muito o amor, ou quando se exprime é de forma conflituosa.”

Sobre a estreia do filme na Piazza Grande, Giordana diz ser uma sensação extraordinária ver 7 ou 8 mil pessoas a assistirem ao seu trabalho. “Não se vê isso em mais lado algum e é muito emocionante”, acrescentou, antes de atacar alguns festivais de cinema – sem os nomear – onde outras coisas além da 7ª arte parecem ser o principal: ”É bom ter um festival onde ainda é muito importante o cinema e não as passadeiras vermelhas, os vestidos, as estrelas. Quase todos os grandes festivais de cinema passaram a dar mais importância a isso que aos filmes”.
Escrito em parceria com Marco Bellochio e Glória Malatesta, “La vita accanto” conta com uma dedicatória a Chantal Akerman, algo que o realizador explica: “Ela teria a minha idade hoje e estreou-se com um filme absolutamente extraordinário, ‘Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles‘. Era uma cineasta completa, enorme. Abordava temas que não eram de todo modas, como acontece hoje. Conheci-a num festival. Era uma pessoa afetuosa e amigável. E belíssima.
Reconhecendo que o seu percurso no cinema foi sempre “anárquico” e que tem o seu “destino separado do da indústria”, Giordana fala do cinema atual com algum “tédio”, deixando algumas bicadas pelo caminho: “O cinema é o contrário do algoritmo. Ninguém vai ao cinema ver um filme feito pela inteligência artificial. Os filmes tornaram-se todos iguais, em que sabes que a certo ponto vai acontecer isto e aquilo. Para mim, é um tédio absoluto. O cinema é imprevisível. Cineastas como Alfonso Cuarón ou Scorsese, que trabalharam para as plataformas de streaming, não mudaram a sua poética. Continuam a fazer os seus filmes. Se as plataformas são inteligentes em chamar os autores porque simplesmente fazem os seus filmes, tudo bem. É um “logotipo” como qualquer outro. Agora se os chamam para serem soldados da nova ideologia woke, então não me agrada”.
Brincando que neste estado de indústria “não tem futuro”, o italiano recorda que sempre conseguiu fazer cinema com pouco dinheiro e até mesmo com metade do que os orçamentos exigiam: “A minha trajetória no cinema sempre foi muito anárquica. Não tenho um projeto, sigo a ideia do destino. Sou um fatalista. A Itália, desde a idade da pedra, sempre viveu em dificuldades. Quando comecei a fazer cinema, há 45 anos, dizia-me que o cinema estava em crise e que este e aquele iam falir. Na verdade, um estado de crise pode fazer bem ao cinema. Talvez se veja uma seleção natural da sobrevivência dos mais fortes.”
O Festival de Locarno prossegue até dia 17 de agosto.

