Marta Bergman leva ao Cairo a tragédia migrante que abalou a Bélgica

(Fotos: Divulgação)

O tema da migração tornou-se um músculo central do discurso político na Europa, sempre tensionado entre a compaixão e o medo, entre a burocracia e o desamparo. Esses discursos, onde impera a clara separação entre o “nós” e o “eles”, têm tido reflexos em toda a arte, com o cinema e a televisão a trazerem para o espectador múltiplas histórias que frequentemente possuem uma forte toada política — mesmo não panfletária ou partidária, são sempre assumidamente humanistas. De Loach aos Dardenne, de Kaurismäki a Bouchareb, Winterbottom ou Rosi, a migração tem sido lida pelos mais diversos olhares, e Marta Bergman junta-se novamente a essa discussão com The Silent Run (L’Enfant bélier), filme que recusa a retórica simplista e procura, antes, escutar as fraturas íntimas que o fenómeno abre e marca para sempre.

Fiel ao seu modo de filmar vidas em trânsito e as zonas cinzentas entre culpa, responsabilidade e lei — já visível em Seule à mon mariage (2018) — Bergman cruza novamente a ficção com um realismo quase documental, de grande atenção ao detalhe , através da história de Sara e Adam, um casal sírio que atravessa a Bélgica num camião carregado de migrantes rumo ao Reino Unido. Uma perseguição policial, filmada com uma tensão quase física, reorganiza brutalmente o destino de todos os que estavam presentes — migrantes e polícias.

A história é inspirada num caso real — uma criança baleada — mas também em muitas outras histórias”, contou a cineasta ao C7nema no Festival do Cairo. Marta passou meses a ouvir famílias e migrantes, a acompanhar patrulhas noturnas, a observar o aparelho policial por dentro. Dessa pesquisa nasce um gesto ético: recusar a demonização e a simplificação, quer dos polícias, quer dos migrantes. “A tese da escrita era esta: tínhamos duas famílias em oposição”, explica. De um lado, a polícia como clã, como estrutura identitária que o protagonista sente dever proteger, mesmo quando isso o dilacera. Do outro, os migrantes, que funcionam como espelho, lembrando-lhe um passado que raramente se diz, mas vibra no silêncio. O tiro que desencadeia a tragédia — sugere Bergman — é menos um ato isolado do que um ricochete moral. Redouane, polícia com vinte anos de serviço, habituado a perseguir traficantes de pessoas, vê-se subitamente confrontado com as consequências trágicas de uma operação “rotineira”. Do outro lado, um casal sírio confrontado com uma perda eterna.

Tudo foi muito forte emocionalmente. Tivemos muita preparação”, explica Marta, que agradece à produtora Cassandre Warnauts a defesa de um processo de construção longo: não apenas ensaios, mas encontros verdadeiros entre atores para encontrar gestos e sentimentos comuns. “As relações foram criadas antes. Os atores estavam na mesma energia.” A produção contou ainda com o apoio de uma especialista que, na vida real, comunicava mortes a famílias em contexto policial. “Ela estava sentada ao nosso lado, só para garantir a autenticidade.”, diz Marta.

O resultado é um filme que olha para a migração não como estatística ou manchete, mas como cicatriz aberta — íntima e política.

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