Sete nomes de destaque da indústria audiovisual europeia contemporânea desembarcam no Brasil para dar corpo à 17.ª edição do Festival de Cinema Francês do Brasil, que abre os seus ecrãs ao público nesta quinta-feira, 29 de outubro, com programação em mais de 50 cidades até 11 de novembro. Entre as estrelas da delegação estão as atrizes Laure Calamy, Alexandra Lamy e Pauline Clément, o ator Benoît Magimel e os realizadores Fabien Gorgeart, Marc Fitoussi e Pierre Salvadori, que participam em sessões e encontros com o público no Rio de Janeiro e em São Paulo. A abertura oficial para convidados acontece esta noite, no Estação Claro Gávea, com uma delegação cinematográfica disposta a mostrar a vitalidade de uma indústria que transforma a diversidade de estilos em política cultural.
Com 21 títulos, sendo 19 produções recentes e inéditas no circuito do festival e dois clássicos, a mostra — outrora conhecida como Varilux — reúne filmes que passaram por Locarno, Veneza, Cannes e pelo Festival de Comédias de l’Alpe d’Huez. Um dos principais chamarizes é o díptico La Bataille De Gaulle: L’âge de fer (De Gaulle: A França Livre – Parte 1) e La Bataille De Gaulle: J’écris ton nom (De Gaulle: A França Livre – Parte 2), de Antonin Baudry, exibido fora de competição em Cannes e responsável por mobilizar milhões de espectadores em França. Protagonizada por Simon Abkarian, Simon Russell Beale e Florian Lesieur, com participação de Benoît Magimel, a produção revisita junho de 1940, quando a ocupação nazi leva o general Charles de Gaulle a partir para Londres e organizar a resistência. O díptico reconstitui um momento decisivo da história europeia com a urgência de um épico político destinado às grandes plateias.
Outra aposta de apelo popular é La Vénus électrique (O Beijo Elétrico), de Pierre Salvadori, comédia que conquistou a Croisette com a sua combinação de romance, espiritismo e farsas sentimentais. Desde a pandemia, quando Annette, de Leos Carax, abriu o Festival de Cannes de 2021 diante de uma plateia mascarada, a França assumiu a tarefa de usar o seu principal evento cinematográfico como montra internacional da própria saúde criativa. Em 2022, a missão coube a Michel Hazanavicius, realizador de The Artist (O Artista), que abriu o festival com Coupez ! (Corta!), comédia de zombies. Em 2026, Salvadori assume essa posição simbólica com uma produção que aposta no charme do vaudeville e no talento de Anaïs Demoustier, uma das estrelas da nova geração francesa.
Argumentista prolífico nascido na Tunísia, Salvadori conquistou o público brasileiro com De vrais mensonges (Uma Doce Mentira), de 2010, e Dans la cour (Em Um Pátio de Paris), de 2014. Em La Vénus électrique (O Beijo Elétrico), transporta a plateia para Paris, em 1928, onde o jovem pintor Antoine Balestro, vivido por Pio Marmaï, perde a vontade de pintar depois da morte da esposa, Irène. Consumido pela culpa e pelo álcool, tenta entrar em contacto com a mulher por intermédio de uma médium. O encontro, porém, é uma fraude: Suzanne, personagem de Anaïs Demoustier, é uma trabalhadora de parque de diversões que entra furtivamente no trailer da suposta clarividente para roubar comida e acaba por fingir possuir poderes sobrenaturais.
Desesperado para que o seu cliente volte a produzir, o marchand Armand, interpretado por Gilles Lellouche, convence Suzanne a manter a encenação em troca do pagamento das suas dívidas. As sessões espíritas improvisadas passam a devolver a Antoine o desejo de pintar, enquanto a falsa médium se apaixona pelo homem que manipula. Salvadori extrai dessa premissa um jogo de aparências, melancolia e desejo, sustentado pela capacidade de Demoustier de transitar entre a malícia e a vulnerabilidade. A atriz foi um dos destaques da passagem do filme por Cannes, num papel que reafirma a sua aptidão para a comédia sem abrir mão da densidade emocional.
A comédia romântica também dá o tom de C’est quoi l’amour ? (O Que é o Amor?), de Fabien Gorgeart, vencedor do Grande Prémio do Festival de Comédias de l’Alpe d’Huez, onde Laure Calamy recebeu uma distinção pela sua interpretação. A trama transforma a tentativa de anular um casamento religioso numa viagem a Roma que reúne ex-cônjuges, filhos e novos parceiros. O projeto permite a Gorgeart investigar as configurações contemporâneas da família, as contradições da vida conjugal e a persistência dos vínculos afetivos para além das separações.
Já Ni vue ni connue (A Ilustre Desconhecida), de Marc Fitoussi, traz Isabelle Huppert no papel de uma figurante que sonha conquistar um papel de protagonista. A presença da atriz, uma das grandes referências internacionais do cinema francês, dá peso a uma narrativa que dialoga com as ambições, os fracassos e as fantasias de reconhecimento que atravessam o universo artístico. A visita de Fitoussi ao Brasil integra a aposta do festival em aproximar o público dos realizadores e dos processos criativos que estão por trás dos filmes.
A seleção também inclui Soudain (O Sentido da Vida), de Ryūsuke Hamaguchi, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes e rendeu o prémio de Melhor Atriz, dividido por Virginie Efira e Tao Okamoto. O realizador japonês, vencedor do Óscar de Melhor Filme Internacional por Drive My Car, investiga os vínculos humanos por meio de uma narrativa multicultural sobre solidariedade e dignidade. A presença de Hamaguchi na mostra amplia o diálogo entre o cinema francês e a produção internacional, confirmando que a identidade da seleção não se limita à nacionalidade dos realizadores, mas também à circulação de ideias e linguagens.
Outro destaque é Jupiter (Júpiter), thriller político de Alexandre Smia no qual Denis Ménochet, André Dussollier e Reda Kateb se veem envolvidos numa crise internacional que ameaça desencadear uma escalada nuclear. Ménochet interpreta o recém-eleito presidente francês Paul Archambault, convocado ao bunker antinuclear que dá título ao filme para decidir como responder à tentativa de assassinato do presidente russo e à ameaça de retaliação contra a Ucrânia. Sob pressão dos Estados Unidos e cercado por conselheiros políticos e militares, o chefe de Estado precisa de lidar com uma escolha em que qualquer erro pode colocar a humanidade diante de uma catástrofe.
A dimensão social da seleção aparece em La maison des femmes (A Casa das Mulheres), de Mélisa Godet, que acompanha uma equipa dedicada a acolher vítimas de violência e ajudá-las a reconstruir as suas vidas. Noutra frente, a preocupação ambiental conduz Le chant des forêts (O Canto da Floresta), de Vincent Munier, documentário distinguido com dois César — Melhor Documentário e Melhor Som — que acompanha três gerações de uma família numa imersão pelas florestas dos Vosges. A experiência sensorial da natureza, a transmissão de conhecimento entre gerações e a urgência da preservação ambiental aproximam o filme de uma tradição documental francesa que encontra na observação paciente do mundo uma forma de intervenção.
A memória cinematográfica ganha espaço com La Grande Vadrouille (A Grande Escapada), de Gérard Oury, com Bourvil e Louis de Funès. A comédia, que completa 60 anos, ultrapassou a marca de 17 milhões de espectadores em França e permanece como um dos grandes fenómenos populares da história do cinema do país. A programação recupera ainda Le roi et l’oiseau (O Rei e o Pássaro), de Paul Grimault, animação que celebra oito décadas de história e ocupa um lugar central na tradição do desenho animado francês.
O festival inclui também a curta-metragem Deux personnes échangeant de la salive (Duas Pessoas Trocando Saliva), de Natalie Musteata e Alexandre Singh, vencedora do Óscar de Melhor Curta-Metragem em Imagem Real deste ano. A obra integra a seleção como exemplo da diversidade de formatos e propostas que convivem no audiovisual francês contemporâneo, do grande espetáculo histórico ao cinema de invenção.
Ao longo das suas 16 edições anteriores, o Festival de Cinema Francês do Brasil já reuniu mais de 2,5 milhões de espectadores em solo sul-americano, consolidando-se como a principal montra nacional dedicada à cinematografia francesa. Mais do que apresentar lançamentos e clássicos, o evento faz circular diferentes modos de filmar, narrar e interpretar o mundo — uma diversidade que permanece entre as maiores forças do cinema produzido em França.

