José Pedro Lopes é um dos raros cineastas portugueses a aventurar-se por uma longa-metragem de terror – não é fácil conseguir os fundos para cinema de género em Portugal. “A Floresta das Almas Perdidas”, lançado em 2017, ficou inscrito como uma aventura que ainda não teve sequela.
O realizador do Porto, no entanto, entre outras atividades, acabaria por ser convidado para o projeto brasileiro “Histórias Estranhas” – produção coletiva que trazia episódios independentes feitos por diferentes cineastas. Quando surgiu o segundo, Lopes recebeu o convite e viria a fulgurar, com o seu “Insonho”, como o único português no empreendimento.
Como surgiu a tua participação no projeto?
Durante a promoção da minha longa-metragem “A Floresta das Almas Perdidas“, por festivais, conheci o “Histórias Estranhas“, do Ricardo Ghiorzi. Gostei muito do projeto, por ser uma antologia com um tema local e uma abordagem cultural. Falei “online” com o Ricardo e ficou a promessa de que, se um dia houvesse uma sequela, a antologia de terror brasileira iria ter um capítulo transatlântico. Passou toda uma pandemia até o Ricardo se aventurar no segundo filme e, quando me falou, disse logo que sim.

O “Insonho” vem da mitologia portuguesa. Como tomou conhecimento da história?
O meu filho mais velho tinha um livro chamado “Bestiário Tradicional Português” que contava mitos com ilustrações para crianças. Li várias vezes com ele e gostava da ideia do Insonho. Era uma espécie de Súcubo (demónio com aparência feminina que invade o sonho dos homens a fim de ter relações sexuais com eles para lhes roubar a energia vital).
O Insonho é pequeno, senta-se no teu peito quando dormes e provoca pesadelos. Achei uma ideia fantástica para um filme – misturando o imaginário visual do que são os demónios do folclore transmontano. O nosso “Insonho” é, visualmente, uma espécie de careto demónio.
Neste sentido filmou livremente, transformou o elemento onírico numa espécie de “loop” surreal…
Sim, fui buscar inspiração a alguns filmes de pesadelo que adoro. Em especial ao “PZ, Viagem Alucinante” (Jacob’s Ladder no original, de Adrian Lyne, com Tim Robbins), pois nele também a linha entre a vida e a morte era povoada por um pesadelo que era uma repetição. Queria também pegar na ideia do primeiro encontro que nunca termina e se vai transformando.
Da parte da produção havia apenas a indicação de que devia respeitar o tema “Demónios e Possessões“?
Sim. No “Histórias Estranhas 2” a única regra era a duração e o tema ser referente a demónios e possessões. A ideia também era cada um se aproximar de algo local seu. O meu segmento é o único que não é passado no Brasil, e vou buscar mitos do Norte de Portugal. Mas os demais segmentos são todos ambientados em zonas bem diferentes do Brasil, com mitos bem locais vindos do sítio onde têm origem.
Como foi a produção?
A produção foi mais difícil do que precisava porque optamos por filmar em Fevereiro e o frio tornou-se um grande adversário. Foi quando a agenda alinhou para o que era um projeto pequeno e de amigos. Fora isso, foi uma rodagem bem fácil – com atores e uma equipa técnica que se conhece bem e que já trabalhou em conjunto antes.
“A Floresta das Almas Perdidas” foi uma das raras longas-metragens de terror em Portugal. Podemos esperar, quem sabe, uma nova longa-metragem no futuro?
Ainda nos dias de hoje vejo que “A Floresta” vai sendo recordada, não só por ser um exemplar raro de terror português, mas também por ser uma abordagem invulgar ao terror no sentido melancólico e dramático que segue. Foi um filme que gostei muito de fazer e adoraria voltar a produzir uma longa-metragem assim.
No entanto, é muito difícil filmar sem apoios um projeto tão longo, e muito frustrante ficar anos seguidos e tentar e a falhar nos apoios. Não significa que um dia não voltarei a fazer uma longa-metragem e, se o fizer, será nas mesmas linhas artísticas. Mas não planeio arriscar por esse caminho em breve.
Em 2025 deverei fazer um segmento para o “Histórias Estranhas 3“, que deverá ser bem diferente do “Insonho”. Aliás, todo o terceiro projeto será uma grande surpresa.

