Palma(s) para Cannes: Spike Lee como presidente do júri desafia intolerância

(Fotos: Divulgação)

No meio de uma releitura hip hop de Romeu e Julieta, chamado “Prince of Cats“, e já em idealização, Shelton Jackson “Spike” Lee fechou uma participação histórica no Festival de Cannes: o cineasta vai presidir o júri da Palma de Ouro na 73ª edição do evento, agendada de 12 a 23 de maio, num momento em que os movimentos de inclusão racial mais avançam na luta contra o preconceito.

O convite chega quase um ano depois da sua vitória no Oscar, laureado com a estatueta de melhor guião adaptado por “BlacKkKlansman: O Infiltrado“, filme que deu-lhe também o Grande Prémio do Júri na Croisette, em 2018. Foram vitórias que, somadas a uma bilheteira pantagruélica (custou 15 milhões de dólares e faturou 93 milhões), deram à sua carreira uma dose extra de produtividade. Sem contar com a versão personalíssima dos Amantes de Verona, em que milita agora, ele finaliza Da 5 Bloods, com Giancarlo Esposito, Paul Walter Hauser e Chadwick Boseman como ex-combatentes do Vietname. É um dos títulos que se espera em Veneza e Toronto. E, nessa expectativa, ele amadurece, como contador de histórias e como um porta-voz das desigualdades de cor nos EUA.

Nenhum outro cineasta na história, nas últimas quatro décadas, conseguiu mobilizar tanto a opinião pública acerca da condição das populações negras, em relação às mazelas sociais e à violência estatal, quanto ele, realizador que fez de “Não Dês Bronca” (1989) uma bandeira contra a intolerância. E, a partir desse filme seminal para a definição estética dos rumos que o cinema tomaria de 1990 em diante, um exército de longas-metragens com características visuais muito particulares marchou nos ecrãs, guiados pela busca estética, etnográfica e ética de Lee levando a marca de um nova narrativa politizada e humanizada mundo afora, incluindo aí “Quanto Mais Melhor” (1990), “A Febre da Selva” (1991) e “Malcolm X” (1992).

A cada dia, 99 americanos são assassinados, e maioria deles é negra. Mas a pergunta que todo mundo fica a fazer é sobre o destino de Trump e não sobre a segurança do povo. É um mundo com muito barulho lá fora“, disse o diretor ao C7nema, em 2016, bem antes de iniciar a produção de “BlacKkKlansman“, cuja história chegou a seus ouvidos a partir de uma dica do também realizador Jordan Peele, de “Get OuT” (2017), sobre o caso real de um policial de ascendência africana que se infiltrou numa célula supremacista da Ku-Kux-Klan. “Foi o Jordan quem me contou esta história e ela parecia tão maluca que acreditei, a princípio, que fosse uma piada. Falei com ele ao telefone, se esse caso for real, compra os direitos do livro para mim que eu vou filmar essa história. Ela fala sobre o que somos hoje“.

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BlacKkKlansman

Ao posar para um ensaio fotográfico para a capa da revista “Time”, em meados de 2018, às vésperas do lançamento de “BlacKkklansman“, Lee encasquetou com o excesso de fios grisalhos da sua barba e dos seus cabelos. Reclamar da idade tornou-se uma constante nas recentes declarações do cineasta que fez da militância racial uma bandeira estética desde sua estreia na realização, em 1979 – data em que fez a sua primeira curta-metragem, Last hustle in Brooklyn. Há dois anos, em pleno Festival de Cannes, os sinais de que a sua juventude ficou no passado arrancou do cineasta de 62 anos uma reflexão simples, mas eficaz, sobre a finitude: “Estou a ficar velho, não sou mais um miúdo, mas ainda percebo que, quando falamos em racismo, as coisas ruins de antes ainda estão por aí“, disse o cineasta, nascido em 20 de março de 1957, em Atlanta, na Georgia.

Mas a arte envelhecer não tirou de Spike a arte de provocar: este é o verbo de ação do seu BlacKkKlansman, definido pelo crítico A. O. Scott do “The New York Times” como “o melhor filme de ficção do cineasta em mais de uma década… funcionando como um furioso, engraçado e brilhante confronto com a verdade“. Definição curta e grossa da trama: no final dos anos 1970, um policia negro conseguiu, só com um telefonema, infiltrar-se no Ku-Kux-Klan, organização que defende a supremacia branca. Estamos em 1979, no Colorado, e, lá,  Ron Stallworth (John David Washington, filho de Denzel) ficou a saber de uma convenção do Ku-Kux-Klan e resolveu se “misturar” entre os seus integrantes. Não por acaso, Lee lançou o filme no dia 10 de agosto de 2018, um ano depois dos tumultos racista em Charlottesville. Eis a polémica no ar… e eis uma curiosidade: como o polícia conseguiu integrar-se juntamente com pessoas que odeiam negros? Atrás de uma resposta, milhões de pagantes foram aos cinemas para prestigiar o cineasta. “Tudo o que eu quero é fazer a América despertar“, diz Lee. “O doido (o presidente Trump)está por aí e precisamos abrir os olhos“.

No Velho Mundo, o filme saiu premiado de Cannes (reforçado por uma menção honrosa dada pelo Júri Ecuménico) e recebeu o prémio do Júri Popular no Festival de Locarno, na Suíça. Ganhou mais 41 prémios nas suas andanças pelo planisfério cinéfilo. Em 1989, ele disputou o prémio francês com o filme que o consagrou, Não Dês Bronca, mas o presidente do júri de então, o alemão Wim Wenders, preferiu não referendar sua estética nervosa. O eleito de Wenders era uma outra longa-metragem americana, “Sexo, Mentiras e Vídeo”, de Steven Soderbergh. À época, reclamaram que o final do filme de Spike não oferecia soluções para a questão racial, pois apenas atirava sujeira no ventilador. Claro que ele não poderia oferecer soluções, afinal, as tais questões ainda estão por aí até hoje. “Por isso eu filmei este novo filme, pois a confusão permanece“, explicou Lee, que trabalhou recentemente na série She’s gotta have it (“Ela quer tudo”), para a Netflix, tendo, paralelamente, filmado projetos para a Amazon , como a ficção Pass over, lançada em Sundance.

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Sempre ligado a projetos documentais, Lee usou imagens reais dos conflitos de Charlottesville como uma espécie de epílogo para BlacKkKlansman. São essas cenas documentais que servem como uma espécie conexão entre os horrores de hoje e os horrores do racismo dos anos 1970, enfrentados por Stalworth. Investigações nas veredas do documentário deram ao seu cinema uma intimidade – e um dinamismo narrativo – ainda mais possante na relação com o real, com destaque para The Original Kings of Comedy (2000), um sucesso de bilheteria mundial. A ele seguiram-se projetos documentais de impacto popular como a minissérie When the Levees Broke: A Requiem in Four Acts (2006) ou Kobe Doin’ Work (2009). Uns falam de crises, outros são biografias de ídolos. Uns vão para a televisão, outros para a sala escura. Não importa o caminho. Não importa o tema. O olhar é o da inquietação, que se manifesta também no plano da forma, num uso de linguagem capaz de transgredir convenções narrativas.

Apaixonado por técnicas analógicas do cinema, anteriores aos confortos da tecnologia digital, Lee afirma que rodou o filme em película, e não com cartões de memória, a fim de reproduzir o visual do combativo do cinema americano da década de 1970. No seu elenco, ele incluiu Adam Driver, o Kylo Ren da franquia Star Wars. “Não sou uma pessoa derrotista, mas eu ando de olhos abertos“, disse Spike. “Vejo as coisas. Ouço as coisas. Por isso, mesmo não sendo um pessimista, tento fazer as pessoas entenderem que existe muita coisa fora da ordem. Há que se abrir os olhos“.

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