ba·nha·da
(banho + -ada)
nome feminino
- [Portugal, Informal] Desilusão ou engano (ex.: tinha altas expectativas e levei uma banhada).
“banhada”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020
Capone

Há algo selvagem e bizarro na forma magnética como “Capone” nos cativa a atenção. Tom Hardy apodrece-o como uma caricatura grotesca de um vilão de “Dick Tracy“; Josh Trank arma-se em “Lynch a fazer de Scorsese” e cria um pantanal de realização. Juntos, fazem tanto sentido quanto o rosnar inteligível de Hardy. Acrescentem a isso a escatologia que empesta o ar, e este é daqueles filmes que até nos fazem sentir vergonha alheia. [Daniel Antero]
Bombshell

A influência de Adam McKay na produção cinematográfica norte-americana tem feito mais estragos que trazido benefícios. “Bombshell” é possivelmente o mais flagrante exemplo, seguindo o estilo ensaístico disparatado de McKay para contar uma história verídica sobre assédio sexual, abuso de poder e violação que merecia francamente mais. Embora o trio de atrizes (Theron, Kidman e Robbie) carregue o filme até à meta, o guião falha redondamente a sátira e a crítica, ficando-se por uma abordagem simplista e localizada que erra pela ausência da denúncia contextual, ideológica e axiológica que este caso suscita. [Guilherme F. Alcobia]
365 dias

365 Dni, o filme erótico que tem como propósito maior justificar e provar o quão essencial são os sites de pornografia, pois nesses espaços existem vídeos de 5 minutos mais competentes que ele. A única coisa que se aproveita neste filme é o protagonista, de preferência nu e calado. [Sofia Santos]
As Maravilhas de Montfeirmeil

A tremenda atriz Jeanne Balibar mostra toda a sua liberdade para exercitar um objeto tão delirante, como entediante e pretensioso. Um pastiche de intenções humanas que diz ajudar a reconstrução da imagem sobre certas realidades sociais, mas que apenas acentua a existência de uma elite que confunde liberdade com privilégio de poder filmar o que bem lhe apetece para uma crítica tão burguesa como ela. Un navet! [Jorge Pereira]
Tenet

Mais uma tentativa desesperada de Christopher Nolan de surpreender audiências com os seus raciocínios pseudo-quânticos cansativos e inúteis. Um filme desprovido de qualquer emoção ou caracterização, em que somos convidados a seguir um herói na sua viagem em espiral sem qualquer peso político, científico ou pessoal. Se esta descrição soa familiar, é porque o cinema de Nolan se tem tornado um mero exercício automasturbatório. [Guilherme F. Alcobia]
A Ilha da Fantasia

A produtora Blumhouse violenta o realismo mágico da série televisiva “Fantasy Island” e injecta-a de adrenalina e terror! Isto era o desejo do produtor Jason Blum, mas…bem…na verdade, não. Violenta com cacetadas valentes. Efeitos especiais e representações sofríveis num argumento rocambolesco que mistura princípios de “Lost” ou “Inception“, não servem sequer para tornar “A Ilha da Fantasia” o nosso novo “guilty pleasure”. Esperemos que não se lembrem de fazer uma reinvenção destas com “O Barco do Amor“. [Daniel Antero]
Jojo Rabbit

Taika Waititi é um narrador sem retidão. Os seus filmes perdem o foco no eixo reflexivo que pressupõem abrir e disfarçam essa perda na aposta numa linha popularusca que dessacraliza contextos épicos ou históricos sem qualquer vigor. [Rodrigo Fonseca]
Milagre da Cela 7

Não é propriamente uma “banhada”, mas a confirmação da mesma já que conhecia o produto original sul-coreano que também foi um poço de lágrimas e um grande sucesso nas bilheteiras. O que surpreendeu foi o frenesim das redes sociais em 2020 sobre um filme que manipula, passo a passo, as emoções mais básicas, nunca aprofundando em sentido algum os temas ligados à injustiça retratada. A câmara lenta, os planos chorões (com música carregada para o mesmo) tornam o filme num dos objetos mais clichês e manipuladores do ano. [Jorge Pereira]
Dolittle

Sherlock e Iron Man. Com estes dois papéis é natural que Robert Downey Jr tenha ficado com alguns tiques das personagens e se tenha enamorado tanto por ele próprio. Força criativa por trás de mais uma adaptação de Dolittle, o ator americano polvilha este filme com os seus caprichos e murmúrios resmungões para o tornar enfadonho, imperceptível e perdido. Para não falar de que o realizador deste filme infantil onde há uma cena em que se tira uma gaita de foles do rabo de um dragão, é o mesmo que fez o “Syriana” e escreveu “Traffic“… [Daniel Antero]
The Hunt

Uma materialização e literalização da oposição binária que no século XXI tem criado um fosso inconciliável entre os dois espetros políticos clássicos: conservadores de direita e liberais de esquerda. Enquanto sátira, o enredo não faz mais que simplificar, parodiar e estupidificar esta cisão política, particularmente no contexto dos Estados Unidos. Toma todos os caminhos fáceis sem acrescentar nada à discussão que não fosse já óbvio para todos. Em última análise, só contribui para a progressiva ridicularização e descredibilização do parlamentarismo democrático. [Guilherme F. Alcobia]
O Céu da Meia-Noite

Uma das promessas na realização no cinema dos EUA da primeira metade dos anos 2000, George Clooney optou por desfocar as tramas políticas e ampliar o seu escopo de géneros, investindo em filões com o qual não demonstrar qualquer intimidade, como a sci-fi. Ao mesclar ficção científica com cinema catástrofe, outra linhagem com a qual não dialoga bem, o Clooney cineasta arrisca um ensaio existencial sobre a finitude do planeta que se bifurca em narrativas inconciliáveis. Complica-se ainda na inabilidade em erguer personagens tridimensionais. Tudo soa a raso. [Rodrigo Fonseca]
Nota: há filmes incluídos nesta lista que chegaram a estar incluídos no top pessoal de alguns dos críticos permanentes do c7nema na votação para os melhores do ano 😉

