O novo filme de Maria Sodahl estreou no Festival de Berlim
Embora a cineasta Maria Sodahl insira elementos de humor ácido na dramaturgia de tons autobiográficos do seu “Hope” (“Hap”), o que transformou este doloroso drama vindo da Noruega num evento na mostra Panorama do 70º Festival de Berlim não foi seu arejamento cómico, mas sim seu mergulho radical na finitude. Na nova longa-metragem da realizadora de “Limbo” (2010), Anja e Tomas (Andrea Bræin Hovig e Stellan Skarsgård, num desempenho avassalador) enfrentam as festas de Fim de Ano na Escandinávia assolados pela dor depois dela desenvolver um tumor cerebral.
“Existem experiências que vivi nesse projeto, mas ele não é um ‘filme sobre cancro’ e, sim, um filme de amor, sobre encarar fardos a dois“, disse Maria ao C7nema, na Berlinale, isto depois de ser aplaudida com entusiasmo pela delicada construção de um matrimónio intergeracional (Anja é bem mais jovem) assombrado pela Morte.
Quem assina a fotografia é Manuel Alberto Claro, parceiro de Lars von Trier em filmes de culto como “Melancolia”. “Queríamos que a dor retratada no guião parecesse a algo com o máximo de realismo. Para isso, Manuel trabalhava como se fosse um dos atores, movendo-se em resposta aos corpos dos protagonistas, como se respondesse às ações deles“, disse Maria. “Existe um hábito no cinema de tratar histórias assim por um prisma cerebral ou então emotivo. Eu preferi outra via, mais profunda, indo às entranhas da situação“.
O clima intimista da narrativa caiu como iguaria no paladar de Skasrgard, um fã do silêncio. “O que dá um diferencial ao cinema, em relação à atuação, é a verdade que existe nas brechas entre as palavras. É pela quietude que as imagens falam“.

