Djebril Zonga: de jogador do Pedras Rubras a estrela de “Os Miseráveis”

(Fotos: Divulgação)

Em criança, os ídolos de Djebril Zonga eram Andre Agassi e Andreï Medvedev. Aos 9 anos, o jovem de Clichy-sous-Bois (Seine-Saint-Denis) começou a praticar ténis, mas o desporto era caro para a sua família suportar, já que a mãe era dona de casa e o pai taxista.

Foi assim que apareceu o futebol na sua vida (“desporto barato”) e quando um amigo do AS Bondy, o clube onde treinava um tal de Kylian Mbappé, o aconselhou a registar-se no clube e a praticar o desporto, Djibril não pensou duas vezes. Seguiram-se anos de atividade futebolística, realizando testes em clubes como o Colchester United, em Inglaterra (D2). Jogaria no Ivry-sur-Seine e “aterrou” depois em Portugal para jogar no FC Pedras Rubras, onde se lesionou. Depois de um ano no nosso país, Djebril Zonga decidiu dar outro rumo à sua vida, assumindo a profissão de manequim.

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Anos mais tarde, o rapaz de Clichy-sous-Bois está nas bocas do mundo, não pelos seus trabalhos no mundo da moda, nem tão pouco por qualquer coisa a ver com o futebol. Juntamente com Damien Bonnard e Alexis Manenti, Djebril Zonga protagoniza um dos filmes mais eletrizantes de 2019: o poderoso Les Miserables (Os Miseráveis), de Ladj Ly.

Nomeado ao Oscar de Melhor Filme Internacional e um dos mais premiados filmes franceses de 2019 (Prémio do Júri do Festival de Cannes; Vencedor dos Prémios Lumière; 12 nomeações aos César), nesta produção acompanhamos três policias da Brigada Anti-Crime (BAC) de Montfermeil, nos arredores de Paris, que são apanhados numa teia de tensões entre diferentes gangues locais. Durante uma detenção, um drone filma todos os seus atos e gestos e estes não têm nada de pacífico, pondo em risco a ténue paz numa área controlada por uma figura local que se auto-denomina Le Maire (o presidente da câmara).

O sucesso do filme apanhou todos os envolvidos de surpresa e para Djebril Zonga, como nos confessou numa entrevista em janeiro em Paris, o filme finalmente deu-lhe o que ele procurava nos dias que correm: o reconhecimento como ator.

Ainda é cedo, mas posso dizer que as coisas já mudaram bastante para mim. Hoje em dia, as pessoas já olham para mim como um ator. Isto é ótimo. Estamos muito orgulhosos deste filme e de todas estas coisas ligadas a ele: os prémios, a presença nos Oscars, nos Globos de Ouro, etc. Faz-nos sentir que realmente participamos em algo especial e isso é algo que nos vai marcar para toda a vida. Espero que este filme se transforme num clássico e que falemos dele durante muitos anos.”, disse Djibril ao C7nema, depois de nos explicar como foi crescer no bairro que é focado o filme. Cresci exatamente onde filmamos. Tenho ótimas memórias da infância, pois as coisas não eram nada como são hoje em dia. Era uma zona muito povoada, com muitas famílias, mas tudo mudou. A minha zona era muito pacífica e Montfermeil era mais confuso e complicado. Agora é o contrário. A minha zona complicou-se e Montfermeil é muito calma. A minha infância foi muito sossegada, estavamos sempre a brincar a toda a hora e não havia tanta polícia ou brutalidade.

Admitindo que nunca viu in loco nenhuma situação de violência policial, Djibril menciona conhecidos, gente próxima que passou por essas situações: “Nunca assisti pessoalmente, mas todos dias temos conhecimento por pessoas que conhecemos de miúdos com problemas e alguns que foram mesmo mortos pela polícia.

Inspirado na obra clássica de Victor Hugo, mas com um toque urbano e contemporâneo por Ladj Ly, Os Miseráveis chega aos cinemas portugueses no próximo dia 20 de fevereiro.

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