Depois de anos e anos de “namoro” fiel com Cannes, de onde saiu com a Palma de Ouro, em 2001, por O Quarto do Filho, o italiano Nanni Moretti pode abrir a sua relação e mudar de festival.

Corre pela Europa um rumor que sua nova longa-metragem, Ter Piani, também chamado de La Nostra Strada, vá ter a sua estreia mundial na 70ª edição da Berlinale, agendada de 20 de fevereiro a 1 de março.
Estima-se que o filme vá integrar a seleção de concorrentes ao Urso de Ouro de 2020, apoiado num esforço da (recém-empossada) dupla de curadores do evento alemão, Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian, para ampliar a potência pop da mostra competitiva. A produção pilotada pelo realizador de Querido Diário (1993) é baseada num romance do israelita Eshkol Nevo sobre um grupo de pessoas, de índoles distintas, confinadas num mesmo condomínio de Roma. Riccardo Scamarcio, Alba Rohrwacher e o próprio Moretti estão no elenco da longa metragem, que viu a expetativa em torno do seu lançamento aumentar depois da inclusão de um dos filmes mais controversos do cineasta, Mia Madre (2015), na lista dos melhores filmes da década feita pela edição de dezembro da Cahiers du Cinéma.

Tre Piani
“Acredito sempre que nos falta um pedaço, existencial ou moral, impossível de ser preenchido. E é essa ausência que alimenta o meu cinema, abrindo a deixa para os espetadores remontarem as minhas histórias, na sua cabeça, como quiserem. Não sou imparcial nunca, mas sou sempre aberto ao diálogo“, disse Moretti em entrevista ao C7nema, quando finalizou o documentário Santiago, Itália (2018) e começou a produzir Tre Piani, cujas vendas internacionais já foram asseguradas pelo European Film Market da Berlinale. “Não é que eu alimente controvérsias, só que cultuo a dialética, buscando sempre por retóricas em xeque. Existe muito de mim que não será entendido ou sequer percebido fora da Itália, onde tenho um perfil bem definido junto ao público e à crítica. No meu país, os filmes que faço são vistos em referência às posições políticas que assumo, à minha forma de me comportar diante das câmaras. Fora de lá, ninguém sabe dessa persona que me atribuíram“.

Tre Piani
Há época da estreia de Mia Madre, em Cannes, o Júri Ecuménico premiou o exercício de reflexão de Moretti sobre noções de família e identidades de nação. Falava-ve, duarnte a estreia da fita, que o tempo foi cruel com O quarto do filho. Há quem diga que aquela melodramática investigação sobre eclipses familiares envelheceu em demasia, ostentando mais rugas do que a idade faria crer. Mas nem por isso o cineasta italiano – o mais bem-sucedido de sua geração, com 47 anos de carreira – desistiu de versar sobre perdas iminentes, voltando-se sobre a maternidade e tolerâncias – o tema de Ter Piani.

Tre Piani
Porém, a figura materna de Mia Madre, um drama de passagens hilariantes, serve de metáfora a uma pátria agonizante, Itália, que luta para preservar a sua memória e manter suas raízes culturais frente à falência financeira do seu continente. Nele, a atriz Margherita Buy encarna o alter ego do realizador: ela é uma cineasta às voltas com a filmagem de um drama político marxista. O set ferve sobretudo com a chegada de um ator americano, Barry Huggins (John Turturro, memorável), canastrão como ele só. Às inquietações no trabalho somam-se as turbulências pessoais expressas pela certeza de que a velha mulher que pariu a realizadora está a um passo de morrer. Esse é o gatilho que detona um ensaio sobre resistência: doce e engraçado como só Moretti é capaz de fazer em seu país. “Há momentos em que a objetividade precisa dar lugar aos afetos“, disse Moretti ao C7nema em Cannes, onde encheu Turturro de elogios. “Fora todo o respeito que já tinha pelo ator Turturro, fui, ao longo dos anos, ficando encantado pelo trabalho dele como realizador. Conhecemo-nos aqui mesmo na Croisette, em 1998, quando ele concorreu com Illuminata e eu com Abril. A experiência dele em conduzir os sets facilitou muito a nossa relação e ele trazia-me ideias que complementavam a personagem. Fora isso, ele tem uma relação pessoal com a Itália, o que nos aproximava. Eu não escolho amigos, escolho pessoas lúcidas, que compartilham das minhas angústias e dos meus encantos“.

