19 de agosto de 1978: a tragédia num cinema que serviu de faísca para à Revolução Islâmica no Irão

(Fotos: Divulgação)

A 19 de agosto de 1978, centenas de espectadores iranianos entraram no Cinema Rex, em Abadã, no sul do Irão, para ver Gavaznha (O Alce), um filme local considerado por muitos como anti-regime e que enfrentara dificuldades para estrear. A certa altura, quatro homens bloquearam as saídas e incendiaram o edifício após derramarem um líquido inflamável, que muitos apontaram como gasolina para aviões. Segundo a Amnistia Internacional, num relatório de 1980, morreram mais de 400 pessoas — embora estimativas variem entre 377 e 800 vítimas mortais.

Após a tragédia, seguiu-se outra: a execução sumária de dezenas de pessoas ligadas, direta ou indiretamente, ao caso.

Nunca se apurou com certeza quem foi o responsável. Em plena revolução, as acusações multiplicaram-se. Os partidários do Xá culpavam os islâmicos, alegando que os cinemas eram “uma afronta a Deus, que encorajava o vício e a decadência ocidental”, como escreveu Daniel L. Byman no Washington Post em 2007. Já em 2001, o jornal iraniano Sobhe Emrooz sugeriu que o massacre teria sido obra de apoiantes do aiatolá Khomeini — uma alegação que levou ao encerramento imediato do jornal.

Por outro lado, os sectores ligados a Khomeini acusavam os partidários do Xá, nomeadamente a polícia secreta SAVAK, treinada pelos EUA. Afirmavam que o cinema era um foco de dissidência revolucionária e que os agentes teriam trancado o edifício e ateado fogo durante uma operação de repressão.

Existe ainda uma terceira hipótese: a de que o incêndio teria sido provocado por pirómanos, sem motivação política. Foi a defesa apresentada em tribunal pelo único dos quatro acusados a sobreviver. Mas essa versão não interessava nem ao regime islâmico nem aos monárquicos — ambos preferiram instrumentalizar a tragédia.

Um momento-chave da revolução

O rumor mais alastrado na altura apontava para a SAVAK como responsável. A indignação popular espalhou-se por todo o Irão. Dezenas de milhares invadiram as ruas de Abadã e Teerão, gritando “Queimem o Xá!”. Os protestos intensificaram-se até à “Sexta-Feira Negra”, a 8 de setembro de 1978, quando o exército abriu fogo contra manifestantes na Praça Zhaleh, em Teerão, matando cerca de 90 pessoas.

A partir daí, a revolução ganhou ímpeto. Em janeiro de 1979, o Xá Reza Pahlavi fugiu para o Egito. Um mês depois, o aiatolá Khomeini regressou do exílio, em França, e proclamou a República Islâmica do Irão — que se mantém até hoje.

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