Hailey Bailey, a pequena sereia

(Fotos: Divulgação)

A Pequena Sereia chega aos cinemas em 2020

A Pequena Sereia foi o filme que iniciou a era renascentista da companhia Walt Disney. No fim da carreira de Walt Disney (em 1966), o estúdio começou a ter um imenso declínio de popularidade (apesar do sucesso de O Livro da Selva que surgia um ano depois do anúncio de fim de atividade) e, apesar de a empresa nessa altura já se ter expandido para vários empreendimentos, o sector de animação ameaçava fechar. A princesa Ariel foi a que segurou a tocha que iluminou o caminho de saída da “idade negra” e a Disney já não tinha um sucesso assim há muito tempo, ganhando força pela renovada qualidade da animação – cheia de beleza subaquática – e por um novo tipo de princesa que se distanciava da clássica por ter um papel mais ativo.

Neste mundo previsível e enfadonho de remakes e sequelas da Disney, não foi surpresa para ninguém quando o estúdio anunciou que também A Pequena Sereia iria ter uma versão live action. Com isto em mente, a única coisa que tal adaptação parecia ter que gerasse curiosidade era a possibilidade de ver o bonito mundo de Tritão e das sereias construído pelos vários milhões da empresa. No entanto, nos últimos dias, a Disney conseguiu fazer muitas cabeças virar com o anúncio de quem viria dar vida à sereia mais famosa do cinema. Hailey Bailey foi, segundo Rob Marshall, o diretor que irá dar vida ao conto de fadas, a escolha perfeita para o papel: “Depois de uma longa busca, ficou claro que Halle tem aquela rara combinação de espírito, coração, juventude, inocência e substância — além de uma voz gloriosa. Todas as qualidades intrínsecas necessárias para atuar neste papel icónico

Bailey é uma cara relativamente nova em Hollywood. Após ter participado em pequenos papéis em séries do Disney Channel, fez parte da primeira temporada da série de televisão Grow-ish (spin-off da vencedora de prémios Black-ish). Para além disso, faz parte da banda Chloe X Halle, que após encontrar sucesso no Youtube abriu algum dos concertos da super estrela Beyoncé.

A afroamericana recebeu apoio de grandes vozes, de atores como Zendaya e Sophie Turner, que correram para felicitá-la no Twitter. No entanto, a questão sobre o porquê da escolha de uma atriz negra para interpretar uma personagem que foi desenhada com pele pálida e cabelo vermelho foi levantado por outros. A hashtag #notmyariel começou a ser dominante no Twitter alguns dias após o anúncio e petições online – para substituir a atriz principal – foram até começadas.

O termo Whitewashing tornou-se popular nos últimos anos para descrever o fenómeno em que são escolhidos atores “brancos” para representar personagens de diferentes etnias. Casos como a famosa atriz Emma Stone interpretar uma personagem que é parte Chinesa, parte Havaiana e parte Sueca, ou mais recentemente Scarlett Johansson a protagonizar a adaptação de um anime japonês (Ghost in a Shell) geraram controvérsia nas redes sociais e popularizaram o termo. Whitewashing é considerado um problema em Hollywood porque as chamadas “minorias” não têm muitas oportunidades para terem papéis principais em filmes, chegando a ser quase violento quando estas minorias inseridas num guião não são escolhidas em favor de argumentos de popularidade e rentabilidade. Sendo assim, questões de “blackwashing” foram levantadas após o anúncio do casting. Se não estariamos a passar pelo mesmo problema, mas agora revertido.

Na verdade, é difícil afirmar que escolher uma atriz negra para interpretar uma personagem canonicamente branca é o mesmo do que a usual situação inversa pela simples razão que o contexto da escolha é diferente. Principalmente, pois a estrutura em que Hollywood foi feita tende a beneficiar os atores brancos. Por outro lado, não podemos ignorar o movimento que está a lutar por uma representação mais ampla no cinema, onde fenómenos como Black Panther e Crazy Rich Asians vieram provar o quão rentável é contratar minorias para papéis principais.

É verdade que se trata de um conto de fadas e que a realidade está a ser alterada para uma fantasia. No entanto, é difícil negar que uma personagem passar a ser negra numa adaptação poderá mudar a maneira como esta interage com outras personagens e com o meio. Especialmente quando temos em conta que o conto que inspirou o filme original se passa na corte da Dinamarca. Assim, e apenas uma reposição da etnia da personagem sem considerar o contexto ou tentar adaptar a história soa apenas a mudança comercial. Uma busca do lucro em vez de uma genuína e abrangente tentativa de representação.

Também confirmados no elenco estão o bastante jovem e talentoso ator Jacob Tremblay (conhecido pela sua participação no filme nomeado para o oscar Quarto), que fará de companheiro de Ariel, o peixe Flounder, e Awkwafina (Crazy Rich Asians), que interpretará o papel da gaivota Scuttie. Rumores que Melissa Mccarthy interpretará o papel de Úrsula estão a vir à tona, mas nada ainda está definido uma vez que nomes como Lady Gaga também foram referidos para interpretar a vilã inspirada pela drag queen Divine.


Awkwafina

A Disney também já avançou que todas as música do original estarão presentes na nova adaptação. Foi ainda referida uma nova música original escrita por Lin Manuel Miranda. O encenador e ator do musical de sucesso Hamilton, da Broadway, já tinha trabalhado com a Disney antes, tendo sido o responsável por compor a banda sonora de Moana.

Quanto aos pormenores mais técnicos, o filme será dirigido por Rob Marshall que já tem experiência com musicais depois de dirigir Chicago e Caminhos da Floresta. O guião é de Jane Goldman, conhecida por projetos como Kingsman: Serviços SecretosA Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares.

Por enquanto, tudo indica que esta adaptação da Disney não fugirá muito a todas as outras que têm estado a passar no grande ecrã. Fotocópias que estão a ser lançadas a tal velocidade que se começam a confundir umas com as outras. Ficará para ver se a escolha da atriz foi um movimento estratégico para gerar barulho e cliques ou se estamos realmente perante uma escolha sensível que levará o filme a lugares interessantes.

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