Hannah Arendt: o julgamento de um genocida e a banalidade do mal

(Fotos: Divulgação)

A cobertura jornalística do julgamento de Adolf Eichmann por Hannah Arendt é o centro do novo trabalho da veterana cineasta alemã Margarethe von Trotta, já exibido por cá na Mostra de Cinema Judaico, ocorrida em maio.

Com filmagens em Jerusalém, no Luxemburgo e na Westfalia (Alemanha), Hannah Arendt cobre quatro anos da vida da filósofa. A também veterana Barbara Sukowa, que já trabalhou com von Trotta em outros cinco filmes, faz o papel de Arendt, falecida em 1975. Exilada nos Estados Unidos após a subida ao poder de Adolf Hitler, ela foi enviada a Jerusalém pelo jornal New Yorker, em 1961, para cobrir o famoso julgamento de Adolf Eichmann, um dos mais importantes executores do holocausto nazi. O trabalho de Arendt rendeu um livro que se tornou um clássico –Eichmann em Jerusalém : Uma reportagem sobre a banalidade do mal.

O pano de fundo histórico é de grande interesse. O dirigente nazi foi uma das mais emblemáticas figuras da famosa “solução final” que os governantes alemães tentaram levar a cabo na 2ª Guerra Mundial – ou, por outras palavras, o extermínio físico dos judeus. Respondendo diretamente a Reinhard Heydrich, um dos líderes do regime, foi um idealizador extremamente pragmático da máquina operacional necessária para viabilizar a execução de seres humanos em massa. Após o final da guerra, conseguiu fugir com passaporte falso para a Argentina, país onde viveu pacificamente até ser sequestrado pelo Mossad, em 1960, e levado para Jerusalém para ser julgado. Após o julgamento, foi condenado e enforcado em 1962.

Eichmann em Jerusalém

Em Jerusalém, ele defendeu-se das acusações sem demonstrar qualquer culpa ou arrependimento – afirmando que apenas se limitava a cumprir ordens. Foi esse comportamento que influenciou Arendt a desenvolver a sua ideia a cerca da “banalidade do mal“, em que negava a noção de que os criminosos de guerra alemães fossem psicóticos diferentes das pessoas “normais” – ideia de humanização semelhante, aliás, ao retrato de Hitler feito por Oliver Hirschbiegel em A Queda.

Em entrevista ao Instituto Goethe, von Trotta afirmou que o grande desafio foi colocar em imagens os pensamentos de Arendt – e veio daí a insistência em que fosse Sukowa a fazer de Arendt, pois a sua experiência em filmes como Rosa Luxemburgo a habilitava a captar com precisão o discurso da filósofa – assim como da sua capacidade de improvisar.

Eichmann, por sua vez, não foi vivido por nenhum ator: a realizadora entendeu que seria impossível dar um carácter realista o suficiente a figura do criminoso nazi – que aparece no filme sempre com imagens de arquivo do julgamento. Von Trotta já realizou biografias sobre outras mulheres notórias, como no já mencionado Rosa Luxemburgo, de 1986, e uma recente abordagem sobre vida da freira Hildegard von Bingen, de 2009. Em Portugal foi lançado em 2003 outro dos seus filmes mais importantes, As Mulheres de Rosenstrasse.

Para além da controvérsia intrínseca da tese de Arendt, ela inflamou de vez os espíritos na época em que foi lançado quando incluiu a observação de que diversos líderes judeus colaboraram com os nazis durante um certo período – questão que ainda hoje está envolta em controvérsias.

Hannah Arendt foi apresentada no Festival de Toronto no ano passado e lançado comercialmente este ano. Para além de uma bilheteira sólida, o filme tem sido consagrado por uma excelente receção da crítica internacional.

Reformulação de artigo publicado por altura da 1ª Mostra de Cinema Judaico

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