Há um mês trás, foi anunciado que Miguel Gonçalves Mendes, realizador do aclamado documentário «José & Pilar», iria adaptar ao cinema o romance «O Evangelho Segundo Jesus Cristo», de José Saramago.
Na obra segue-se a história da vida de Jesus de uma maneira moderna e crítica da religião, aludindo mesmo a sua eventual relação com Maria Madalena.
O c7nema falou com o cineasta por ocasião do lançamento em DVD de «José e Pilar» (entrevista a ser publicada brevemente), tendo questionado um pouco mais sobre este «Evangelho Segundo Jesus Cristo». No que toca às razões pela escolha do projecto, Gonçalves Mendes adianta que uma das razões prende-se com o facto de este ser« o livro mais cinematográfico do José [Saramago]», no sentido em que há livros do José que são maravilhosos e dos quais ele gosta mais, mas que a nível de adaptação cinematográfica «o Evangelho é o livro perfeito, porque aquilo parece quase fruto de uma mesa de montagem, a forma como as cenas estão encadeadas e a forma como vão mudando».
Gonçalves Mendes acrescentou ainda que «há um lado muito engraçado (…) que tem a ver com a experiência humana, com a História e a Humanidade e os desígnios de Deus, e que permite aquela transformação de Jesus Cristo, que ele não quer, mas em relação à qual ele não pode fazer nada porque não consegue e isso é uma coisa que a mim me interessa muito.»
Finalmente, o cineasta adiantou ainda que não percebe como é que «um dos mais belos escritos em língua portuguesa pode ter sido alvo do espalhafato primário» de que foi vítima quando chegou às livrarias.
Recordamos que «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» é um dos trabalhos mais polémicos do autor, e que provocou um enorme desentendimento com o então subsecretário de estado da Cultura Sousa Lara, do Governo PSD, que considerou o livro ofensivo para a tradição católica nacional e o retirou da lista do Prémio Europeu de Literatura. Estes elementos levaram mesmo Saramago – ainda que de forma indirecta – a abandonar o país e refugiar-se em Lanzarote. Miguel Gonçalves Mendes acredita que a «patética» polémica que ocorreu em 93 não se vai repetir, agora que o PSD está de novo no poder, até porque estamos em democracia e é suposto sermos mais adultos que o éramos.
«O Evangelho Segundo Jesus Cristo» ainda não tem data de início da produção, estando neste momento a ser reunido o financiamento necessário para a sua concretização.
Recordamos que para além deste trabalho em desenvolvimento, Saramago já chegou com a sua obra ao cinema em «A Jangada de Pedra» (2000), «A Maior Flor do Mundo»(2006), «Ensaio Sobre a Cegueira» (2007) e «Embargo» (2010).
Jorge Pereira

