Filme de abertura oficial do Festival de Veneza, inserido na competição ao Leão de Ouro, La Grazia marca o regresso de Paolo Sorrentino a um certame onde, há quatro anos, apresentara È stata la mano di Dio (A Mão de Deus, 2021).
No novo filme do realizador de Parthenope (2024) e Youth (2015), Toni Servillo é um fictício presidente da República, viúvo e católico, que vive no Palácio do Quirinale com a filha, Dorotea (Anna Ferzetti). Prestes a concluir o mandato, vê-se confrontado com dois pedidos de perdão (graças) que criam um dilema moral e o obrigam a ponderar entre a lei, a fé e a compaixão. Enquanto procura a decisão justa, este homem revive a ausência da esposa e enfrenta a solidão do poder.
“O filme nasce de um episódio real: há anos, o Presidente Sergio Mattarella concedeu o indulto a um homem que tinha matado a mulher, doente de Alzheimer”, explicou Sorrentino na conferência de imprensa do filme em Veneza. “Pareceu-me logo um dilema moral poderoso para contar. Sempre acreditei que o dilema moral é um motor narrativo mais forte do que qualquer outro dispositivo usado no cinema.”

Foi daí que surgiu a ideia de centrar a história num Presidente da República, não apenas inspirado em Mattarella, mas também noutras figuras: “O indulto não é apenas um instrumento jurídico, mas uma atitude perante a vida, quase como uma forma de amor. Imaginei um Presidente que, por trás da seriedade e do rigor, é um homem apaixonado: pela mulher que perdeu, pela filha, mas também pelo Direito e por valores que a política deveria encarnar. Quis mostrar um político que vive o poder como responsabilidade e dúvida — algo cada vez mais raro.”
Questionado sobre o seu fascínio em retratar personagens com poder, bastando pensar nos seus filmes Loro (2018) e Il Divo (2008), Sorrentino refletiu que essa atração acompanha-o desde sempre: “Desde que aprendi a escrever, percebi que todas as relações humanas são relações de força. Nos políticos isso multiplica-se: o poder é ritual, é encenação — um dispositivo cinematográfico fascinante. Em filmes como Il Divo explorei isso de forma mais explícita. Neste, interessava-me menos o ritual e mais a solidão do poder. O Quirinale aparece aqui como um lugar íntimo, quase despojado da solenidade institucional.”
Na liderança do elenco, e como aconteceu em muitos dos filmes do italiano, encontramos Toni Servillo, que aos jornalistas afastou qualquer semelhança com a personagem que interpreta. “Não tínhamos nada em comum. E é precisamente isso que me entusiasma: ser diferente da personagem. Criar alguém que não existe, emprestar corpo e voz a uma invenção. Somos, no fundo, ‘impostores’ — mas é assim que o cinema funciona. (…) Não nos inspirámos num Presidente da República em concreto. Muitos tiveram essas características: viúvos, juristas, napolitanos, com uma única filha. O Paolo e eu quisemos criar uma relação única entre um pai e a filha, afastada do sentimentalismo fácil, mas focada no confronto de ideias e de gerações.”
No final da conferência de imprensa, e depois de evitar uma questão relacionada com a MUBI [distribuidora do filme] e as suas ligações a Israel, Sorrentino reconheceu que o cinema já não tem a popularidade de outrora para poder influenciar a política, mas acredita que ainda pode almejar isso: “Só posso desejar que este filme chame de novo a atenção para um tema fundamental: a eutanásia. Digo palavras banais, mas essenciais. Espero sinceramente que aconteça.”
O Festival de Veneza termina a 6 de setembro.

