Ao fim da sessão de “O Agente Secreto” na competição pela Palma de Ouro de 2025, o realizador pernambucano Kleber Mendonça Filho correu para a sede da Unifrance e foi dar uma conferência de imprensa pocket para a claque brasileira presente no evento. A Ministra da Cultura do seu país, Margareth Menezes, esteve na conversa, que rondou os espectros dos 21 anos de ditadura. A trama se passa em 1977, em meio ao governo do general Geisel, e fala de um cientista e pesquisador universitário que usa uma identidade falsa a fim de escapar de um cerco de assassinos de aluguer decorrente da posse sobre a patente de uma invenção. Wagner Moura é quem faz a personagem e esteve ao lado do cineasta na conversa com jornalistas, da qual o C7nema participou.

Como é que Cannes se materializa em si depois desta sessão?
Tenho uma história muito forte com este festival. Venho aqui desde os 30 anos. Hoje estou muito feliz, mas estou ainda a tentar entender o filme que fiz, pois algumas questões ainda me estão a aparecer, aqui. Por exemplo, a sequência inicial, da bomba de gasolina, fazia parte do argumento de uma curta-metragem que nunca cheguei a filmar. Era a curta inteirinha. Quando levei-a para a longa, acreditei que os meus amigos fossem dizer: “O filme está bom, mas pode ficar perfeitamente sem aquela parte”. Ainda assim que a deixaria, pois gosto dela.
Como é que o teu argumento incorpora, durante a sua confecção, a cinefilia que coloca na tela, a começar por “Tubarão” (1975). E como a combina com asua inquietude sociológica?
Quero que meus filmes suscitem ideias. Não busco levar uma mensagem. Escrever um guião é a parte mais difícil do processo criativo de uma longa, pois passas muito tempo sem se sentir produtivo. Chega uma hora que o argumento passa a se escrever sozinho, uma vez que uma ideia liga a outra e evoca uma outra.
O que o abrigo de “refugiados” que a trama mostra simboliza?
A sensação de que um edifício é um bunker de afeição.
O quanto das suas recordações sobre os anos 1970 entraram em ação?
Queria fazer um filme ambientado na década de 1970 como um exercício histórico, mas com detalhes do coração. Parti de uma notícia de um jornal australiano sobre um tubarão. Depois que ele foi capturado, encontraram uma perna humana no seu ventre. Foi meu ponto de partida.

