Festival de Turim exibe documentário restaurado de Lina Wertmüller

(Fotos: Divulgação)

Menos de um ano após a morte de Lina Wertmüller, a primeira mulher a ser nomeada ao Oscar de Melhor Realização em 1977, responsável por filmes como “Filme de Amor e Anarquia“, “Tudo a Postos, Nada em Ordem“, “Pasqualino das Sete Beldades” e “Morte Silenciosa“, o Festival de Turim exibiu na sua 40ª edição, uma versão restaurada pela Rai Teche de “È una domenica sera di novembre”, documentário filmado originalmente em 16mm que a italiana fez sobre o terremoto que abalou o território de Irpinia, Itália, a 23 de novembro de 1981, e fez cerca de 2900 mortos.

Famosa pelas suas comédias sobre a eterna batalha dos sexos e sobre questões políticas e sociais contemporâneas, Lina Wertmüller refez os trágicos acontecimentos ocorridos, apresentando as primeiras imagens da tragédia exibidas nos noticiários, para depois partir para os planos de reconstrução, não apenas das cidades abalroadas pelo sismo que durante um minuto e meio destruiu o que pôde, mas numa reestruturação populacional de uma área que durante século foi perdendo gente, transformando o sul de Itália e particularmente o seu interior num deserto territorial. E Lina faz isso tudo contextualizando historicamente e geomorfologicamente a área, socorrendo-se de inúmeros testemunhos in loco, entre sobreviventes e socorristas, além de especialistas em gestão do território.

Indo bem além do noticiário, “È una domenica sera di novembre” torna-se acima de tudo uma análise e reflexão profunda a uma velha questão italiana, as disparidades entre o norte e sul da Itália, com a região afectada pelo sismo inserida numa esfera de pobreza com largos anos de tradição, partindo para isso com a preciosa contribuição do sociólogo Domenico De Masi.

Com leituras da própria Wertmüller e da atriz Piera Degli Esposti, que se sentem sempre poéticas, e comentários de escritores, jornalistas e intelectuais como Alberto Moravia, Carlo Levi, Furio Colombo, Alberto Ronchey e Giampaolo Pansa, a cineasta fecha ainda o seu trabalho com um depoimento do ítalo-americano Martin Scorsese, o qual evoca fundamentalmente o peso da família para qualquer tipo de reconstrução.

Lina Wertmüller e Martin Scorsese

No fim e após a leitura de multiplas passagens de nomes como Plínio ou Leonardo Da Vinci, bicadas na corrupção generalizada e o esquecimento do sul por parte do poder, fala-se em combater o êxodo da região e até se abordam eventuais incentivos para recuperar aqueles que há muito emigraram da região, ficando um sentimento de esperança e um objeto cinematográfico que de certa maneira funciona igualmente como um requiem aos que padeceram por entre os escombros. Um filme a não perder.


Lina Wertmüller

Famosa pelas suas comédias sobre a eterna batalha dos sexos e sobre questões políticas e sociais contemporâneas, Lina Wertmüller foi a primeira mulher a ser nomeada ao Oscar de Melhor Realização em 1977.

Antes de ser assistente de Federico Fellini, nomeadamente trabalhando no clássico “8 1/2” (1963), Wertmüller formou-se na Academia de Teatro de Roma em 1951 e trabalhou como atriz, encenadora e escritora. O seu primeiro filme foi “I basilischi” (Os Inativos, 1963), seguindo-se uma carreira repletas de sucessos e insucessos, onde se afiguram “Rita no Colégio” (1966) e “Não Provoquem a Rita” (1967).

A fama internacional chegou com “Ferido na Honra” (1972) e prosseguiu com “Filme de Amor e Anarquia” (1973), sobre um anarquista dividido entre a vontade de assassinar Benito Mussolini e o amor por uma prostituta. Esta década foi, aliás, a que mais marcou a carreira da cineasta, com filmes como “Tudo a Postos, Nada em Ordem” (1974), “Insólito Destino” (1974) e “Pasqualino das Sete Beldades” (1975) a marcarem a história do cinema italiano.

Júri no Festival de Veneza de 1988 e vencedora do Oscar Honorário em 2020, Lina Wertmüller teve direito à sua estrela no passeio da fama de Hollywood em 2019.

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