The Staffroom: “numa sala de professores podem estar pessoas certas e erradas ao mesmo tempo”

(Fotos: Divulgação)

Atenção distribuidores ou festivais de cinema. Se desejam um filme que transcreve com precisão o ambiente entre professores e alunos numa escola, então o mais recente trabalho de Sonja Tarokic, “The Staffroom” tem que fazer parte do vosso programa/catálogo.

Acabado de estrear em Karlovy Vary, este é um filme imperdível para docentes e discentes, os quais muitas vezes vão sentir estarem a olhar para um espelho. Um espelho que não reflete apenas as salas de aulas, mas igualmente a sala onde os professores se encontram, têm confrontos e discussões perante 1001 problemas. E nem as reuniões – muitas vezes loucas e surreais – com os pais escapam à lente da cineasta croata.

Sonja Tarokic

The Staffroom” foca-se em particular em Anamarija, conselheira, a pessoa que tenta fazer a ponte entre professores, alunos, pais e a direção da escola, tendo de lidar com todo o tipo de problemas, sejam eles pessoais ou coletivos.

As boas intenções desta mulher, o seu desejo de mudar o mundo começando por uma sala de professores, esbarram nos mais diversos contratempos, sejam eles filmagens ilegais das aulas que vão parar à internet, os inevitáveis alunos problemáticos, e até um professor de História que teima em não seguir o programa, falando inclusivamente da sua vida pessoal em plena sala de aula. 

The Staffroom” tem um dinamismo e ritmo alucinante, mostrando-se sempre carregado de micro tensões que servirão igualmente como uma análise psicológica de uma escola e de uma mulher que acredita que pode mudar as coisas. Mas será que ela consegue mesmo?

Falámos com a realizadora Sonja Tarokić, que com “The Staffroom” está na competição principal de Karlovy Vary, sendo já uma forte candidata ao principal prémio do certame: o Globo de Cristal.

Antes de mais, o que a interessou em acompanhar este mundo de alunos e professores, e em particular alguém que genuinamente acredita que consegue mudar as coisas?

Fui muito atraída por esta história a nível emocional e pelo seu sentido universal. Creio que esta história é muito comum dentro destas comunidades, em particular no meu país, mas igualmente em todas as sociedades em geral. Este conto sobre uma pessoa aperceber-se que não é realmente uma heroína e não tem a força para mudar as coisas, foi algo que achei muito interessante de abordar tendo em conta como a nossa sociedade trabalha.

Esta é quase uma história de amadurecimento, do perceber que necessariamente não és mais nobre que as pessoas à tua volta. Queria mostrar a compaixão e mostrar que numa sala de professores podem estar pessoas que estão certas e erradas ao mesmo tempo.

No fundo testamos todas estas micro tensões e como elas se tornam um fardo. Como as pessoas à tua volta e a própria comunidade podem se tornar um fardo para uma pessoa que acredita conseguir mudar as coisas. 

Deve ter sido muito complicado filmar e gerir tanta gente (professores e alunos) simultaneamente em cena com aquele dinamismo. E isto porque quer atores como figurantes têm cada um o seu ritmo. Como foi desenvolver esta mise-en-scène que é verdadeiramente impressionante na sua dinâmica?

Tivemos de trabalhar muito para conseguir isso(risos). Planeava a mise en scène para todos a partir de pontos onde cada um tinha pedaços de diálogo e se cruzavam ou encontravam, criando assim um ambiente que se tornasse progressivamente natural. E tinham, cada um deles, coisas a fazer na sala além de diálogos. Alguns tinham só de expressar emoções, outros de fazerem algo. Foi todo um trabalho de muita confiança em que atores e a câmara trabalhavam juntos, onde cada reacção, por mais ínfima que fosse, era filmada. Na escola temos sempre o sentimento que o que esteja acontecer contigo há sempre alguém a observar-te. Isso para mim, essa sensação de estar sempre a ser observado, era muito importante para mim mostrar do ponto de vista emocional. 

The Staffroom

Outro elemento interessante é que este espaço escolar está sempre carregado de vermelho, seja nas paredes, nos objetos, em todos os momentos. Como trabalhou isso em termos visuais com o diretor de fotografia e com a restante equipa, até porque está sempre algo a acontecer no filme e o vermelho acompanha-nos permanentemente?

Esse vermelho foi um grande desafio para a nossa direcção artística e também para a figurinista. Trabalhamos sempre com essa ideia do vermelho nos acompanhar, estar sempre presente, mesmo quando eram apenas pequenos detalhes. Pensámos muito no guarda-roupa e tentamos perceber o que funcionava bem juntamente com o vermelho.

Decidimos ter o set sempre com o vermelho porque ele identifica automaticamente o espaço, as salas. Além disso, é a cor da nossa herança nacional. Por isso pensámos muito no visual e recorremos à música folclórica como que mostrando a herança desta escola, desta instituição, que é uma herança nacional. Uma herança transmitida de geração em geração.

Por outro lado, esse visual e essa música podem ser universais e comuns, mas são igualmente bastante claustrofóbicas, algo que parece sufocar as personagens. De certa maneira, esta herança nacional também se pode sentir como um fardo e poderá levar-nos a tentar escapar dela.  

Sim, essa herança nacional está sempre presente nos programas escolares. Neste caso, temos um professor de História que se recusa a seguir esse mesmo programa (e herança) e ensina coisas que não estão lá. Queria com isso mostrar um conflito entre o que é essa herança e a visão diferente que alguns professores têm dela?

Sim. Neste caso temos um professor de História que faz isso, o que é simbólico por si só. Que histórias contamos na escola? Isso, naturalmente, tem maior impacto numa disciplina como a História. Mas também queria mostrar que a atitude de desafiar o estabelecido também está inserida na tal herança nacional. Queria mostrar como as pequenas coisas são tão importantes como um grande problema individual. Quando lidas com um problema não o consegues resolver sem ponderar todas as circunstâncias. 

O maior confronto no filme é mesmo entre a conselheira, a Anamarija, e o professor de História. Disse algo em particular aos atores para que eles criassem aquela permanente tensão e ambiente pesado que os acompanha?

A relação deles está cheia de altos e baixos. Creio que inicialmente ela está chocada com a atitude dele e até tem medo, mas depois lá encontra uma força interior para o confrontar. Ela sabe que tem que ser estratega nessa abordagem. Não basta apenas confrontá-lo, pois quando, por exemplo, começa a espiar as aulas dele, ele começa a orientar a sua raiva para os miúdos. Ela então percebe que tem de ser amiga dele, para que ele fale com ela e não desconte nos miúdos. Mas depois ele também se torna um fardo para ela, ao pensar que realmente são amigos. 

A relação destas duas personagens era fundamental para toda a estrutura do filme, pois são eles que movimentam todo o projeto. O problema em torno deste professor era o esqueleto do enredo.  Falamos muito com os dois e ambos são atores muito bons, com quem até já tinha trabalhado em curtas-metragens. Esta foi uma boa oportunidade de os ter na mesma sala e criarem esta relação muito reconhecível no cinema croata. 

Todas as cenas do filme com professores e crianças sentem-se sempre muito orgânicas. Consultou professores e alunos para criar este filme? Assistiu a aulas e à dinâmica dos professores na sua sala?

Sim, falei com muitos professores e conselheiros escolares sobre as situações especificas que acontecem no filme. Trabalhar com os miúdos foi muito importante para criar aquela energia de autenticidade. Eles podiam improvisar um pouco, ser até irritantes e engraçados se quisessem. Trabalhei com eles e com o professor de História de forma a que entendessem o que estava em causa numa cena, por exemplo, como quando ele grita com eles. Explicava aos miúdos a cena e via se eles se identificavam com aquela situação. Todos eles já tinham passado por momentos como esse em diferentes escolas. Todos eles diziam que tinham um professor qualquer assim. “Sim, conhecemos professores assim, por isso sabemos como agir. Ele é louco e triste simultaneamente”, diziam (risos). Era muito importante para eles perceberem a cena do ponto de vista emocional. 

Finalizando, o quão importante é para si estrear o filme em Karlovy Vary?

Creio que tanto para mim como para a minha produtora, a Ankica Juric Tilic, esta foi uma experiência tremenda. Foram muitos anos de trabalho duro e ela puxou este filme para um nível diferente.

Era um projeto enorme e era a minha estreia nas longas-metragens. Ela realmente acreditou no filme, mesmo que ele fosse muito difícil de fazer com este elenco reunido e o tempo que tínhamos disponível. E claro, foi difícil o financiamento. Foi um processo muito longo, complexo e meteu ainda workshops, etc. Por isso, para ela e para mim esta experiência em Karlovy Vary é como ser coroado. Estamos muito orgulhosas e honradas de mostrar o filme perante uma audiência e num cinema. Foi um ano com muitas incertezas, sem saber se teríamos uma apresentação real/presencial ou online. Estar aqui neste festival é um alívio.

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