“Cada pessoa tem sua complexidade”, diz Joachim Lafosse

(Fotos: Divulgação)

San Sebastián já se habituou ao cinema angustiante do belga Joachim Lafosse, que em 2023 trouxe ao festival o perturbador Un Silence, centrado na pedofilia. Desta vez, porém, o realizador surpreende com Six Jours Ce Printemps-là, conduzindo o certame espanhol para uma linha mais lúdica ao abordar a maternidade. A narrativa, embalada por uma melodia que se cola ao ouvido, acompanha as escolhas nem sempre felizes de Sana, uma mãe em processo de separação que, após uma série de imprevistos, decide passar férias — que não pode pagar — com os filhos e o novo (e secreto) namorado, numa casa de luxo na Riviera Francesa. Para agravar a situação, a propriedade pertence ainda aos seus sogros. Sem nunca falar diretamente de racismo, o filme deixa entrever fendas de intolerância. Em conversa com o C7nema, Lafosse sublinhou o lado amoroso da obra — algo que já antes lhe valera acolhimento em Cannes, como no caso de Les Intranquilles.

Six Jours Ce Printemps-là deixa a impressão de que os seus filmes desabrocham sempre do caule das histórias de amor. Que forma de amar é essa?

Faço cinema há duas décadas e é a primeira vez que alguém assinala esse aspeto, porque normalmente perguntam-me sobre violência ou conflitos afetivos. Um psicólogo que tive chegou a ler-me na íntegra um poema de Rainer Maria Rilke, onde se diz que é preciso amar sempre, até nas dificuldades. Six Jours Ce Printemps-là fala disso: mostra que as mães transmitem o amor. Isso não exclui a tristeza nem isenta quem ama das suas responsabilidades.

Muitos dos seus filmes falam de maternidade. Este parece dar um tratamento mais doce ao tema. Que perspetiva materna quis explorar?

Filmo para encontrar o lugar que a minha mãe ocupa em mim. Hoje tenho 50 anos, sou responsável pelos meus atos, mas a importância da minha mãe continua a ser enorme.

Qual foi o desafio de tratar da força materna e, ao mesmo tempo, discutir a forma como uma mulher negra é tratada na Europa de hoje?

Ninguém deve ser visto como exemplo, porque todos erramos e cada pessoa tem a sua complexidade. Sara mente — e o coração do filme é perceber o porquê. A cor da sua pele nunca foi uma questão para mim. Claro que o público pode fazer a sua leitura sociológica, mas o debate que me interessa é a sensação de não ter direito a ocupar o espaço em que se move. Os filhos dizem: “Vamos chamar o papá, vamos avisar os avós.” Ela recusa. Quanto à escolha de Eye Haïdara, o essencial é ter talento no centro do filme. O encontro com ela deixou isso claro.

San Sebastián aplaudiu unanimemente a banda sonora. Como foi pensada?

Sem música não existe cinema. A música é a pele de um filme. Neste caso, encontrei nela as emoções que era preciso viver.

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