Martin Bourboulon é um cineasta que tem vindo a construir uma carreira muito ligada ao grande cinema popular francês, começando com a comédia com Papa ou Maman e a sua sequela, passando ao filme histórico de grande escala com Eiffel, e depois com dois capítulos de Os Três Mosqueteiros, D’Artagnan e Milady.
Trocando as capas, as espadas e o romantismo histórico por uma tensão mais recente e brutal, a de Cabul em agosto de 2021, no momento da retirada ocidental do Afeganistão e da chegada dos talibãs ao poder, o cineasta traz até às nossas salas 13 Dias, 13 Noites, filme que se centra no comandante Mohamed Bida, interpretado por Roschdy Zem, o responsável pela segurança da embaixada francesa e pela evacuação quase impossível de centenas de pessoas presas no caos.
Foi em Paris que nos sentàmos à mesa com Martin e falamos desta obra que encerrou o Festival de Cannes em 2025.

Existe no filme uma questão moral, uma ideia de uma França que deve salvar as pessoas. Acredita que essa ideia de França está hoje em risco?
A França é um país que tem valores, que defende a liberdade e a democracia. Vemos isso todos os dias.
Não sei se existe o risco de isso parar, mas, como nos Mosqueteiros, há valores que são importantes e que nos tocam. Quando comecei a trabalhar neste projeto, fui tocado pela história deste comandante que lutou para conseguir retirar e colocar todas aquelas pessoas em segurança.
Quando vemos filmes sobre temas semelhantes, como Argo ou 13 Horas, de Michael Bay, são filmes muito musculados. Aqui parece interessar-lhe mais a questão moral do que a ação. Isso era importante para si?
Sim, muito importante. A ideia não era fazer um filme com tiroteios ou inventar coisas que não aconteceram.
Queríamos realmente contar os factos que aconteceram tal como existiram. Não queríamos inventar nada, nem trair a realidade dos factos. Era essencial ficar próximo daquilo que aconteceu e tentar manter-nos colados a isso.
O que o atraiu neste projeto?
Quando li o livro do Mohamed, achei que o relato de uma exfiltração era interessante, muito envolvente e muito forte.
Pareceu-me que havia uma boa associação entre a história e o tema: por um lado, a história dessa exfiltração; por outro, a história de um homem que procurava ajudar um povo obrigado a fugir de um país que não queria abandonar. Achei isso muito forte. O tema do desenraizamento interessava-me muito.
A investigação foi feita apenas a partir do livro ou falou também com outras pessoas?
Falámos muito com o Mohamed, com os afegãos que estavam no local e com as pessoas que tentaram participar na missão.
Mas, sim, apoiámo-nos muito no livro para contar esta história da melhor forma possível.
Onde foi filmado o filme?
Em Casablanca, para recriar Cabul. Era impossível filmar em Cabul.
Tem uma opinião sobre a forma como os americanos resolveram a questão dos talibãs?
Não estou aqui para falar disso. Não quero ser político nem alguém com uma tese.
Contei a história de uma exfiltração organizada por uma equipa francesa. Através desse ponto de vista, somos confrontados com o desespero de um povo que quer salvar a pele.
Achei interessante contar que havia artistas, políticos e civis ameaçados que vinham refugiar-se na embaixada de França. Gostava dessa ideia.
Consegue imaginar-se numa situação semelhante, como o Mohamed Bida ou como os afegãos?
É muito difícil imaginar isso quando se vive em França. Temos tendência a esquecer a sorte que temos quando vivemos em França: a sorte de sermos protegidos, preservados de tudo isso, porque estamos num país em paz e num país livre.
É verdade que é difícil imaginarmo-nos numa situação dessas.
Como escolhe os filmes e as séries que faz? Tem um plano ou segue os projetos que surgem?
Gosto de fazer filmes para o público. Gosto de fazer filmes que possam ser diferentes uns dos outros. Isso interessa-me muito: continuar a variar os estilos.
Depois, depende das histórias que encontro e dos momentos. É sempre o encontro com um tema. Também preciso de ter tempo para conseguir fazer isso bem.

O cinema é importante para si? Trabalha também muito em séries.
As duas coisas são interessantes. Gosto de fazer um pouco de séries e um pouco de cinema. São escritas diferentes. Mas acho que hoje é difícil não fazer séries. Somos obrigados a fazer. Acho importante fazer as duas coisas.
Tem novas séries a caminho. Pode falar um pouco delas?
Estou neste momento a filmar uma série chamada La Décision, sobre o Presidente da República. E tenho outros projetos de séries em desenvolvimento.
São projetos para televisão ou para streaming?
Para streaming, plataformas e tudo isso.
Como vê a relação entre streaming, cinema e televisão? Acha que o cinema está em perigo?
Não acho. Penso que existe uma repartição entre projetos que são para cinema e projetos que são séries ou televisão.
Há filmes que continuam a funcionar muito bem. Precisamos das duas coisas. Acho isso positivo e interessante. Não vejo perigo.
Qual foi o grande desafio deste filme?
O desafio foi estar moralmente no lugar certo e permanecer fiel aos acontecimentos.
Não usar tudo aquilo como um pretexto para fazer belas imagens. Era preciso ser honesto em relação ao tema. Isso interessava-me muito.
Pensou logo no ator principal antes de escrever o argumento?
Sim. Neste projeto, pensei nele desde o início. Queria mesmo trabalhar com ele.
Ele representava Mohamed para si?
Sim, muito. Para mim, ele representava muito Mohamed.
Foi fácil convencê-lo?
Não quis convencê-lo. Dei-lhe a ler o livro e depois o argumento.
Ele gostou muito do livro. Disse-lhe: “Estou a trabalhar no argumento, penso em ti, depois dou-te a ler e logo vemos.” Ele leu, achou ótimo e disse que sim.
O Mohamed gostou do filme?
Sim, muito.
Isso era importante para si?
Muito, muito importante. Foi até emocionante mostrar-lhe o filme.
O Roschdy Zem está excelente no filme. É muito credível. Fiquei muito feliz por ter sido ele. Tive muita sorte por ele ter aceitado.
Como reagiram ao filme os afegãos que participaram nele?
Os afegãos não queriam interpretar talibãs. Tinham medo de fazer de talibãs, ainda um pouco. Mas ficaram muito felizes e muito tocados com o filme. Isso deu-me muito prazer. Era importante.






