Entrevista a Isabelle Huppert, protagonista de “Cativos”

(Fotos: Divulgação)

Completou recentemente 60 anos, ultrapassou já quatro décadas de carreira e assinou cerca de 8 dezenas de participações em filmes. Uma marca difícil de superar que notabiliza esta atriz multifacetada, de enorme capacidade de trabalho e uma presença e intimidante apesar do seu 1,60. Encontrámo-nos com Madame Huppert em Paris para falar de ‘Cativos’, o filme do filipino Brillante Mendoza estreado esta semana em Portugal. Para o seu papel, a atriz inspirou-se na experiência traumática da colombiana Íngrid Betancourt, cativa durante mais de seis anos pelas forças revolucionárias FARC quando fazia campanha para as presidenciais.

Pode descrever-nos a experiência de reviver o cativeiro de Íngrid Betancourt?

Foi muito complicado. Tivemos sempre condições muito difíceis, mas era assim que estava definido o percurso da personagem. Por outro lado, é mais um filme sobre um grupo de pessoas do que uma só. Pode haver a marca do refém, se bem que nessas situações ficamos sem o nosso eu individual. O filme era sobre isso. Um grupo anónimo de pessoas. Felizmente, pudemos passar por estas dificuldades, pois foi assim que foram definidas, a viver medo, ansiedade, desorientação…

Como foi essa relação com os outros ‘reféns’, por assim dizer?…

Não nos conhecíamos, é claro. E isso ajudou para criar aquela sensação de desamparo e incapacidade para reagir.

Ajudou-a o livro de Betancourt?

Ia lendo o livro da Íngrid Betancourt, que descreve muito bem o que se passa no filme. E tem sobretudo uma relação estranha com a natureza. É por vezes a condição mais hostil do cativo, mas por vezes também a mais fascinante, de ser deslumbrada com aquela beleza natural.

Consegue no filme distinguir o ser humano do raptor? É algo próximo da ‘Síndrome de Estocolmo’, em que o raptado acaba por sentir sentimentos positivos pelo raptor?

Sim, é um dos aspetos usuais, mesmo que não se chegue a esse extremo. É uma relação frágil mas é possível acontecer.

A Isabelle Huppert está habituada a ter um papel protagonista nos diversos filmes em que participa. Por exemplo, em ‘Amor’, do Michael Haneke, era uma secundária. Mas o que queria perguntar-lhe é como explica o sucesso global que teve este filme tão particular?

Acho que é por o filme falar de algo tão universal. O lado genial do Haneke é que nesse filme ele não conta uma história, ele conta a história de todos nós. De certa forma, todos vemos o filme de uma forma realista, porque são todos arquétipos da mãe, da filha, do pai, da mulher, do marido… Há um enorme potencial de identificação. Acho que pode ser uma das várias explicações.

Talvez seja difícil comparar o trabalho do Haneke e do Mendoza, mas ainda assim desafiava-a a criar semelhanças entre ambos ou então as grandes diferenças. No fundo, os seus talentos enquanto realizadores…

É certamente difícil de compará-los (risos)…

Bom, eu disse que era um desafio… (risos)

Mas talvez sejam ambos realizadores que gostam de estar em total controlo da sua capacidade. O Mendoza é impressionante. O que vi nele em ‘Kinatai’ (2009), quando fui presidente do júri em Cannes, e que lhe demos o prémio de Melhor Realização. O que mais me impressionou foi a sua total liberdade de estilo de câmara. Ele inventa um estilo e uma linguagem. É muito poderoso, com vários ritmos muito diferentes. O Brillante é muito eficaz a criar caos, mas também a geri-lo.

Calculo que o caso na selva de ‘Cativos’ isso fosse fácil de gerar…

Sim, mas não estávamos sempre na selva, também no rio, no mar, na lama, na praia… (risos)

A Isabelle é atriz há muito tempo, já ganhou vários prémios. No seu entender, quem é que a inspirou nesta profissão? O que acha que a representação já lhe deu?

Já me deu muito. Como eu também já dei… (risos)

Disse um dia que era mais natural ser atriz do que ser ator, porquê?

Acho mais natural, sim, mais confortável para uma atriz. Mas já encontrei grandes atores. Não sei, acho que ao representar lidamos com um lado mais feminino de nós próprios. Seja um ator ou uma atriz. Também lidamos com a nossa parte masculina. Mas talvez seja mais fácil a uma atriz lidar com o seu lado masculino do que um ator líder com o seu lado feminino… Não sei, é algo que ainda estou a refletir.

Se me permite uma outra citação sua, em que dizia que para ser atriz (ou ator) era necessário uma certa dose de loucura. Acha que isso poderá também estar relacionado com o que estava a dizer?

Talvez. Ainda que não tenha de ser forçosamente representação. Com aquilo que gostamos. É mais isso. Ser ator permite cobrir uma grande parte da nossa natureza: ser louco, natural, feliz, triste… Tudo isso é ser ator. Não há muito mais a dizer. Fazer o que queremos é um privilégio nesta vida. Eu sinto-me muito feliz por ser atriz. Gosto do que faço.

Como lida com a sua exposição pública, com a fama. Alguma coisa mudou com a fama?

É uma definição complicada, pois nunca temos a mesma definição de celebridade que toda a gente. Ou sobre a nossa celebridade. É sempre algo mal compreendido.

Sente que é um incómodo? Seria melhor não ser reconhecida na rua?

Sim, claro seria mais fácil não ser reconhecida. Mas também é um privilégio. Mas a verdade é que nunca vivemos com a mesma percepção da celebridade.

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