Muito se falou da América Latina na abertura do Festival de Marraquexe, no sábado passado, com a sabatina a Kleber Mendonça Filho, realizador de O Agente Secreto (2025); a participação do cearense Karim Aïnouz no júri; e a projecção da longa-metragem colombiana Um Poeta (2025) em mostra não competitiva. Ainda assim, ao longo do evento marroquino, a actual vaga de experiências oriundas das Américas de colonização ibérica teve um espaço microscópico nos ecrãs do festival — situação que deverá ser parcialmente compensada com a chegada de Nuestra Tierra (2025), ensaio documental da argentina Lucrecia Martel distinguido no BFI London Film Festival.
Esperava-se que a aclamada realizadora pudesse surgir, ainda que de surpresa, nesta sexta-feira, para observar a reacção do público marroquino ao seu primeiro filme de longa-metragem após um hiato de cerca de sete anos, iniciado depois do lançamento de Zama (2017). Sabe-se agora que, em seu lugar, virá a cineasta María Alché — correalizadora de Puan (2023) — que escreveu o argumento de Nuestra Tierra em colaboração com Martel. O primeiro esboço do projecto, associado a uma investigação sobre conflitos fundiários, valeu à autora de Salta uma distinção especial do Festival de Locarno, atribuída a projectos em desenvolvimento em pleno ano zero da pandemia, 2020.
Impulsionado por esse prémio de estímulo dramatúrgico, o novo filme de Martel passou também por Veneza, fora de concurso, e competiu na secção Horizontes Latinos de San Sebastián. A ambição inicial era criar um documentário sobre o assassinato do líder indígena Javier Chocobar, morto em disputas fundiárias por proprietários de terras. A engenharia sonora das narrativas da realizadora — sempre tratada com refinamento, tanto nas ficções como nas experiências híbridas — volta a destacar-se aqui, sustentando a investigação em torno da morte de Chocobar.
Esse cuidado sonoro já era visível no trabalho anterior de Martel, o experimento Cornucopia (2023), realizado em parceria com a islandesa Ísold Uggadóttir a partir de um espectáculo de Björk. Antes disso, a curta A Camareira (2022), exibida na Mostra de São Paulo, recebera elogios pela fusão de elementos fantásticos com debates marxistas.
“Quando eu era mais jovem, falava em classes sociais e nas suas diferenças, mas percebi que, hoje, o conceito político mais adequado para pensar a divisão da sociedade latino-americana seria o de ‘casta’, devido ao processo de concentração de riqueza que o capitalismo gera e à separação que cria entre pessoas que não se enquadram em determinadas faixas de rendimento”, declarou Lucrecia ao C7nema, aquando do lançamento de Zama em Espanha — filme produzido por Vânia Catani, da Bananeira Filmes, e pela El Deseo, dos irmãos Almodóvar.

Presidente do júri de Veneza em 2019, ano em que Joker venceu o Leão de Ouro, Lucrecia Martel é reconhecida pelas suas reflexões feministas e pela visão política contestatária que imprime ao retrato do seu continente. Esses traços percorrem também a sua curta seminal Terminal Norte (2021), apresentada na Berlinale e hoje disponível na MUBI. Em Portugal, a sua filmografia encontra-se acessível no Filmin.pt, onde constam O Pântano (2001), A Rapariga Santa (2004, candidata à Palma de Ouro, centrada no amadurecimento de uma adolescente em confronto com o desejo) e A Mulher Sem Cabeça (2008), igualmente exibido na Croisette.
O prestígio de Martel começou com O Pântano, distinguido na Berlinale há 24 anos com o então existente Prémio Alfred Bauer, dedicado à inovação de linguagem. Nesse filme, as vidas de duas famílias — uma de classe média urbana, outra de produtores rurais em decadência — entrelaçam-se no torpor provincial de uma Salta caótica e imutável, onde nada acontece, mas tudo parece prestes a explodir, tal como a própria charneca que dá título à obra. O elenco conta com interpretações marcantes de Mercedes Morán e Graciela Borges.
Na recta final, Marraquexe vive agora a expectativa da estreia de Nuestra Tierra, com sessões já disputadas pelo público do Norte de África, sobretudo estudantes. O festival decorre até sábado, dia 6 de Dezembro.

