Estreia no próximo dia 13 de Maio em Portugal o filme “City Island”, uma comédia sobre uma família italo-americana em apuros. O c7nema falou com o realizador do filme, Raymond De Felitta, um realizador nova-iorquino com já 20 anos de carreira no cinema “indie”, mas que nunca encontrou o grande público.
No filme, seguimos a história de Vince Rizzo (Andy Garcia) um guarda prisional que vive em ‘City Island’, uma pequena zona piscatória que é um verdadeiro paraíso no meio do Bronx e da selva urbana de Nova Iorque. Ele esconde à sua mulher que anda a tirar um curso de actor, tal como toda a sua família tem uma série de segredos: a filha mais velha finge andar na universidade quando trabalha num bar de strip, o filho mais novo tem uma obsessão por dar de comer a mulheres (!) e a sua mulher esconde, tal como todos os demais personagens, que anda a fumar. Para piorar o enredo, Vince traz para casa um recluso em liberdade condicional chamado Tony, que é na realidade um filho seu que nunca conheceu. Ninguém sabe disto, nem o próprio Tony.
“City Island” é divertidíssimo. Andy Garcia está inesquecível como Vince, numa ‘performance’ carregada de carisma e com uma sequência de “one-man acting” inesquecível (a do ‘casting’).
Raymond De Felitta iniciou-se na realização em 1990 com “Bronx Cheers”, mas foi com “Cafe Society” de 1995 que encontrou o seu primeiro grande sucesso junto da crítica. Procurando financiamento para cada projecto, os seus filmes foram sempre aparecendo espaçadamente. “Two Family House” de 2000, e “The Thing About My Folks” de 2005, confirmaram um realizador interessado por comédia dramáticas sobre enganos e desenganos, e sobre a vida familiar. “City Island” de 2009 tem sido aclamado pela crítica pelo mundo fora e chega agora ao nosso país.
Leia aqui a entrevista de José Pedro Lopes para o c7nema.
Sobre ‘City Island’
O local onde se passa “City Island” é uma verdadeira surpresa. Quando pensamos em Nova Iorque o que nos vem à ideia é a ilha de Manhattan e os seus arranha-céus. Qual é a tua relação com este lado do Bronx?
City Island fica no Bronx e é uma zona espectacular para viver. Eu não conhecia essa parte de Nova Iorque até ter lido sobre ela num artigo que veio no New York Times. Ainda nos dias de hoje, é uma zona que a maioria dos nova-iorquinos não conhece, por isso é como se fosse uma zona secreta para os poucos que de nós que agora a frequentam.
O Andy Garcia está espectacular no filme, parece ser este o papel para o qual ele nasceu. A personagem de Vince Rizzo foi escrita com Andy Garcia em mente?
Não, não tinha o Andy em mente quando escrevi o filme. Eu estava a pensar mais na ideia que tinha para a personagem: um guarda prisional que esconde o seu lado artístico, um homem de família que esconde um segredo escuro no seu coração. Eram estas dualidades. Claro está que o Andy Garcia foi perfeito para dar vida a esta personagem, mas demoramos muito tempo até encontrarmos o Andy ou ele nos encontrar a nós. Mas foi uma espera que sem dúvida valeu a pena!
As personagens do filme são muito realistas. São inspiradas em pessoas que conheces?
As personagens são inspiradas pelos tipos de pessoas que eu conheço, mas não ninguém em específico. A personalidade “italo-americana”, que é o ambiente onde eu cresci, tem uma atitude muito específica face à vida e aos problemas, é uma calorosa e volátil. A mesa de jantar frequentemente é um campo e batalha. E o amor é palpável e sempre muito sentido no coração. Mas a suspeita e desconfiança também é da natureza do “italo-americano”. A auto-protecção é intrinsecamente misturada com o desejo por intimidade.
No filme todas as personagens mentem umas às outras e acabam por viver muito intensamente estas mentiras. Será este um problema da sociedade contemporânea: a falta de honestidade e o medo das pessoas revelarem os seus desejos mais íntimos aos outros?
Penso que o problema mais humano de todo é o medo de não ser amado, ou apreciado, e o medo de ser visto como algo que não somos ou não queremos ser. Estas máscaras que vestimos estão lá por um motivo: temos medo que, se as tirarmos, as pessoas vejam quem realmente somos e não gostem de nós. Mas penso que é um problema intemporal da condição humano, não apenas da sociedade dos dias de hoje.

No filme, o protagonista Vince Rizzo é um fã de Marlon Brando, Robert DeNiro e Martin Scorsese. Quais são as tuas inspirações como cineasta?
Adoro todos os referidos, mas não são as minhas principais inspirações. Frank Capra, Billy Wilder e Preston Sturges foram os meus ídolos enquanto estava a crescer e foram eles que me inspiraram a ser um realizador de cinema. Eu cresci no tempo em que saiu “Star Wars” e onde todos os miúdos andavam inspirados por esse novo mundo e queria ser realizadores. Mas eu não gostava de “Star Wars”, sempre fui um fã da “screwball comedy” (comédias de enganos e desenganos) dos anos 30 e 40.
O teu segundo filme, “Cafe Society” de 1995, foi um sucesso dentro do universo indie. Esteve nos festivais de Cannes e Sundance. Qual pensas que foi o segredo para te teres estabelecido como um realizador ‘indie’ de culto?
Bem, ter um filme “de culto” geralmente é uma forma de dizer que “não teve assim muito público”… ahahah. Eu faço filmes pessoais e fico encantado quando as pessoas gostam deles. Eu espero que “City Island” me leve até um público mais amplo porque eu não me vejo minimamente como um realizador ‘arty’, um autor que só faz filmes que intelectuais. Os meus filmes são feitos para serem percebidos e apreciados por todos.
Como um realizador indie, os teus filmes são muito pessoais. Mas nem sempre encontraram o sucesso comercial. Já te apeteceu ceder à tentação e tornar-te um realizador declaradamente comercial?
A tentação nesse aspecto é dupla. Primeiro, ganhar mais dinheiro. Segundo chegar a mais público, e ter o trabalho visto por mais gente. Tendo dito isto, eu não seria capaz de fazer um filme que eu não iria ver. Por esse motivo, é difícil eu encontrar projectos comerciais nos quais eu me gostasse de envolver.
O que devemos esperar do teu novo projecto, “Married and Cheating” ?
Espero que seja divertido mas audaz, porque vivo num país onde toda a gente mente em relação à instituição do casamento, e ninguém a respeita. No entanto, todos ficam chocados quando descobrem que alguém está frustrado e anda a ser infiel, a dormir com outras pessoas.
Quero que seja uma comédia que agrade à multidão, mas que faça com que as pessoas debatam sobre os seus temas no final… talvez está mesmo se divorciarem depois de a verem!
Conhece o cinema português?
Nem por isso… Prometo vir a descobri-lo em breve!
Qual te parece ser o papel da internet no mundo do cinema nos dias de hoje? É uma coisa boa ou má?
Relativamente à internet e a ver filmes no computador, o que mais me incomoda é as pessoas não verem os filmes na melhor das qualidades. Está longe de ser ideal. No entanto, essa situação é incontrolável, que não pode ser parada.
Algum conselho para jovens cineastas que estejam a ler o c7nema.net ?
Ray: Diz-se que um realizador deve começar pelo cinema comercial e ficar rico. Depois, pode fazer o que filme que realmente quer fazer pois “eles” vão deixá-lo fazer o que o realizador que fazer. Eu acho isso uma treta. Não existe um “eles”. Apenas existes “tu”. O meu conselho é, faz os teus trabalhos pessoais quando és novo e estás no início da tua carreira. Depois, quando estiveres na meia-idade, tenta ficar rico! É isso que eu estou a tentar fazer!

