Alexander Payne afasta debate político na conferência do Festival de Veneza

(Fotos: Divulgação)

Os jornalistas bem tentaram colocar a guerra em Gaza e os protestos no festival como o tema central da conferência de imprensa do júri do Festival de Cinema de Veneza, realizada hoje. Mas, apesar da insistência, o presidente do júri, o realizador norte-americano Alexander Payne, optou por não partilhar a sua posição pessoal sobre o conflito, sublinhando que estava em Veneza para falar de cinema. “Sinceramente, sinto-me despreparado para responder a essa pergunta. Estou aqui para julgar e falar de cinema”, afirmou Payne, quando questionado sobre a carta aberta de profissionais italianos de cinema que apelava a uma posição mais firme da indústria em relação à crise humanitária.

A resposta diplomática de Payne remeteu o assunto para o diretor do festival, Alberto Barbera, que esclareceu a postura oficial da Bienal, dando a entender que não serão retirados convites a artistas como Gal Gadot e Gerard Butler devido ao seu posicionamento sobre a questão israelo-palestina. Ainda assim, Barbera afirmou: “Nunca hesitámos em declarar o nosso enorme sofrimento perante o que se passa em Gaza e na Palestina — a morte de civis, sobretudo de crianças, vítimas designadas com esse termo horrível de ‘danos colaterais’ de uma guerra que ninguém conseguiu travar ainda. Não creio que restem dúvidas sobre a posição da Bienal”.

Chutados para canto os tópicos políticos ligados ao certame, a conferência foi também marcada por questões ligadas à relevância do cinema no mundo contemporâneo. Payne destacou a importância da experiência nas salas e lamentou que muitos filmes de importância artística e política não entrem na conversa cultural devido à distribuição limitada. “O Grande Ditador, de Chaplin, ou To Be or Not to Be, de Lubitsch, não impediram a Segunda Guerra Mundial, nem o Holocausto, mas deixaram documentos que mostram a consciência da época”, recordou o realizador.

Barbera, por sua vez, aproveitou para sublinhar o que espera dos próximos onze dias do festival e explicou a filosofia que orienta a seleção oficial. “O nosso olhar é sempre o mesmo: vemos cada filme como se fosse a primeira vez que entramos numa sala de cinema. Procuramos ser surpreendidos pela originalidade, pela personalidade do realizador, pela capacidade de ir além das convenções. Quando esse pequeno milagre acontece, nasce o convite do festival”, afirmou. O diretor artístico destacou ainda o papel do evento como janela para culturas e geografias distantes, mencionando a diversidade da programação: este ano, 65 filmes em competição, incluindo títulos de países que nunca tinham estado em Veneza, como o Equador. “O privilégio de dirigir um festival como este é ter acesso a tantos filmes de todo o mundo e perceber o que está a acontecer neste universo em transformação constante que é o cinema. Desde a inovação tecnológica até à emergência de novos talentos, passando pelo impacto da inteligência artificial, o cinema está sempre em evolução. E continua a ser um instrumento formidável de conhecimento, uma das suas maiores virtudes desde o início.”

Os membros do júri sublinharam também a importância de manter uma mente aberta diante dos filmes, sendo mencionada uma frase de Orson Welles — “a ignorância é a autoridade suprema” — para explicar a atitude que gostariam de levar para a competição. “Devemos ver cada filme como se fosse o primeiro da nossa vida, como um pequeno milagre.

A 81.ª edição do Festival de Veneza arranca oficialmente hoje e termina a 6 de setembro.

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