A 52ª edição do maior festival do mundo dedicado ao fantástico decorre entre 3 e 13 de outubro na pequena cidade a 40 quilómetros de Barcelona.
Numa entrevista ao C7nema o vice-diretor Mike Hostench [na foto acima] falou sobre streaming, sobre a respeitabilidade que o género fantástico foi adquirindo desde o início do certame, em 1968, até os nossos dias e responde taxativamente às censuras diversas (conservadoras e “progressistas”) que se abatem hoje sobre o cinema: “Jamais nos censuraremos. Jamais!“.
A questão do “streaming”
O filme de abertura é uma produção da Netflix e essa é a primeira questão que endereçamos a Hostench. In the Tall Grass traz o novo trabalho do realizador Vincenzo Natali, do icónico O Cubo, de 1998. Aqui, aparentemente, ele propôs um exercício num cenário oposto ao seu filme mais famoso – narrando a história de dois irmãos perdidos num labirinto a céu aberto.
Com as confusões que têm ocorrido em célebres eventos como o Festival de Cannes a propósito de filmes produzidos por companhias de streaming, sem necessariamente estrear em sala, o vice-diretor de Sitges é bastante taxativo: “Achamos que as plataformas estão a fazer um grande trabalho promovendo os géneros, especialmente o Fantástico. A Netflix produziu Okja, de Bong joon-ho, com um orçamento de U$ 50 milhões (€ 45 milhões), quando ninguém mais, ninguém, quis financiar”. Para além disto, a Amazon “produziu o fabuloso remake de Suspiria, uma sofisticada e, definitivamente arriscada peça de terror. E ambos os filmes tiveram lançamento nas salas“.
“Jamais nos censuraremos. Jamais!”
O mundo não está fácil (nunca o foi) para quem queira assumir riscos nas suas propostas cinematográficas – com a curiosa diferença de que hoje muito da vigiliância sobre o que é “correto” mostrar nos filmes venha de forças supostamente progressistas. Há pouco tempo, numa entrevista, Pedro Almodóvar dizia que ele próprio tendia hoje a censurar-se quando escrevia.
Sitges, que tem o seu histórico de ousadias e episódios como o de A Serbian Film, um chocante filme sérvio que levou o diretor de programação ao tribunal em 2011, corre os seus próprios riscos. Para além de enfático ao dizer que a equipa do festival jamais se submeteria a qualquer auto-censura, Hostench resume o assunto de A Serbian Film dizendo que “vencemos em tribunal“.
O prestígio do Fantástico
O festival começou em 1968 como um festival de cinema de terror – género que, para não variar, era mal visto por críticos e conservadores em geral. Pergunta-se a Hostench se as coisas hoje mudaram um pouco.
“Quando Stiges começou era basicamente um festival de cinema de terror, com alguma fantasia e ficção científica na programação. É verdade que, embora muito popular em todo o mundo, terror e sci-fi eram geralmente desprezadas pelos críticos. No entanto, Stiges foi uma plataforma onde esses géneros começaram a ser reconhecidos. Na última década tem havido algum aumento do reconhecimento do fantástico em geral, do terror em particular. Festivais respeitados, como Cannes, Veneza, Toronto, Tribeca e Sundance começaram a incluir estes géneros nos seus programas. Isso é o resultado dos próprios festivais de género terem se tornado cada vez mais prestigiados a partir dos anos 90 e com isso surgiu uma nova geração de programadores mais interessados em terror e fantástico“.
Filmes e convidados
Entre os convidados, passarão por Sitges nomes como Sam Neill, que receberá um prémio do festival, Patrick Wilson, Asia Argento e realizadores como o italiano Pupi Avati, merecedor de uma retrospetiva, um dos ícones do cinema low budget americano, Charles Band, e o australiano Russell Mulcahy, realizador do lendário Highlander, que fará parte de um dos juris.
O festival encerra com The Vigil, uma incursão terrorífica por uma das comunidades judaicas mais ortodoxas do mundo – a hassídica, no Brooklyn, em Nova Iorque. De resto Stiges traz uma vasta programação, maioritariamente ligada ao Fantástico, e uma Competição Oficial com nada menos que 35 filmes – entre os quais muitas obras ainda inéditas em Portugal, como os novos trabalhos de Rob Zombie (3 from Hell), Robert Eggers (o promissor The Lighthouse, com Robert Pattinson e Willem Dafoe), do realizador de Calvaire, Fabrice du Welz (Adoration), entre muitos outros.

