Enquanto isso, nas praias de Biarritz, o Brasil brilha

(Fotos: Divulgação)

Neste sábado, em San Sebastián, no Teatro Principal — sede do Prémio do Júri Popular da mostra Perlak — O Agente Secreto divide atenções com um evento francês realizado a poucos quilómetros dali, já do outro lado da fronteira: o Festival de Biarritz.

Este paraíso à beira-mar, situado no sudoeste de França, tem 25,7 mil habitantes e estende-se por 11,66 km², a apenas 35 km da fronteira com Espanha. Na noite de 20 de setembro, o novo filme de Kleber Mendonça Filho inaugura a 34.ª edição da mostra audiovisual que, desde o final da década de 1970, transformou a região numa verdadeira embaixada cinéfila da América Latina.

A seleção competitiva anual de Biarritz é uma vitrine para que as produções do continente de colonização ibérica entrem no radar europeu, tanto francófono como espanhol. A curadoria, assinada por Jean-Christophe Berjon — crítico e encenador que já programou a Semana da Crítica de Cannes — dá amplo destaque ao Brasil, presente nas competições de ficção, documentário e curtas-metragens.

“O cinema de autor passa por uma crise em escala internacional, mas, com o seu rol de vitórias recentes, as Américas têm reagido bem”, afirma Berjon.

Na competição de longas de ficção, duas realizadoras brasileiras disputam os prémios principais: Flavia Castro, com As Vitrines, que também será exibido no Festival do Rio em outubro e narra a agitação de militantes de esquerda na embaixada da Argentina logo após o golpe de Pinochet no Chile, em 1973; e Anna Muylaert, com um melodrama-aventura já em cartaz no Brasil sobre uma catadora de material reciclável (Shirley Cruz, em atuação arrebatadora) que foge de um companheiro violento.

Ambas concorrem com títulos fortes como Um Poeta, da Colômbia — premiado em Cannes — e Belén, da argentina Dolores Fonzi, sobre aborto, que também integra a competição de San Sebastián.

Na secção documental, a veterana Lucia Murat apresenta Hora do Recreio, distinguido com menção honrosa na Berlinale, sobre estudantes da escola pública. Já Carine Wallauer compete com Copan, centrado no emblemático edifício paulistano e nas suas dimensões geopolíticas.

Na competição de curtas, a presença brasileira faz-se sentir com Samba Infinito (com Gilberto Gil em cena) e Presépio, de Felipe Bibian.

Fora de concurso, surgem títulos como Malaika, de André Morais, que aborda a exclusão através da história de uma jovem albina; e Precisamos Falar, de Rebeca Diniz e Pedro Waddington. Baseado no romance O Jantar, de Herman Koch, o argumento de Sérgio Goldenberg (supervisionado por George Moura) inspira um drama familiar em que pais de adolescentes privilegiados enfrentam o dilema de denunciar ou não os filhos, após a morte de uma mulher em situação de rua. Com interpretações notáveis de Alexandre Nero e Marjorie Estione, o filme tem sido descrito como “o melhor Bellocchio que Bellocchio não fez”, evocando a intensidade de Bom Dia, Noite (2003).

O festival acolhe ainda o drama geracional Meu Nome é Bagdá (2020), de Caru Alves de Souza, recentemente adaptado para série, e o documentário Para Vigo Me Voy!, homenagem a Cacá Diegues (1940–2025), distinguido em Gramado.

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