Entrevista a Laurence Ferreira Barbosa – ‘Ordo’

(Fotos: Divulgação)

Laurence Ferreira Barbosa fez a sua estreia no cinema em 1982 com a curta-metragem Paris – Ficelle, vencedora do Prémio Especial do Júri no Festival de Belfort.

A sua primeira longa-metragem, Les Gens normaux n’ont rien d’exceptionnel, recebeu uma reação muito positiva da crítica e contou com Valeria Bruni-Tedeschi e Melvil Poupaud no elenco. Posteriormente, trabalhou com Jeanne Balibar em J’ai horreur de l’amour e com Isabelle Huppert em La Vie moderne.

Em Ordo, a cineasta marca o regresso ao cinema como realizadora.

O filme estreou recentemente em Portugal e o c7nema teve a oportunidade de falar com Laurence Ferreira Barbosa.


Qual é a base, a essência de Ordo?

Ordo é a história de duas pessoas que, em jovens, se amaram, separaram-se e seguiram caminhos diferentes. Mais tarde, 16 anos depois, Ordo, a personagem masculina, encontra uma fotografia da sua mulher numa revista e descobre que ela se transformou numa estrela de cinema. Ele não a reconhece, mas vê a sua história e a sua foto de casamento. Perturbado, parte em busca da verdade. No fundo, é confrontado com alguém que não reconhece e que, supostamente, é a mulher com quem casou há 16 anos, o seu amor de juventude. Assim, e legitimamente, questiona-se: será aquela a mulher que conheceu ou alguém que lhe roubou a identidade?

Parte então numa investigação que ultrapassa os limites do policial e entra no campo metafísico e existencial: quem é aquela mulher e, sobretudo, o que fez ela para se tornar noutra pessoa, totalmente diferente da que era?

Quanto à verdadeira essência do filme, há dois pontos principais. O primeiro é a metamorfose de alguém que decidiu transformar-se numa nova pessoa – famosa, uma celebridade. Essa transformação incide não só na personalidade, mas também no aspeto físico: ela é uma representação da estrela de cinema. Mas será possível contorcer a nossa identidade, desafiar o passado e adquirir uma nova vida? E, se sim, qual o preço a pagar?

O segundo ponto segue mais Ordo, um homem diante de uma mulher que já amou e que não reconhece. É também uma viagem ao seu passado, às suas memórias e ao que se tornou. Será possível, após tantos anos, reativar o amor?


Todos nós conhecemos alguém que mudou bastante a sua maneira de ser ao longo da vida. Acha que as pessoas se vão identificar com a história?

Sim, penso que é uma história com a qual todos se podem identificar. Todos conhecemos alguém que mudou muito ao longo da vida – pode ser um amor antigo ou recente, colegas do liceu que não vemos há muito tempo… É um filme que certamente tocará todos.


Ordo é adaptado de uma obra de Donald Westlake. Crê que o filme é uma boa adaptação do livro?

Trata-se de uma adaptação muito fiel. Ordo é um livro que exerce grande poder de atração e que nos conduz a algo vertiginoso e problemático. Não oferece respostas (o que gostei bastante), dá apenas uma explicação possível no final, mas não uma resolução. Foi isso que tentei transpor para o filme.

É uma história complexa, com um enredo denso, obscuro e doloroso. Quis transportar o espectador para um “tempo” emocional, sem ser demasiado explícita. Preferi criar um ambiente em vez de dar respostas. Assim, cada pessoa pode interpretar o filme à sua maneira. Não há nada de concreto no final, nenhuma explicação racional, material ou científica.


Quando trabalhou o argumento, tinha estes atores em mente?

Não.


Mathilde Seigner esteve para interpretar o principal papel feminino?

A Mathilde Seigner foi um nome falado, mas nada mais.


Não tinha assim nenhum nome em vista?

Não.


Está contente com o seu trabalho em Ordo? Acha que este é o seu melhor filme? Poderia ter ido mais longe?

Sim, penso que é sempre possível ir mais além. Tenho a mania da perfeição, mas o cinema é uma arte difícil.


Quais são os seus próximos projetos?

O meu próximo projeto é um filme para crianças. Posso já dizer que será surpreendente e um verdadeiro desafio para mim.


Vai trabalhar de novo com Paulo Branco?

Sim.


Gosta de trabalhar com ele e com a Gemini Films?

Sim. Com exceção dos telefilmes, todos os meus trabalhos foram com ele e com a Gemini.


Prefere escrever o argumento ou realizar?

Gosto bastante de escrever o argumento e não me imagino a realizar um filme cujo argumento não escrevi. Escrevo sempre com alguém, nunca sozinha. Até gostaria de me dedicar apenas à realização, mas não consigo: sinto-me sempre “autora” dos meus cenários e só realizo o que escrevo.


Como vê o cinema francês atualmente? Acha que ele é capaz de competir com Hollywood?

Não. Não penso que o cinema francês possa rivalizar com o americano. Em França há grandes produções, cinema de entretenimento, filmes cómicos e de ação – mais comédias do que ação ou aventura. Até poderiam existir mais.


…há o exemplo de Jeunet com “Un long dimanche à fiançailles”.

Sim, há grandes produções francesas. Acho que os americanos sabem fazer grandes filmes em algumas áreas e os franceses noutras. Não devemos tentar imitá-los ou competir diretamente.


Os americanos estão a fazer muitos remakes atualmente. Imagine que quisessem fazer um remake de um filme seu. Qual seria a sua reação?

Bem, Ordo é um livro americano. Não seria um remake, mas uma nova adaptação…


…e de outro filme seu?

Sei que eles compram muitos direitos de remakes de filmes franceses e depois não os fazem. Mas não me incomodaria nada, desde que me pagassem bem (risos).

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