Tawfik Abu Wael nasceu na cidade palestiniana de Um El-Fahem, em Israel, em 1976. Completou o curso de cinema na Universidade de Telavive. De 1996 a 1998 trabalhou no Arquivo da Faculdade e, durante esse tempo, estudou também drama na Escola Hassan Arafe, em Jaffa. Realizador de várias curtas-metragens, Atash é a sua estreia na realização de longas.
De onde surgiu a ideia do filme?
Eu estava nos montes perto da minha aldeia, Um El-Fahem, num carro com um amigo. Estava escuro e a chover. A única luz vinha dos faróis. Conversávamos para passar o tempo e ele contou-me um conflito entre duas famílias da aldeia. Era por causa de um cano de água. Fiquei surpreendido e senti as primeiras sensações para um filme sobre um homem que passa o seu tempo a proteger o seu cano de uma ameaça misteriosa. O Atash tinha nascido.
O Atash é um filme político?
Não existe nenhum filme sem política. Mas em Atash lido com as relações humanas. Não quero usar o conflito para fazer um filme: eu fiz um filme sobre pessoas. As relações entre elas são política. É aí que coloco o meu objectivo político pessoal.
Onde está o conflito? Onde estão os israelitas?
O conflito está nas personagens, nas suas almas, na complexidade das suas relações, na sua consciência. O filme passa-se num vale perto da minha aldeia, Um El-Fahem, onde os israelitas são estrangeiros. Para nós, Israel é o Estado, o patrão para quem trabalhamos, a universidade onde estudamos. No meu filme mostro o mundo de onde venho.
O lugar é deserto. Que vale é este?
Conheço este lugar desde sempre. Faz parte da paisagem da minha vida. Quis filmar lá porque é muito cinematográfico, com possibilidades estéticas únicas. Parece uma terra deserta. Por acaso, é onde o Tsahal (exército israelita) costumava treinar combate urbano, uma vila palestiniana falsa. Em hebraico chama-se UFA – urban fighting area. A terra pertencia aos habitantes de Um El-Fahem até 1948, quando foi confiscada pelo Estado de Israel. Em 1998 houve confrontos violentos entre os habitantes e o exército, que tinha expandido os treinos para uma área maior. Depois das lutas, foi feito um acordo para o exército deixar o local. Agora está abandonado.
Na cultura árabe, a água é sinónimo de vida. No seu filme, é a origem do conflito e o elemento moderno que marca o início da tragédia.
Não gosto de simbolismos. Progresso e modernidade são noções ocidentais. Eu falo de libertação e consciencialização. Abu Shukri e Shukri, pai e filho, representam essas pessoas que não se conseguem libertar porque não se conseguem transformar.
A certa altura, Shukri pode escolher a mudança. Contudo, escolhe a tradição, a continuidade. É uma visão pessimista?
Não. É a maneira como vejo o mundo. Para o meu personagem, não há outra escolha senão revoltar-se, porque já não possui outros meios de luta. A minha posição não é pessimista: trata-se de um apelo à liberdade a que ele não consegue responder.
E a condição das mulheres no seu filme?
À primeira vista parecem reprimidas, mas na verdade é a acção de uma mulher que inicia todo o conflito. Ela está no centro. Sem Gamila não há filme. Em Atash, uma jovem arruína uma família. Na cultura patriarcal retratada, a honra depende do comportamento da filha, que deve obedecer ao código. Abu Shukri, dividido entre o dever cultural de matar a filha e o amor que lhe tem, inventa uma terceira via: leva a família inteira para outro lugar. Ele não consegue conformar-se com a ideia de a matar, nem de a deixar morrer. É um ser humano com moral, um herói. Gamila dá-lhe essa possibilidade.
O filme faz pensar na tragédia clássica.
Gosto de tragédias porque obrigam os heróis a escolhas absurdas. Qualquer decisão implica sofrimento. Normalmente a solução escolhida é a que melhor se enquadra na ética da personagem, mas é essa mesma escolha que o leva à tragédia. De certa forma, é o público que decide o sentido final, não eu.
Porquê Thirst?
Thirst não é apenas o título, é também a atmosfera que envolve o filme. Falo de sede de água, de comida, de liberdade, de sexo, de amor, de desejo. Sede de vida.


