Festival do Rio 2026 arranca com Asghar Farhadi, Mike Leigh e a Première Brasil

A 28.ª edição do Festival do Rio arranca esta quinta-feira e transforma a cidade, até 11 de outubro, num gigantesco mapa de circulação do cinema contemporâneo. Entre veteranos consagrados, autores que chegam diretamente de Cannes, Berlim e San Sebastián e uma Première Brasil que volta a medir a temperatura da produção nacional, a maratona carioca começa com uma forte vocação internacional, mas reserva já para sexta-feira o início da corrida pelo Troféu Redentor.

A abertura oficial cabe ao épico queer espanhol La Bola Negra (na foto acima), de Javier Ambrossi e Javier Calvo, no histórico Cine Odeon. Mas uma das presenças internacionais mais aguardadas chega ao Rio na sexta-feira: duas vezes vencedor do Óscar de Melhor Filme Internacional, o iraniano Asghar Farhadi acompanha, às 19h, no Odeon, a gala de Histoires Parallèles, filme que disputou a Palma de Ouro em Cannes este ano.

Farhadi (à direita) com Pierre Niney e Vincent Cassel nas
filmagens em Paris de seu “Histoires Parallèles”

O regresso do realizador dos oscarizados A Separation (2011) e The Salesman (2016) às ruas de Paris acontece 13 anos depois de The Past. Inspirado pelo legado de Krzysztof Kieślowski (1941-1996), Farhadi constrói agora uma trama coral em torno das diferentes formas de olhar — e de invadir — a vida alheia. Isabelle Huppert interpreta Sylvie, uma escritora em crise criativa que observa secretamente os habitantes do prédio em frente ao seu apartamento à procura de matéria-prima para um romance. A chegada do jovem Adam (Adam Bessa), contratado para a auxiliar, dissolve gradualmente a fronteira entre observação, imaginação e interferência.

“Quanto mais envelhecemos, mais entendemos aquilo que procuramos”, disse Farhadi em Cannes, onde apontou Kieślowski como uma referência decisiva. “Ele ainda pertence ao meu panteão pela compaixão que sente pelas suas personagens. A fatalidade faz parte do universo dele.”

Fotografado por Guillaume Deffontaines, colaborador habitual de Bruno Dumont, Histoires Parallèles reúne ainda Vincent Cassel, Catherine Deneuve, Virginie Efira, Pierre Niney e India Hair. O filme prolonga a investigação moral que atravessa a obra de Farhadi, desta vez pela via do voyeurismo e da ética envolvida na transformação da intimidade alheia em matéria artística. A passagem do cineasta pelo Rio inclui ainda uma aula aberta no sábado, às 11h, no Armazém da Utopia.

Farhadi é apenas uma das muitas assinaturas de peso de uma programação que atravessa geografias muito distintas. O britânico Mike Leigh chega com Tender Loving Care, drama sobre duas profissionais dos serviços sociais confrontadas diariamente com precariedade, ressentimento e abandono institucional. O filme acaba de conquistar a Concha de Ouro de San Sebastián, onde Kate O’Flynn recebeu também a Concha de Prata de Melhor Interpretação Principal, ex aequo com Asta Kamma August.

Da Coreia do Sul chega Hope, de Na Hong-jin, realizador de The Wailing, numa explosiva combinação de terror, ficção científica e cinema de ação. Apresentado em competição em Cannes, o filme acompanha os habitantes de uma pequena localidade confrontados com uma ameaça inexplicável depois da descoberta do corpo mutilado de uma vaca.

Outra passagem recente por Berlim está representada por No Good Men, da afegã Shahrbanoo Sadat, filme que abriu a Berlinale deste ano. Ambientada em Cabul em 2021, pouco antes do regresso dos Talibãs ao poder, a história acompanha Naru, interpretada pela própria realizadora, única operadora de câmara da principal estação televisiva da cidade e em luta pela custódia do filho. As suas certezas começam a mudar quando recebe uma oportunidade profissional ao lado do jornalista Qodrat.

Já Soumsoum, La Nuit des Astres traz de volta o chadiano Mahamat-Saleh Haroun, vencedor do Prémio do Júri de Cannes em 2010 com Un Homme qui Crie. O realizador regressa com a história de Kellou, uma jovem dotada de poderes sobrenaturais que não compreende, num filme que lhe valeu o Prémio FIPRESCI da competição da Berlinale deste ano.

Completa este recorte internacional Rosebush Pruning, do brasileiro Karim Aïnouz, apresentado em competição pela Berlinale. O realizador de Madame Satã e Motel Destino mergulha numa família norte-americana rica e isolada numa villa espanhola, corroída por desejo, violência e relações profundamente disfuncionais. Callum Turner, Riley Keough, Elle Fanning, Jamie Bell, Tracy Letts e Pamela Anderson encabeçam o elenco, fotografado por Hélène Louvart.

Se o mundo chega ao Rio na quinta-feira, o cinema brasileiro assume o centro das atenções a partir de sexta. Duas vozes autorais de gerações distintas, ambas habituadas a atravessar as fronteiras entre documentário e ficção, inauguram a competição de longas-metragens da Première Brasil: Lucia Murat, com O Sertão das Nossas Memórias, e Guilherme Coelho, com Oceânico.

Com Dudu Miranda na fotografia, Murat regressa aos traumas da ditadura num road movie que parte do Rio de Janeiro rumo ao sertão da Bahia. Com a ajuda de três sobreviventes, O Sertão das Nossas Memórias revisita um massacre ocorrido em 1971 no contexto da perseguição ao capitão Carlos Lamarca, então um dos homens mais procurados pelo regime militar, e a José Campos Barreto, o Zequinha.

Guilherme Coelho, realizador de Fala Tu (2003), segue pelas veredas da ficção em Oceânico, fotografado por Flora Dias e protagonizado por Ana Carbatti. Adyr é uma cientista que, depois de perder o marido para o alcoolismo, encontra na medicina psicadélica uma possível chave para tratar a doença. A investigação coloca-a, porém, na mira de interesses que procuram apropriar-se do seu trabalho.

Rejane Faria em “Vicentina Pede Desculpas” – Netflix

A espanhola Esther García, histórica produtora da El Deseo e dos filmes de Pedro Almodóvar, preside ao júri da competição principal. Ao seu lado estão a compositora Flavia Tygel, Jacqueline Lyanga, codiretora de programação de cinema da Berlinale, a diretora de elenco Marcela Altberg, a produtora Sophie Erbs e o ator Gabriel Leone.

Na competição de ficção, Oceânico mede forças com outros nove títulos: Diário do Fogo, de Maju de Paiva e Bernardo Florim; Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira, de Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão; O Filho da Puta, de Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite; Funk, de Aly Muritiba; LONDON, de Victor Di Marco e Márcio Picoli; A Margem do Rio, de Enock Carvalho e Matheus Farias; Maria de Maria, de Luiza Shelling Tubaldini; A Professora de Francês, de Ricardo Alves Jr.; e Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, que chega ao Rio depois de ter disputado a Concha de Ouro em San Sebastián.

Lucia Murat, por sua vez, completa com O Sertão das Nossas Memórias um octeto documental formado ainda por Alucinação, de Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caetano; Cão Sem Plumas, de Camila Valença; Dragões, de Miguel Antunes Ramos; Elza, de Eryk Rocha; A Extraordinária Vida de Vera Valdez, de Fabio Meira; Fui Olhar Você Dormir, de Anna Azevedo; e Uma Missa para Dom Angélico, de Emilia Silveira.

Nos formatos breves, onze curtas-metragens disputam o Redentor: 3×4, de Juliana Tizatto; Better Future, de Jungle; Boulevard Arrudas, de Matheus Moura; A Casa de Dona Carlota, de Lili Fialho e Bruna Linzmeyer; Fissuras, de Diana Coelho; Fortaleza, de Michel Stolnicki; Joqueta, de Luciana Vieira; Lagoa do Abandono, de Diego Maia; Pedra-Mar, de Janaína Lacerda; Reteté, de Donna Oliveira; e Santo, de Maria Luísa Alves.

A competição Novos Rumos coloca outros oito filmes na corrida: 144 – Apocalipse Não, de João Paulo Cuenca; O Deserto de Luiza, de Alan Minas; Isabel, de Gabe Klinger; Jardim dos Silêncios, de Henrique Dantas; Malick, de Cassio Tolpolar e Modou Awa Dieye; Não Estamos Sonhando, de Ulisses Arthur; Talismã, de Thais Fujinaga; e Turma 101, de Wagner Novais. Aqui, o julgamento cabe a outro júri, presidido pela realizadora e responsável pela montagem Karen Harley e integrado ainda pela produtora Dora Amorim, pelo cineasta Guto Parente e pela argumentista Maíra Oliveira.

Entre a chegada dos mestres internacionais e a entrada em cena de uma nova colheita brasileira, o Festival do Rio volta assim a cumprir a sua vocação de ponte. Se Farhadi traz de Paris uma reflexão sobre aquilo que significa olhar para a vida dos outros, a Première Brasil devolve a pergunta à própria cinematografia do país: de que maneira está hoje o Brasil a olhar para si próprio?

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