Já com várias curtas-metragens na currículo, uma carreira como ator, compositor e realizador, o estónio Kaspar Jancis regressou a Lisboa, ele que por cá já tinha passado pela Monstra, para apresentar a sua primeira longa-metragem, Captain Morten and the Spider Queen (Capitão Morten e a Rainha das Aranhas).
“Há sempre uma boa desculpa para vir a Lisboa“, disse Jancis ao C7nema numa entrevista logo após a exibição do seu filme no festival de animação da capital. Inspirado num livro infantil que também assinou, o filme stop motion segue um rapaz que aprende a dar rumo à sua vida quando é reduzido para o tamanho de um inseto e tem que comandar o seu barco de brincar por um café inundado.
Um filme com muitos elementos oníricos, que coloca realidade e imaginação lado a lado, isto enquanto segue uma história de um filho que vê no pai um herói dos sete mares.
Como é que nasceu este projeto?
A ideia foi executada a partir de um livro infantil que escrevi em 2011. Ele esteve nas mãos do estúdio Nukufilm, que é da Estónia e produzem trabalhos desde 1957. Eles estavam interessados em fazer uma longa metragem a partir dele. Como sou também ilustrador e realizador, convidaram-me para adaptar o livro a filme. Depois disso, começamos a trabalhar no guião. A ideia é a mesma, mas o filme tornou-se bastante diferente.
E a ideia para o livro, de onde veio? Há aqui personagens que me fizeram lembrar Alice no País das Maravilhas, como a Rainha…
Sim, de certa maneira foi o ponto de partida na história. Tudo começou quando quis compor uma peça musical em torno do Alice no País das Maravilhas. A determinado ponto, pensei: ‘porque estou a fazer o Alice no País das Maravilhas se posso fazer a minha própria história?‘
Inicialmente iria ser uma peça de teatro e pedi fundos para encenar esse trabalho. Enquanto esperava por uma resposta, um amigo meu que é editor, perguntou-me porque não fazia um livro a partir da minha história. Como pensei que podia lançar um CD da minha banda e o livro como um conjunto de trabalhos ligados pela minha história, avançamos. Inicialmente era para ser um CD com um livro, mas depois tornou-se um livro com CD e mais tarde um filme. Foi um processo constante, uma cadeia de eventos que se sucedeu.
E foi difícil encontrar financiamento para o filme?
É sempre difícil quando fazes algo em stop motion.
Mas tem grandes nomes do cinema britânico no elenco vocal (Brendan Gleeson, Ciarán Hinds)…
Quando uma empresa irlandesa entrou a bordo da produção, eles disseram-nos que podíamos usar talentos locais nas vozes, dois deles famosos, de categoria A. Por isso fui ao Google e procurei por ‘atores irlandeses famosos’ (risos). Eles são populares e isso aumentou os custos.
E sempre pensou o filme como um projeto stop motion?
Sempre achei que este filme era melhor para stop motion, pelo ambiente, pelas personagens reduzirem de tamanho, etc. Tudo elementos interessantes quando pensados nessa técnica.
E como é ser hoje em dia um realizador de animação na Europa? Sente a necessidade de um dia tentar fazer alguma coisa nos EUA?
Eu sou do mundo do cinema independente e nunca tinha experienciado alguém se meter naquilo que estava a fazer. Ver alguém a ter algo a dizer sobre isso, apanhou-me de surpresa. Por isso, tenho de provar-me a mim próprio constantemente, tal como a personagem do filme. Mas essa interferência é bastante leve, comparado ao que acontece nos EUA e num grande estúdio. Não tenho bem a certeza se conseguiria transitar para esse sistema de produção, mas acredito que o que consegui aqui foi misturar os dois elementos: uma visão forte de autor com um sentimento de produção para uma audiência mais vasta. É o meu objetivo, fazer algo diferente, mas simultaneamente ser perceptível e entusiasmar os miúdos.
E para a Netflix, por exemplo, vê-se a trabalhar para eles?
Eles começaram a apostar muito na animação e estou ansioso de ver o que vai acontecer. Parece realmente o início de algo importante.
Quanto a trabalhar para eles, depende sempre do projeto, da minha própria ideia. Pode acontecer. Por isso, digo sim. Mas vamos ver. Neste momento estou a fazer uma curta, provavelmente a curta em menor escala que já fiz e sinto-a como “um alegre passeio pelo parque” (risos).
Isso leva-me ao ponto seguinte. Está já a trabalhar num novo projeto…
Sim, é um filme de 7 minutos mais próximo aos que fiz no passado. Mas também tem componentes diferentes, embora tente manter o estilo. Chama-se Cosmonaut e segue um velho cosmonauta que está agora encerrado num apartamento, mas que continua a pensar que ainda está numa nave espacial. Esta é a ideia principal, mas a filha e o genro têm uma ideia muito diferente das coisas.
A história lida com o envelhecimento, as pessoas serem esquecidas pelos outros. É uma tragicomédia.
E quando estará pronta?
Creio que estará daqui a umas semanas, depois vou começar o trabalho de montagem. Creio que em junho estará pronta. Quando estiver pronta, verei qual o festival de cinema em que a vou lançar, provavelmente no outono. Espero voltar aqui a Lisboa no próximo ano com ela.
Depois disso, já estou a alinhar uma produção, uma longa-metragem que não é de animação. Um filme em imagem real. Estou muito entusiasmado em ver como tudo vai correr.
Interessante. Muitos dos cineastas de animação mantêm-se sempre nesse registo e não viajam para o cinema em “imagem real”.
Sempre me considerei um cineasta que um animador. Para mim, o storytelling vem primeiro. Na verdade, comecei a escrever o guião a pensar que seria um filme de animação stop motion, mas chegou a um ponto que pensei que ficaria melhor em live action. Como tive apoio e um estúdio mostrou interesse, avancei.
Quando fiz o Morten nunca tinha feito nada em stop motion e com diálogos, estava em terreno virgem. E agora vou estar na mesma situação ao fazer um filme em imagem real.
Será uma coprodução?
Ainda não é certo, mas tenho algumas ideias. O filme será uma mistura, uma colagem, ie, haverá uma mistura de animação e imagem real.
E vai ser em inglês?
Não. Será em estónio.
É uma história local?
Sim, mas simultaneamente global.


