O londrino de 53 anos veste o trench coat de Alec Guiness e da vida nova ao taciturno espião George Smiley da série de enorme sucesso dos anos 70. Nessa altura, a percentagem de crime descia drasticamente, assegura-nos. Pois bem, A Toupeira está de volta. E estreia em Portugal a 22 de Dezembro.
Será desta que é nomeado a um Óscar? Naquele que é, porventura, o mais gritante esquecimento da Academia de Hollywood. Pelo menos, quando entra debaixo da pele do sibilino e inquietante George Smiley, atinge todas as marcas de uma representação impercetível que nos cola ao ecrã para ver o mais acabado filme de espionagem. É como se, de repente, a Guerra Fria voltasse a ser o assunto do dia. E não a crise económica.
Gary Oldman está confortavelmente sentado num sofá, de perna traçada, num elegante lounge do Lido, durante o último festival de Veneza. Já foi Sid Vicious, Beethoven e Drácula, envergou várias peles de assassino e toxicómano, participou em franchises, deu voz a jogos de vídeo e personagens de animação. Não pela quantidade, mas seguramente pela qualidade, não restam dúvidas de que se trata de um dos maiores da sua geração. Contudo, não é o tipo de olhar gelado que vimos em tantos filmes que nos fita. Simpático, descontraído e atencioso deixar-nos-á abrir o livro da sua carreira. Apesar dos diversos sotaques que lhe conhecemos, e de passar parte do tempo nos EUA, não irá contrariar o agradável cockney londrino. Foi assim que o confesso admirador de David Bowie elogiou a visão desapaixonada do sueco Tomas Alfredson ao recuperar a quintessência do romance policial de John Le Carré.
Teve ainda tempo para saudar o conterrâneo Christopher Nolan, com quem filma The Dark Knight Rises, mencionar os seus filhos como os seus críticos mais honestos e não enjeitar a hipótese de se deixar tentar pela posição de realizador. Foi assim.
Estranhou o facto de darem a um sueco a cadeira de realizador para dirigir um filme tipicamente britânico? Sentiu que Tomas Alfredson poderia não captar bem esse estilo particular?
(pausa) Fiquei aliviado quando li o guião e percebi que nesse mundo de pós-guerra, em que James Bond entra em perseguições de carro e tiroteios constantes, o guionista Peter Straughan não estava tentado em ir por aí. Fiquei também fascinado porque conseguiu criar um típico filme dos anos 70 em que tudo é sobre a personagem, sobre a representação. Quando pensamos em filmes como Os Homens do Presidente, Um Dia de Cão, O Vigilante ou Os Incorruptíveis Contra a Droga é isso que nos vem à memoria. Por isso penso que é refrescante ver alguém pegar neste ambiente. Acho que se tivesse sido feito por um brit poderia soar um bocadinho nostálgico.
E pomposo…
Isso. Acho que ele compreendeu a história e evitou esse lado pomposo tipicamente britânico. Poderá ter havido alguma dúvida quando foi sugerido para realização, mas a sua visão e talento são inquestionáveis.
Para muita gente, este romance de John Le Carré é o exemplo mais acabado do romance de espionagem sobre a Guerra Fria. Concorda? Qual foi a sua reacção quando o leu?
O que mais me impressionou foi um lado melancólico, pois é um livro sobre lealdade, a traição. E se tirarmos toda a parte política, percebemos que é um retrato impecável, de personagens e onde a tecnologia e os gadgets começam a aparecer. É um grupo de personagens solitárias, anónimas e fracturadas.
Gary Oldman em «A Toupeira»
Que memória guarda da Guerra Fria?
Nessa altura, as minhas hormonas faziam com que me interessasse mais pelo David Bowie e raparigas do que propriamente por uma eventual guerra (risos).
E os seus interesses eram exactamente por essa ordem?
Depende. Era por fases… (risos)
O que sentiu ao regressar agora a esse período?
É curioso voltar agora mais tarde. Embora as minhas memorias sejam um pouco vagas. Nessa altura teria eu a idade que tem hoje um dos meus filhos. E quando se tem catorze anos o mundo inteiro gira à nossa volta, não é?
É interessante ter referido à pouco o nome de David Bowie. Digo isto porque o seu trabalho de actor passa muito por essa transformação visual. Nessa altura, tinha alguma ideia de que um dia seria actor?
Não, nessa altura estava muito ocupado a ouvir música e de me vestir com aquela roupa vistosa (risos). Na altura era um adolescente na altura, mas via a série Tinker Tailor Soldier Spy na televisão, como todos. Era algo que cativava a Inglaterra, muito antes de aparecer da TiVo (televisão por cabo), gravadores e tudo mais. Por isso, a nossa vida social era gerida em redor dessa hora de emissão. Para ter uma ideia, era um período em que o crime baixava consideravelmente (risos).
A sua carreira está repleta de personagens de vilão, algo exóticos e bem diferentes deste George Smiley. Por outro lado também há muito que não aparecia numa típica produção britânica e protagonista…
É realmente um prazer poder votar a trabalhar em Inglaterra e poder trabalhar com incrível cast de actores. Colin Firth, John Hurt, Toby Jones, Mark Strong… É mais uma família. Lembro-me de querer trabalhar com eles e agora tenho essa possibilidade.
Gosta de oscilar entre o cinema americano, por vezes mesmo dentro do sistema dos estúdios de Hollywood, e o europeu?
Eu gosto do cinema de Hollywood e gosto do cinema americano. Mas não se trabalha em Hollywood, trabalha-se para Hollywood. E isso pode ser em qualquer lado.
Por falar nisso, já terminou Dark Knight Rises?
Não, ainda estou em plena rodagem. É uma história fantástica, ainda que não a possa divulgar, pois acho que me matariam… Mas trabalho com grandes actores e com o Chris Nolan. Acho que Batman é o melhor exemplo de um filme baseado num comic book.

