Entrevista a Artur Serra Araújo, realizador de «A Moral Conjugal»

(Fotos: Divulgação)

Vencedor do Prémio Especial do Júri no Fantasporto de 2012, o segundo trabalho de Artur Serra Araújo, «A Moral Conjugal», estreia finalmente a nível nacional nesta quinta-feira (01/09). Depois de “Suicídio Encomendado”, vencedor do mesmo prémio em 2007, Serra  Araújo retorna com um filme sobre relacionamentos, ancorado numa estrutura diferenciada onde as personagens principais vão sendo substituídas com o andamento da narrativa, assim como vão se criando diferentes histórias e formas de as contar. No elenco, José e Catarina Wallenstein, São José Correia, Dinarte Branco e uma pequena participação de Maria João Bastos.

Como surgiu a ideia de estruturar o filme desta forma, onde as personagens vão cedendo protagonismo umas às outras…?

Eu acho que isso veio de um desafio, de tentar desconstruir a forma mais académica de escrever um guião, estudar enquanto filmava e perceber até que ponto era possível gerir os tempos da ação e entregar o protagonismo a diversos atores. A própria escrita do argumento acabou por ser uma coisa muito orgânica. À determinada altura comecei a contar uma história e dei por mim farto de um personagem e decidia que este iria dar lugar a outro. Estava na altura de experimentar uma alternância porque já estava farto daquele lado sentimental (da personagem de Dinarte Branco) e romântico dele. E assim pus-me a experimentar essa desconstrução da narrativa, em três partes e com três atores diferentes.

Estas personagens também não têm muito em comum umas com as outras…

Sim, a ideia era aprofundar estas diferenças e perceber o que pode estar na base das dependências emocionais que às vezes levam as pessoas a entrar em relações de uma forma totalmente irracional – e ainda para mais manterem essas relações. Então tentei separar o mais possível a nível de perfil psicológico as três personagens centrais e aproximá-los nesta questão da dependência emocional.

Com isso também permitiu variar os próprios géneros… A segunda história, por exemplo, é quase um policial.

Eu tenho tendência para rir daquilo que as pessoas normalmente não se riem. E isso cria quase que uma orientação inevitável para o cómico/trágico. Acho que isso acaba por ser comum aos três. Em diversas situações, de acordo com o perfil psicológico de cada um…

Mas o lado cómico do primeiro não é lá muito acentuado…

Para mim acaba por ser, porque é um homem extremamente derrotista, é um homem que chora, que pergunta por que não é normal, que dá esse lado às vezes mais óbvio e sensível que as próprias mulheres muitas vezes dizem que procuram mas se calhar não é bem assim…

O filme tem a palavra “moral” no título mas as personagens não são guiadas por um sentido ético muito elevado… Tem homicídios, ocultação de cadáveres, adultério, um suspeito de ser terrorista…

Se calhar o título devia ser “Amoral Conjugal” (risos). Acho que a ideia é precisamente esta, não existe uma moral conjugal nem uma linha ética que seja extremamente definida entre as relações. Isto depois tem a ver como cada um consegue gerir as suas expectativas e convicções.

Vê muitas diferenças estéticas e temáticas em relação ao “Suicídio Encomendado”?

Acho que sim. Penso que isso é obrigatório, é quase instintivo fazer outra coisa. Ao mesmo tempo, quem gostou do primeiro vai gostar deste, assim como aqueles que não apreciaram provavelmente terão a mesma reação em relação à “Moral Conjugal”. Ambos têm o tema do suicídio presente, têm o tal tom cómico/trágico – apesar deste ser mais denso, ter um enredo com algum suspense que o outro não tinha.

Como foi a escolha dos atores?

O José Wallenstein era uma escolha quase óbvia. Trabalhamos juntos no “Suicídio Encomendado” e nos tornamos grandes amigos. É uma pessoa que conhece bem o funcionamento do meu cérebro (risos). Foi muito fácil passar o papel para ele e quando estava a escrevê-lo já estava a pensar nele. A própria personagem já nasceu com ele. 

A São José Correia também foi uma escolha desesperadamente óbvia. Apesar de não a conhecer, só imaginava esse papel desempenhado por ela, especialmente por ser uma pessoa que tem facilidade em conjugar uma sensualidade um bocado óbvia e atrativa com outras características que eu achava que a personagem devia ter. Procurei ela e tive sorte, pois foi muito fácil dirigi-la. 

A Catarina Wallenstein foi uma oportunidade que surgiu por ser sobrinha do Zé. Eu já conhecia alguns trabalhos dela e tinha ficado bastante bem impressionado. Da mesma forma que procuro criar desafios para mim também tenho de o fazer para os atores. Por exemplo, há ali uma linha muito tênue de sedução entre os dois, tenho de criar esse exercício para eles entrarem nas personagens e acho que foi bastante estimulante para os dois. 

Catarina Wallenstein, José Wallenstein e São José Correia

Em relação ao Dinarte Branco, eu conhecia alguma coisa do trabalho dele. Foi uma sugestão do Ivo Canelas, um ator que aprecio muito e que era a minha primeira escolha para o papel. Depois avançamos com outros nomes, mas depois que me inteirei do trabalho do Dinarte vi que tinha sido uma ótima escolha. Ele deu uma dimensão emocional à personagem que dificilmente alguém conseguiria. É um ator com uma percepção de timing incrível e que tem de facto uma capacidade de gerar emoções quase instantânea. Parece às vezes uma máquina, consegue catalogar muito bem uma quantidade de emoções que teve na vida e fazer uso delas nos momentos exatos. Aprendi muito a trabalhar com ele.

A Maria João Bastos foi pela imagem dela, de mulher fria e distante, para além de toda a competência que ela tem. Apesar de ter tido um papel muito pequeno, trabalhou como se fosse a protagonista do filme. O que me deixou com grande vontade de trabalhar com ela num papel maior…

Há o Eloi, que faz o papel de pai, é um ator que trabalhou comigo em quase todos os meus filmes, acompanhou-me na minha carreira desde o princípio. Não é que ela seja muito longa mas é um ator que está muito esquecido no Porto, pois não sai de lá e que representa o que o amadorismo tem de bom no cinema. É alguém que vive para o cinema.

“A Moral Conjugal” também é um filme difícil de catalogar. No contexto do cinema português, tanto pode ser visto como filme de autor como também é acessível…

Sim, isso porque eu nunca me preocupei com essa distinção. Eu vejo o cinema como um todo e acho que esse deveria ser o caminho. As pessoas têm que fazer o cinema de que gostam, aquilo que apreciam ver. “A Moral Conjugal” é um filme de autor porque é feito por vários autores. E se fizer público será comercial porque terá rentabilidade. Portanto, nunca percebi bem essa separação. Acho até que em outros países isso nem sequer sucede. 

Tem novos projetos?

Em andamento não posso dizer que sim, pois ainda estão na fase do guião. Tenho um projeto que se chama “O Homem Estátua” que vem no seguimento de uma curta que eu fiz que se chama “Desavergonhadamente Real” e que procura explorar a linha que separa a ficção da realidade de forma em que consigo deslocar o espectador para estas duas zonas. É um estilo que também fez parte da vontade de criar alguns desafios e através daí perceber como é que consigo comunicar com o espectador e de certa forma desorienta-lo. Alternar frequentemente entre ficção e realidade. Já escrevi o guião e estou à espera que a nova lei do cinema clarifique de facto como e quando é que vai funcionar e vou procurar investimentos. 

 

 

 
 
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