Exclusivo: Entrevista a David Fincher, realizador de «Millennium 1: Os Homens Que Odeiam As Mulheres»

(Fotos: Divulgação)

Falámos longamente com o prolífico realizador dos vídeos de Madonna, Sting e Aerosmith, e autor dos arrepios de «Alien 3», «Sete Pecados Mortais», «Clube de Combate», bem como de «Zodíaco», «Benjamin Button». E vagueamos pelas ilhas de Estocolmo à procura dos locais da rodagem de «Millennium 1: Os Homens Que Odeiam As Mulheres». Um mestre naquilo que faz, disso não resta menor dúvida.

Os créditos iniciais do filme são fantásticos…

Tentámos descrever a história de Lisbeth usando uma animação CGI oblíqua. 

No entanto, pareceram-me um pouco na linha de James Bond…

Tem razão, mas é mesmo isso (risos)… Quisemos mostrar um pouco o passado de Lisbeth, usando um pouco de CGI oblíquo. 

Eu gosto disso nos filmes. Gosto de tentar mostrar qualquer coisa que os surpreenda, mesmo que seja de uma forma não esperada. Gosto de criar uma expectativa e pensar que as pessoas não irão ver aquilo que esperam.

Não é a primeira vez que aborda tema de serial killers no cinema. Consegue fazer alguma comparação? O que o fascinou para regressar a este tema?

Não é que seja interessante. Para mim, Sete Pecados Mortais não era um filme sobre um serial killer. Era mais sobre a noção do mal. É algo em que se entra e que nos envolve totalmente. E Zodíaco era sobre vingança, sobre a forma de conseguir superar um trauma e perceber se realmente necessitamos de uma vingança. Este filme interessou-me por todas as razões que não estavam nos mistérios da família Vanger. Interessava-me mais no homem de meia idade e a rapariga de 23 anos levemente perturbada. E o que esses personagens faziam uma pela outra, como se encontraram. Se houve alguma coisa que se tornou óbvio sobre o sucesso deste livro é essa estranha amizade. Sobretudo com toda aquela loucura em redor. É nessa altura que pensamos: “nunca vi nada assim”.

É mesmo verdade que usa repete cada plano cerca de 40 vezes?

O que é verdade é que eu não desisto enquanto não tiver tudo o que necessito para montar a cena. Mas não percebo porque se preocupam porque não peço mais dinheiro por isso. Só me leva mais tempo. No entanto, há uma resposta inicial do ator que é o estimulo dele. Depois há a dramatização disso mesmo. E isso pode ser extenuante, porque há a luz, a câmara, o som, coisas que nem nos lembramos. Não quer dizer que não haja validade na resposta inicial. A resposta inicial é até muito importante, mesmo que demore 18 takes a obtê-la. Às vezes, os atores podem aborrecer-se, mas acho também que é aí que podem dar-nos esse lado mais natural.

Chegou a acontecer neste filme contentar-se apenas com três takes?

Já aconteceu. Tivemos muitos primeiros takes, sobretudo porque tínhamos neve e os atores tinham de caminhar na neve e não podíamos andar a varrer o caminho…

O que viu na Rooney Mara que o fez pensar que seria a Salander ideal para o filme?

Não sei. Fazer o casting para o filme não é só encontrar a cara certa para o papel. É uma série de problemas. Para além de ter de me certificar que quem ficar terá de aguentar o trabalho, tenho de acreditar também que o público vais ficar preso a ela sempre que estiver em cena. Claro que parte disso será o meu trabalho, sobretudo quando se trata de alguém que nunca vimos antes. E temos de convencer o estúdio que é a melhor escolha. Como sabe, trabalhei com ela em Rede Social, era n filme a namorada do Jesse Eisenberg/Mark Zuckerberg. Na verdade é um pouco a antítese da Lisbeth.

Rooney Mara como Lisbeth Salander 

Viu muitas atrizes para o papel?

Vimos umas 25, 30 atrizes diferentes. Ela estava dentro do grupo das que pensamos que poderiam ser apropriadas para o papel. O que importa é estarmos preparados para nos deixarmos deslumbrar com algo, mesmo que inicialmente não fosse isso que queríamos. Mas é claro que tudo o que disse respeito a este filme foi exagerado ao máximo. Era um casting comum com um papel muito difícil de escolher.

É verdade que pensou também em Scarlet Johansson para o papel?

Sim, ela é minha amiga. E houve esse rumor e também comentários meus que foram demasiado adulterados. Por isso, não queria voltar a entrar por aí…

Os seus filmes estão cheios de personagens pouco sociáveis, é algo que o estimula?

Não nego que existe essa ligação entre elas, mas não posso dizer que pensa isso em termos de um conjunto de obra. Não quero trabalhar para uma filmografia, mas ir-me surpreendendo também. É claro que já estive na masmorra com todas a ferramentas (risos), mas acho que esta estranha relação desta jovem com este homem foi algo que nunca tinha abordado. Até porque este filme não é propriamente o filme que as pessoas possam esperar.

Mesmo aquelas que leram o livro.

Acha que uma classificação etária mais severa poderá prejudicar o filme?

Bom, nós tivemos um ‘R’ (restricted), que já é bastante severo….

Acredita que vai ter um blockbuster?

Acho que não é um filme de um bilião de dólares. Por exemplo, «O Silêncio dos Inocentes» fala de temas do mundo corrente, mas que crianças não podem ver. Acho que a zona cinzenta entre o PG 13 e o R tem mais a ver com o conteúdo e não com aquilo que se vê. Ou se é obrigado a ver. Por isso é interessante quando um estúdio se compromete a fazer um filme duro que não vai ser vendido a adolescentes.

 
 
 
Paulo Portugal, em Estocolmo 
 
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