Tradutor de músicas de Björk para a língua do audiovisual, transformando o cantar da islandesa em narrativas cinematográficas (sim) publicitárias, mas de autor, o francês Michel Gondry é o responsável por um dos raros momentos hilariantes que a programação do Festival de Cannes viveu em 2023, frente a uma seleção mais sisuda, amarga ou alarmista. Presente na Quinzena dos Cineastas com “Le Livre Des Solutions” (O Livro das Soluções), uma comédia aparvalhada repleta de elementos autobiográficos sobre um realizador limitado no seu processo criativo por ditames dos produtores.
Aos 60 anos, o realizador viveu essa experiência na pele ao trabalhar na série de TV “Kidding”, com o amigo Jim Carrey, com que fez um marco dos ecrãs dos anos 2000: “Despertar da Mente” (“Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, 2004), Óscar de melhor argumento original, batizado no Brasil como “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”.

“As séries são um formato que não pretendo voltar a trabalhar, pois a experiência que tive não foi boa. Existe nesse mercado a figura do showrunner, um argumentista com status de produtor. É uma figura que muitas vezes não entende nada de realização, mas quer se meter no set de um cineasta e dizer o que não posso fazer, exigindo que faça um close-up onde o plano deve ser aberto. Desculpem, mas isso para mim não dá”, disse Gondry ao C7nema numa entrevista às margens das areias da Croisette, na qual ele refletia sobre a insistência das pessoas em usarem a palavra “volta” – ou “comeback” em Inglês – acerca de “Le Livre Des Solutions”. “Nunca fui, nunca parei, sempre estive a produzir, apenas por outros meios”.
Talvez pelo flop comercial de “L’Écume Des Jours” (2013), o mercado tenha ficado com a impressão de que Gondry saiu de cena. Em 2015, lançou “Micróbio e Gasolina” e ficou devotado aos sets de “Kidding”. Mas desde o fim de semana, a Quinzaine des Cinéastes está aos suspiros com o que viu em “Le Livre Des Solutions”.
Trata-se de uma comédia simples, calcada em bons diálogos, na qual os surtos criativos de um realizador bipolar, Marc, são o foco. O papel principal foi confiado a um inspirado Pierre Niney, que contracena com uma das melhores comediantes de França, Blanche Gardin. E ainda tem uma doce participação de Françoise Lebrun.
“Surpreendo-me em ver as pessoas rirem com o filme. É óbvio que tive o cuidado de fazer um filme de entretenimento, que fugisse do ridículo na sua forma de representar um artista em crise. Mas não imaginava que a recepção seria boa como foi, nem pela chave do humor. Há anos que procuro um filme que faça as pessoas esquecerem o ‘Eternal Sunshine…’. Ainda é cedo para saber se este é o caso, mas acho que as pessoas se divertem com a história desta casa onde coisas surreais acontecem”, disse Gondry.
Com toda a engenharia visual artesanal que marca a sua obra desde a fase MTV dos seus vídeos musicais, Gondry deu a Cannes 1h42 de leveza e invenção com as loucas ideias de Marc (Niney) para finalizar na sua casa um filme de autor que os produtores estão a boicotar. As suas ideias rendem sequências hilariantes.
“Os meus telediscos não revolucionaram nada. Só tinham história, e personagens. É o que tento dar ao público no “Le Livre Des Solutions“. O que fez ‘Eternal Sunshine…’ agradar tanto era o facto de que ele tinha o Charlie Kaufman num guião com… história, com… personagens”, disse Gondry. “Não falo muito do estado em que o cinema se encontra hoje, pois acho que a fase mais moderna dessa arte deu-se com os Lumière. Eles inventaram uma tecnologia de reproduzir emoções. Quem veio depois, só viu ali histórias”.

