Realizador do documentário Doel (2018), que retrata os últimos habitantes de uma vila belga condenada pela expansão do porto de Antuérpia, Frederik Sølberg estreou-se agora na ficção com Hana Korea.
Com a estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Busan (17-26 de setembro), o filme baseia-se nos relatos reais de uma refugiada norte-coreana, e nas complexidades que encontra para “recomeçar” uma nova vida na Coreia do Sul.
Identidade, pertença e adaptação são as chaves temáticas deste Hana Korea , com Sølberg a construir um retrato íntimo de transformação pessoal, contando com a atriz Kim Minha no papel principal.
Em conversa com o C7nema, o realizador dinamarquês falou sobre a origem do projeto, os desafios linguísticos e culturais que encontrou e a importância da colaboração estreita entre as equipas coreanas e dinamarquesas para a concretização do filme.

Como começou a sua ligação à Coreia do Sul?
Vim à Coreia pela primeira vez há cerca de 15 anos. Lembro-me perfeitamente: cheguei, entrei num restaurante e comecei a falar com dois coreanos que tinham estado num evento ligado à memória da guerra. Tentaram explicar-me o que sentiam em relação à divisão da península. Já conhecia a história, sabia da guerra e da divisão, mas nunca tinha vivido essa dimensão pessoal, íntima. E no fim, um deles disse-me: “Tudo o que queremos é Hana Korea.” Hana significa “um”, “unidade”, em coreano. Essa frase ficou comigo e acabou por se tornar o título do filme. Foi nesse momento que despertou em mim o interesse pela Coreia.
E o que encontrou depois dessa primeira viagem?
Apaixonei-me pela Coreia e comecei a investigar. Uns anos mais tarde, descobri o Hanawon, o centro oficial de integração para norte-coreanos na Coreia do Sul. Esse lugar intrigou-me. Pensei: o que é que se diz a uma pessoa que vem de uma ditadura, onde sempre foi subjugada, e de repente se torna um indivíduo livre numa sociedade moderna? O que se ensina? O que se aprende? Fascinava-me esta transformação — menos na perspetiva política, mais na existencial. A identidade, a pertença, a relação entre indivíduo e sociedade sempre me interessaram como cineasta. E percebi que aqui havia uma história universal sobre identidade e pertença.
Isso levou-o a regressar à Coreia?
Sim. Voltei para fazer um documentário de rádio sobre o Hanawon. Entrevistei norte-coreanos, especialistas e pessoas que trabalhavam no centro. Percebi então que havia potencial para um filme — não sobre a Coreia do Norte, mas sobre o ser norte-coreano na Coreia do Sul.
E quando é que o projeto de cinema tomou forma?
Em 2019. Associei-me à produtora dinamarquesa Sara Stockmann e à produtora coreana Heejung Oh, da Seesaw Pictures. Juntos começámos a investigar e a entrevistar refugiados. Foi nesse processo que conhecemos uma jovem norte-coreana cuja vida inspirou o filme. Mantivemos conversas com ela durante vários anos.
Qual foi a primeira ideia para o filme?
Inicialmente pensávamos num híbrido, um documentário encenado, com elementos quase de palco. Mas ao escrever o guião com a Sharon Choi, ficou claro que precisávamos de um retrato íntimo, imersivo, centrado em Hyesun, a protagonista. A sua transformação pessoal exigia uma abordagem cinematográfica mais ficcional, para libertar todo o potencial.
Como foi esse processo de escrita e colaboração?
Este filme só foi possível graças a uma colaboração estreita entre a Dinamarca e a Coreia. Trabalhámos seis anos como uma pequena equipa, sempre com acesso igual a decisões criativas. O guião foi escrito em inglês com a Sharon Choi, que não foi apenas tradutora, mas uma ponte cultural e criativa. Ela trabalhou, por exemplo, com o Bong Joon-ho em Parasite e em Mickey 17. É uma argumentista de enorme talento. O nosso lema era: “um olhar de fora, mas com conhecimento de dentro”. Procurámos sempre esse equilíbrio para sermos autênticos.
A língua foi uma barreira para si?
Frequentei aulas de coreano, mas a verdade é que não falo. Percebo algumas coisas, mas não domino a língua. O idioma de trabalho foi o inglês. O guião foi escrito em inglês, depois traduzido para coreano. Para o casting, trouxemos a Kim Min-ha a Copenhaga para um workshop. Ela fala inglês fluentemente — já tinha trabalhado em Pachinko —, por isso foi possível ensaiarmos bem. No set, eu tinha o guião em inglês e também em coreano transliterado no alfabeto latino. Assim conseguia acompanhar melhor as falas, mesmo sem compreender todas as nuances. Claro que dependia da equipa para corrigir entoações ou pausas que eu não conseguiria ouvir. Em última análise, eu decidia, mas foi um verdadeiro trabalho de equipa.

O filme foi difícil de realizar neste contexto?
Muito. Fazer um filme de ficção na Coreia, sendo um documentarista dinamarquês, é um processo naturalmente complicado. Mas nunca tivemos medo de enfrentar essas dificuldades, de discutir, de fazer perguntas. Isso tornou o filme melhor. O facto de muitos de nós virmos do documentário ajudou: estávamos sempre focados na autenticidade, não numa abordagem superficial. Este foi sempre um projeto pouco comum — uma coprodução absolutamente equilibrada entre Coreia e Dinamarca.
Como pensou esteticamente o filme?
Definimos uma regra de base: quanto mais confinada Hyesun estivesse, mais fixo seria o enquadramento, como um tableau. À medida que ela se emancipa, a câmara torna-se mais livre. Claro que também gosto de quebrar as minhas próprias regras, e há exceções. Trabalhámos muito essa ideia com a diretora de fotografia, Stephanie Stål Axelgård. Filmámos tudo em locações reais, porque queríamos captar a textura dos edifícios, o uso diferente das cores na Coreia em comparação com a Dinamarca. Isso trouxe autenticidade, uma vibração visual própria, sem cair no melodrama artificial.
E como decorreu a estreia do filme em Busan?
Tivemos a estreia mundial ontem. Foi uma enorme honra. A sala estava esgotada e a reação do público foi muito positiva, assim como as primeiras críticas. Para nós, era essencial que o filme ressoasse com a audiência coreana. E acreditamos que também pode tocar o público internacional, porque apesar de ser uma história profundamente coreana, há nela algo universal sobre identidade e crescimento pessoal.
Na sua experiência na Coreia do Sul, qual foi a sensação que ficou na ideia de um dia o conflito entre as duas Coreias se sanar e voltarem a ser uma única nação.
Pergunta complicada, mas, pelo que percebi, as gerações mais velhas sentem mais preocupação e interesse na reunificação. Os mais jovens parecem preocupar-se menos, talvez porque cresceram já com essa realidade como um dado adquirido. Mas o meu filme não é político no sentido de tomar uma posição. O que quis foi trabalhar o tema com respeito, mostrar pessoas com dignidade, e deixar que o público tire as suas próprias conclusões.
Vai continuar a alternar entre documentário e ficção? Tem um novo projeto?
Sim, quero fazer ambos. Tenho ideias para novos projetos em ficção e em documentário. Talvez da próxima vez numa língua em que esteja mais à vontade (risos). Mas sim, quero continuar a explorar esta fronteira.

