Na última sexta-feira, Todd Haynes completou 65 anos. Receberá como prenda, da cinefilia brasileira, uma retrospectiva do seu cinema provocador, que se estenderá pelos ecrãs do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ) entre 14 de janeiro e 9 de fevereiro. Outras duas unidades deste espaço cultural acolherão a mostra dedicada à sua obra, concebida sob a curadoria de Carol Almeida e Camila Macedo, com idealização, coordenação geral e produção executiva de Hans Spelzon: de 21 de janeiro a 12 de fevereiro, a programação passa pelo CCBB de São Paulo, e de 3 a 22 de março pelo CCBB de Brasília.
Esta celebração de uma das figuras mais cultuadas do cinema independente norte-americano, responsável por obras como Poison (Prémio Teddy, 1991), Velvet Goldmine (Prémio de Melhor Contribuição Artística em Cannes, 1998) e Carol (Queer Palm, 2015), surge na esteira de um ano particularmente favorável para o realizador. Em fevereiro, Haynes presidiu ao júri da Berlinale e, em maio, foi distinguido pela Quinzena dos Realizadores com a Carrosse d’Or.
“Venho de um universo criativo que passou a expressar-se com o boom da Sida, procurando reagir ao que vivíamos, e, ainda hoje, o cinema independente continua a abrir avenidas para que novas vozes sejam ouvidas, como provou recentemente Sean Baker, ao realizar longas-metragens com um telemóvel”, afirmou Haynes ao C7nema, em Berlim.

Ainda empenhado em tirar do papel o projeto Fever, uma cinebiografia da cantora Peggy Lee (1920–2002), com Michelle Williams no papel principal, Haynes enfrentou uma desilusão há cerca de um ano e meio, quando Joaquin Phoenix desistiu abruptamente de um filme queer que iria filmar com o cineasta, já às vésperas do início das filmagens. O projeto acabou por “ir para o frigorífico”, numa suspensão que chegou a vislumbrar uma possível saída quando Pedro Pascal demonstrou interesse em assumir o papel inicialmente pensado para Phoenix. Não existem, até ao momento, atualizações sobre o futuro do filme.
Ainda assim, Haynes foi amplamente celebrado em Cannes ao receber a Carrosse d’Or, distinção cujo nome evoca o legado de Jean Renoir. A homenagem é atribuída pela La Société des Réalisatrices et Réalisateurs de Films (SRF), entidade que, nos últimos anos, distinguiu autores de peso como Andrea Arnold, Souleymane Cissé, Kelly Reichardt, Frederick Wiseman, Martin Scorsese e Werner Herzog. A escolha de Haynes prende-se com a forma como alargou as possibilidades experimentais da imagem cinematográfica, como exemplificado em Far from Heaven (2002).
Na Croisette, um excerto da carta do Conselho de Administração da SRF sublinhava: “De Superstar: The Karen Carpenter Story a May December, os seus filmes são habitados por uma profunda crença nas possibilidades experimentais e narrativas do cinema. O seu génio reside na capacidade de nos emocionar e deslumbrar num único gesto, conjugando virtuosismo formal com uma infinita capacidade de empatia e ternura. As suas obras são refúgios para todos os que conhecem o preço pago pelos seus sentimentos e pela sua diferença. Incansavelmente, Haynes desafiou as normas e estruturas da representação cinematográfica para melhor questionar as nossas representações sociais, raciais e de género.”
Nas redes sociais, a equipa da mostra Todd Haynes no CCBB anuncia ainda que o público terá acesso, em formato digital e impresso, a um catálogo dedicado ao realizador, concebido como uma fortuna crítica aprofundada no campo dos estudos queer e de género. A publicação reúne textos em português de investigadores brasileiros e estrangeiros. Na apresentação da retrospectiva no Instagram, a organização sublinha que Haynes é “reconhecido pelo seu trabalho no cinema independente e como pioneiro do movimento New Queer Cinema; nas suas obras, o cineasta explora as falsas aparências do ‘sonho americano’, bem como temas ligados à sexualidade e à identidade de género, questionando normas sociais e culturais, além de investigar a identidade de artistas e figuras notáveis, como David Bowie e Bob Dylan.”

