Entrevista a Luís Vieira Campos (realizador de «Dia de Visita», curta vencedora do Shortcutz Porto em Março)

(Fotos: Divulgação)

Um casal de ex-toxicodependentes apaixonou-se durante a fase de recuperação e está agora separado pelas grades da prisão. Ela (a atriz Sandra Salomé) está na prisão de Santa Cruz do Bispo a cumprir pena – a qual é abrangida pela regalia da visita íntima.

No filme, seguimos um dia na vida dele (o ator Miguel Rubim) onde ele vai visitar a sua mulher à prisão, tendo direito a um período de tempo a sós no quarto das visitas que existe na prisão.

Uma história quente e emocional capturada a preto e branco por Manuel Pinto Barros, «Um Dia de Visita» é a nova curta de Luís Vieira Campos, que já conquistou o circuito dos festivais como trabalhos como «Quando Eu Morrer» e que recentemente produziu «Auto do Cordeiro».

O lado ficcional do filme foi apresentado em março no Shortcutz (o DVD do filme traz também um documentário filmado com as reclusas na prisão de Santa Cruz do Bispo e pode ser descoberto no site dos Filmes Liberdade).

O projeto venceu a competição de fevereiro do Shortcutz Porto, e o c7nema aproveitou para falar com o realizador Luís Vieira Campos sobre este projeto.

De onde surgiu a ideia para a curta?

O filme surge de uma necessidade pessoal de falar sobre o que nos pode limitar como seres humanos. Mais especificamente, neste caso, a privação da liberdade. 

Dia de Visita é baseado em factos reais. As personagens principais são dois ex-toxicodependentes que, já num processo de recuperação, se conheceram, apaixonaram e iniciaram uma relação. Algum tempo depois, a mulher foi julgada e condenada a cumprir uma pena de prisão por um crime que cometeu, no seu passado, relacionado com o abuso de drogas.

O ponto de partida do filme é modo como as duas personagens lidam com a situação, em que a sua relação se vê ameaçada por circunstãncias exteriores à sua vontade.

Como tomaste conhecimento da realidade das Visitas Íntimas e como se tornou parte do filme?

A ideia foi sempre situar a ação durante uma visita num Estabelecimento Prisional (EP). O regime das visitas íntimas foi-nos dado a conhecer, de uma forma muito específica e apaixonada, por Paulo Moimenta de Carvalho, Diretor do Estabelecimento Prisional de Santa cruz do Bispo, local onde queriamos rodar o filme. Naquela altura as visitas íntimas eram muito recentes naquele EP. Estavamos no início de 2011 e a primeira visita íntima em Santa Cruz tinha acontecido há poucos meses atrás. Por outro lado, apesar de já existirem há alguns anos visitas íntimas como uma valência de alguns Estabelecimentos Prisionais, só a partir do novo Regulamento Geral dos Serviços Prisionais, que iria entrar em vigor em junho desse ano, o requerer uma visita íntima passaria a ser um direito de todos os reclusos, que estivessem detidos há mais de seis meses.

A partir daí decidimos que a visita do filme seria uma visita íntima e também surgiu a ideia de propor aos elementos do staff do EP e às reclusas a gravação de depoimentos sobre este tema.

Assim, após a rodagem e finalização do filme, fizemos uma primeira apresentação pública no EP Santa Cruz do Bispo e solicitamos às reclusas que estavam abrangidas por aquele regime que colaborassem no projeto.  

Nesta sessão algumas destas reclusas, responderam ao nosso apelo e posteriormente gravamos os seus depoimentos onde partilham experiências pessoais e a importância que a visita íntima tem para as suas vidas dentro da prisão. 

Gravamos também depoimentos com o Chefe dos Guardas e com Paulo Moimenta de Carvalho, que fala da evolução do regime das visitas íntimas em Portugal, desde que foi iniciado com um caráter experimental em 1998, nos EP’s de Vale de Judeus e do Funchal. 

Ficamos com um material de caracter documental que pensamos ter uma importância muito significativa e que decidimos editar em DVD em conjunto com o Dia de Visita. Este ficou disponível ao público a partir de setembro de 2011, no dia em que fizemos a estreia do filme, no Cinema Passos Manuel na cidade do Porto.

A curta tem sido promovida de uma forma muito próxima e pessoal, com eventos promovidos por ti onde passa o filme assim como os documentários que o acompanham. Como tem sido a reação ao filme e ao seu tema?

Temos efetuado sessões em vários locais do país, em parceria com autarquias e cineclubes. Projetamos o Dia de Visita seguido dos depoimentos das reclusas e por vezes participamos em debates. O público tem reagido muito bem. A sessão é muito emotiva e confronta-nos com uma realidade que, para a maior parte das pessoas é muito distante. Esperamos ainda levar o Dia de Visita a muitos outros locais, bastando para tal que entrem em contacto com a Filmes Liberdade. 

Que te parecem eventos de curtas-metragens mais informais como o Shortcutz?

Gosto muito do festival e sou um frequentador o mais assíduo possível. É muito interessante a relação de proximidade que é promovida entre o realizador e o público. Penso que é inspiradora a capacidade que o festival tem tido em manter uma programação semanal, com a sala sempre cheia de um público muito jovem e participativo.

Tens algum novo projeto?

Temos vários projetos, mas o que está numa fase mais avançada de desenvolvimento, é uma longa-metragem de ficção escrita por Valter Hugo Mãe. Chama-se Bicicleta e esperamos reunir as condições necessárias para entrar em rodagem este ano.

 
 
 
 
 
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