Marraquexe abre ecrãs ao cinema de autor

(Fotos: Divulgação)

Criado em 2001, com o intuito de fomentar intercâmbios culturais de Marrocos com o mundo, o Festival de Marraquexe — mais famoso pelos seus júris estelares e pelas suas palestras com vozes autorais do que pela sua competição — abre esta sexta-feira mais uma edição, a número 22. Gus Van Sant é quem dará início ao evento, com o thriller Dead Man’s Wire, um tributo a Dog Day Afternoon (Um Dia de Cão, 1975), numa sessão fora de concurso. Fazendo jus à sua aposta em jurados de luxo, o festival convocou o cineasta sul-coreano que conquistou três Óscares de uma só vez com Parasitas (2020) para liderar a equipa de juradas e jurados: o realizador Bong Joon Ho. No encerramento, a 6 de dezembro, antes de anunciar o palmarés, o cineasta fará um colóquio aberto ao público.

A programação está repleta de potenciais concorrentes aos Óscares de 2026 — como Hamnet, de Chloé Zhao — inserindo-se numa tradição histórica daquele recanto do Norte de África, que sempre despertou o imaginário dos grandes estúdios mundo fora. Nesta 22.ª edição, haverá distinções ao realizador mexicano Guillermo del Toro (com projeção em ecrã gigante do seu Frankenstein, já disponível na Netflix) e à atriz norte-americana Jodie Foster, com exibição de Vie Privée, de Rebecca Zlotowski. A atriz marroquina Raouya e o ator egípcio Hussein Fahmy, presidente do já referido Festival do Cairo, serão igualmente homenageados.

A competição oficial que Bong Joon Ho irá avaliar — cujo prémio é a Estrela de Ouro — conta com 13 concorrentes de peso. Atrizes conhecidas como Jenna Ortega (a Wandinha da Netflix) e Anya Taylor-Joy serão também juradas, a par das cineastas Julia Ducournau e Celine Song, dos realizadores Hakim Belabbes e Karim Aïnouz, e do ator Payman Maadi. Um dos destaques da disputa é Promised Sky, oriundo da Tunísia e realizado por Erige Sehiri, exibido em Cannes e, em outubro, no Festival do Rio. Há igualmente forte expectativa em torno de Behind the Palm Trees, de Meryem Benm’Barek, que conta com a francesa Carole Bouquet (celebrizada ao lado de Roger Moore em 007 – For Your Eyes Only (1981)) no elenco.

O filé mignon de Marraquexe é a secção Horizontes, que apresenta 19 filmes contemporâneos — muitos deles bem posicionados na corrida às estatuetas douradas de Hollywood — e traça um panorama global do Cinema actual. Por lá estarão figuras de referência como Claire Denis (The Fence), Ildikó Enyedi (The Silent Friend), Jim Jarmusch (com o vencedor do Leão de Ouro Father Mother Sister Brother), Richard Linklater (Nouvelle Vague), Park Chan-wook (No Other Choice), e Jafar Panahi, que exibirá o vencedor da Palma de Ouro Un Simple Accident.

Na secção 11.º Continente, dedicada a vozes autorais de todo o mundo, a argentina Lucrecia Martel apresenta o ensaio documental Nuestra Tierra, sobre o assassinato do líder indígena Javier Chocobar. Ao seu lado surge o galego Oliver Laxe, com Sirât, que representa Espanha na corrida às estatuetas da Academia de Hollywood.

“Dead Man’s Wire” abre o Festival nesta sexta

O último filme a ser exibido, na noite de encerramento, será o épico Palestina 36, de Annemarie Jacir. A narrativa decorre em 1936 e conta com Jeremy Irons num elenco que inclui ainda Hiam Abbas. A mais célebre estrela palestiniana, Abbas deu recentemente uma masterclass no Festival do Cairo sobre as dimensões estéticas ao serviço de dilemas éticos na tensão entre os ecrãs e os conflitos armados. Promete trazer essa mesma militância a Marraquexe. Amparado pelo talento de Hiam Abbas e de Irons, o filme de Annemarie Jacir mostra como, na segunda metade dos anos 1930, aldeias por toda a Palestina se insurgiram contra o domínio colonial britânico. Yusuf (Karim Daouad Anaya), que tenta construir a sua vida para lá dessa crescente agitação, vê-se dividido entre a sua casa rural e a inquietude de Jerusalém. Mas a História, implacável, avança. Com o aumento do número de imigrantes judeus que fugiam ao antissemitismo na Europa e a população palestiniana a unir-se na maior e mais longa revolta contra os 30 anos de domínio colonial, tudo parece encaminhar-se para um conflito inevitável, num momento decisivo para o Império Britânico e para o futuro de toda a região.

Este é o tipo de panorama geopolítico que injeta nitroglicerina política — e também poética — no Festival de Marraquexe, que procura, mais uma vez, demonstrar que a sua programação é pura celebração cinematográfica. 

Concorrentes à Estrela de Ouro de 2025

Aisha Can’t Fly Away (Egito), de Morad Mostafa

Amoeba (Singapura), de Siyou Tan

Behind the Palm Trees (Marrocos), de Meryem Benm’Barek

Broken Voices (República Checa), de Ondrej Provaznik

First Light (Austrália), de James J. Robinson

Forastera (Espanha), de Lucía Aleñar Iglesias

Ish (Reino Unido), de Imran Perretta

Laundry (África do Sul), de Zamo Mkhwanazi

Memory (Holanda), de Vladlena Sandu

My Father and Qaddafi (Líbia), de Jihan K

My Father’s Shadow (Nigéria), de Akinola Davies Jr.

Promised Sky (Tunísia), de Erige Sehiri

Straight Circle (Reino Unido), de Oscar Hudson

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