Extremamente ativo nesta primeira semana do Festival de Cannes, Ary Zara está destinado a deixar a sua marca no certame. Com uma curta-metragem (A Vaqueira, a Dançarina e o Porco) assinada a meias com a brasileira Stella Carneiro, inserida no programa Factory Ceará-Brasil 2025, da Quinzena dos Cineastas, o argumentista e realizador transgénero desdobrou-se em entrevistas à imprensa portuguesa e internacional; participou numa sessão de Pitching, em busca de financiamento, para o seu novo filme (Sol em Saturno), e participou numa sessão de indústria para explicar como “Caroço de Abacate”, que não esteve presente em nenhum festival de categoria A, fez parte da pré-seleção aos Óscares das curtas-metragens.

“Estou super grato por estar em Cannes”, disse-nos Ary, com tanto de cansaço como de adrenalina. “O meu percurso no cinema é inusitado. Nunca consigo o apoio da forma tradicional ou programada, mas de repente aparece uma porta e… estou em Cannes”.
Definindo o cinema como “uma arte muito elitista que se faz com muitas misérias e muitas dores”, Ary explica-nos que “A Vaqueira, a Dançarina e o Porco” foi muitas coisas antes de ser um western. Com apenas 10 minutos duração, aproveitados ao máximo pela dupla de realizadores para criar um objeto extremamente estilizado, no filme seguimos uma cowgirl trans que entra no bar onde a sua amante, uma dançarina negra, trabalha sob as regras de um porco sanguinário e amante de trufas. Mas o que começa como uma fuga por amor, transforma-se num confronto surreal de sangue, irmandade e resiliência. “ Chegamos ao western por ser um estilo tradicional e eu e a Stella sermos 2 pessoas que não são nada tradicionais. Viemos com a ideia para o cinema da representatividade, no meu caso de pessoas trans, no dela de pessoas pretas. Começámos a pensar que nunca tinha visto um western com este tipo de protagonistas femininas, que saem vivas no fim. Acho que o filme tinha todos os ingredientes que achamos que podíamos fazer no cinema”, explica-nos, acrescentando que cada encontro que tiveram para preparar a curta, sob a supervisão de Karim Aïnouz, “foi como aceder a uma masterclass”.
Descrevendo que o seu caminho no cinema será sempre na fuga ao normativo, Ary promete continuar a procurar caminhos alternativos àquilo que é tido como “lei” para se fazer cinema. Um cinema que ele quer fazer com inteligência e sem a forma de imposição: “Há cinco anos, ser trans era equivalente a ser marginal. Atualmente parece que virou um Token e, eventualmente, vai voltar a ser algo sobre o qual não se quer falar. Tento ser inteligente no cinema que faço. Um cinema que tenta não ser impositivo. E tento conquistar as pessoas através de um local comum. Um lugar onde te possas identificar e não está conectado com o ser trans. A partir daí estabelecemos uma relação que nos possa fazer sentar à mesma mesa e falar do que é ou não ser trans”.
Para além de “A Vaqueira, a Dançarina e o Porco“, o programa Factory Ceará-Brasil 2025 conta ainda com os filmes “Ponto Cego“, de Luciana Vieira e Marcel Beltrán; “Como ler o vento” de Bernardo Ale Abinader e Sharon Hakim; e “A besta do Mangue“, de Wara e Sivan Noam Shimon.

