Manoel de Oliveira, nascido em 1908, recebeu há poucos dias, em Roma, um prémio. Trata-se do prémio “Maestros de Cinema”, atribuído pela revista de Edoardo Bruno, Film Critica. No passado, este mesmo prémio foi entregue a grandes autores internacionais como Hitchcock, Kazan, Minnelli e Godard. Foi também a oportunidade de mostrar filmes raros deste autor, tardiamente descoberto pelo público, que ano após ano continua a brindar-nos com novas obras-primas. O evento decorreu no Film Studio, em Roma, entre 14 e 16 de outubro. O seu último trabalho, “Um Filme Falado”, estreará em breve em Itália, França e Portugal. Este filme foi apresentado na secção competitiva de Veneza. É uma metáfora sobre a nova e a velha Europa e também sobre a utopia de uma linguagem universal.
É estranho falar de um filme chamado “Um Filme Falado”. Manoel de Oliveira utiliza um estilo filosófico para se explicar, ao mesmo tempo que recorre a silogismos e linguagem retórica.
“Um Filme Falado” também olha para a Europa em desenvolvimento, a União Europeia. O que significa para si o cinema europeu?
O cinema em geral, e não apenas o cinema europeu, é a última das artes, cronologicamente falando. E, como todas as artes, é um fantasma da realidade. A realidade é a soma de factos reais com utopias.
O seu próximo filme também irá falar de utopia?
Sim, de certo modo. Chamar-se-á “O Quinto Império, Hoje e Amanhã”. É um projeto sobre o mito do rei D. Sebastião, no século XVI. Ele era um soberano de 15 anos de idade que queria espalhar a “paz cristã” pelo mundo. Desistiu até da ideia de casar, de modo a reforçar o seu poder espiritual. Mas, quando procuramos a paz, a guerra vem por acréscimo. D. Sebastião atacou Marrocos e tinha a intenção de alcançar Jerusalém. No final da história o rei morre. E, em Portugal, ainda continuamos à espera do seu regresso.
Este prémio foi também atribuído a grandes realizadores como Hitchcock e Godard. Como “maestro de cinema”, de quem se sente mais próximo pela sensibilidade como realizador?
Todos os realizadores são diferentes. E é assim que deve ser. Felizmente o cinema ainda não foi atacado pela globalização. Pense na tragédia que isso poderia ser. A primeira distinção entre os homens reside no sexo. Homens e mulheres utilizam diferentes processos de raciocínio. Depois existem todas as outras diferenças. Somente no exército existe o sermos todos iguais.
Há algum tempo foi acusado de dirigir mal os atores. O que diz a isto?
É impossível, porque eu não os dirijo. Eu promovo as performances espontâneas. Os atores são o sal do filme. Eles dão corpo e voz às personagens e compõem a força do filme. É essa a razão pela qual a parte mais difícil de fazer um filme é a escolha dos atores. Uma vez realizado o casting, sinto-me muito mais relaxado. Infelizmente, se algum crédito é dado, normalmente vai para o realizador.
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Jorge Pereira / C7nema

