Influenciado pelas enormes disparidades de classes no Brasil, que cada vez mais se manifestam na geografia urbana e na construção de mega projetos urbanos em Porto Alegre que emulam o que se vê de Miami ao Dubai, Davi Pretto, realizador de filmes como “Castanha” (2014), “Espingarda” (2017) e “Continente” (2024) trouxe até Karlovy Vary e à secção Proxima o seu mais recente filme, “Futuro Futuro”, onde mistura crises sociais, tecnologia e ecologia para contar a história de um homem amnésico de 40 anos, chamado K, que é acolhido por outro de 60 anos na zona pobre de uma cidade brasileira chuvosa. Nesse contexto, o avanço da inteligência artificial convive com o surgimento de uma nova síndrome neurológica, embarcando K numa jornada pessoal para tentar entender o seu lugar no mundo.
“Não existem tantos filmes distópicos, como deveriam haver, no Brasil, por aquilo que ele ainda é.”, disse Davi Pretto ao C7nema. “O Brasil vive em negação da sua violência e das injustiças que existem desde a sua fundação. O Brasil vive numa distopia desde aí. E essa questão nunca foi abordada de frente pelo país como um todo”.

Foi a “vontade de pensar numa certa impossibilidade de nos reconhecermos como indivíduos e seres humanos num mundo que parece estar quase a acabar” que moveu Davi a assinar “Futuro Futuro”, um projeto que fala de um mal geral que se sente, mas nunca é nomeado: “Este sentimento não tem um nome e por isso não conseguimos abordá-lo de uma forma completa. Este mal estar sem nome traduz-se em múltiplas crises que vivemos,: políticas, sociais, ambientais e tecnológicas que se somam. Isso faz-nos não entender bem quem somos.”
Assumindo que o seu filme é igualmente “uma reflexão sobre o cinema e como nos relacionamos com as imagens, como elas nos afetam e guiam os nossos desejos”, Davi diz que a mega construção de projetos urbanos para a elite na sua cidade não são, nem querem ser, o Brasil. ”Eles detestam o Brasil”, chuta, acrescentando que todos os temas que aborda estão unidos, sendo impossível falar deles isoladamente. “E fazem parte de um projeto imagético do que é essa cidade”, diz, sublinhando que todos vivemos numa enorme ilusão: “Vivemos numa ilusão, pois é a única forma de viver no mundo como ele é. Ninguém está a salvo dessa ilusão. Por isso surgiu a arte, para conseguirmos passar por essa existência muito brutal. E nem falo de questões políticas, neste caso, mas sim da morte. E como a tecnologia ao seu jeito gera um novo tipo de ilusão. Talvez o IA não seja um novo passo dessa ilusão, mas o último., pois aperfeiçoa a ilusão. (,,,) Na minha pesquisa sobre Inteligência artificial, a maioria dos especialistas não concordam com o que vai ser o futuro. As IA são treinadas a partir de bases de dados ideológicas” . E isso certamente vai também afetar o cinema, com os grandes estúdios e as plataformas a terem acesso aos conteúdos exatos que procuram, ou seja, filmes formatados. “A IA, acima de tudo, prevê a partir do treino. O cinema mainstream é simplesmente um formato que se repete. A grande pergunta é como os festivais, que cada vez recebem menos filmes independentes e mais dos grandes estúdios e das plataformas, vão reagir. Os festivais quando nasceram nos anos 40 queriam mostrar outras coisas que não esse cinema formatado”.

Estética
“Procuro sempre no cinema explorar e experimentar processos de troca. Trabalhei pela primeira vez com o Leonardo Feliciano, que fez filmes do Adirley Queirós. Ele é um fotógrafo muito cinéfilo, que gosta muito do cinema dos anos 40 e 50. Ele entendeu como eu queria abordar a ficção científica, sabia que o processo tinha limitações e que isso tinha de estar aparente. As nossas escolhas imagéticas mostram essas limitações, como a imagem mais fechada, quadrada do aspect ratio, além das imagens IA em wide screen. O filme foi também uma reflexão do que o próprio cinema brasileiro independente, de baixíssimo orçamento, pode ainda fazer. Na montagem trabalhei com o Bruno Carboni, que colaborou em todos os meus filmes, exceto o “Continente”, que era uma coprodução e teve de contar com alguém da Argentina. Ele conhece-me desde criança e também sabe do meu processo de exploração. A montagem foi muito importante no processo de reinvenção do filme, principalmente durante a paragem das filmagens por causa das enchentes e da cidade recuperar do estado de catástrofe. Esse momento foi importante como reflexão na sala de montagem. Eu, ele e Paola Wink, produtora, usamos a ilha de montagem como espaço de reflexão do que o filme podia ser depois da catástrofe. E quão pequeno é o cinema quando confrontado com as catástrofes da vida. Isso colocou-nos num local de humildade para terminar o filme”.
O Futuro de Davi Pretto
Afirmando que o que o move no mundo do cinema é a “dúvida”, pois “as certezas travam e imobilizam”, Davi Pretto já trabalha num novo projeto, mas admite ser muito cedo para o detalhar. Ainda assim, ele deixa escapar que será certamente algo que não quer dar respostas fáceis e que irá refletir “num assunto tabu na nossa sociedade e sobre um tipo de violência”. “Assuntos tabus e violência movem-me e fazem-me pensar muito”, diz-nos, negando qualquer tipo de pretensão de um dia trabalhar para um grande estúdio ou para o streaming. “Penso sempre no cinema e não tenho nenhum interesse no streaming. Zero! Não me interessam as ideias, mas sim o processo. Se aparecer uma ideia que só pode ser concretizada num grande estúdio, não vou querer fazer. Não é para mim. ENão sou essa pessoa. Os processos de cinema podem ser muito violentos e não tenho interesse nisso”.

