Único filme brasileiro em concurso na competição internacional do Bafici – Festival de Cinema de Buenos Aires, em 2025, “Minha Mãe É Uma Vaca” anda a trilhar um caminho de prestígio pelo planisfério cinéfilo desde que abriu a sua rota, pelas gôndolas de Veneza, no segundo semestre de 2024. Na sequência, veio o Festival do Rio, além de eventos em Estocolmo, El Gouna e Chipre. A sua realizadora, Moara Passoni – hoje envolvida na criação de uma série sobre a Democracia Corinthiana – escreveu o argumento em dupla com Fernanda Frotté. O guião tem sido um ímã de debates sobre as vivências no Oeste do Brasil. Em telas da Europa (e, agora, da Argentina), escutam-se elogios para a sua narrativa ligados à direção de arte de Isabel Azevedo e à fotografia de Carolina Costa. Na trama, a jovem Mia (Luisa Bastos) espera notícias do paradeiro da mãe. Longe da proteção materna, a menina é deixada aos cuidados da tia, imersa na paisagem mítica do Pantanal. Sob a ameaça de onças e queimadas, ela descobre que o amor pode se manifestar de maneiras inesperadas.
Parceira profissional da documentarista Petra Costa em “Apocalipse Nos Trópicos” (2024) e em “Democracia Em Vertigem” (2019), Moara dirigiu antes “Êxtase” (2020) e “Francesca” (2017). Na entrevista a seguir, a cineasta explica ao C7nema que caminhos (geográficos e fantásticos) percorreu em sua mais recente empreitada pela realização.

De que maneira o olhar sobre amadurecimento de “Minha Mãe É Uma Vaca” contextualiza a solidão? De que forma esse sentimento é um objeto ou um vetor para a trama?
Creio que é central na trama e na construção da atmosfera do filme que é contado da perspetiva da protagonista, Mia, de 12 anos. É uma garota que está tentando dar conta dos próprios sentimentos num momento em que sente que a vida da mãe está ameaçada e que, justamente de tão obcecada pela mãe, também não consegue se abrir para quem está ao seu redor.
Tudo o que ela mais quer é poder se comunicar. Mas é também tudo o que ela menos consegue. Aliás, as pessoas que estão ao seu redor também estão inteiramente dedicadas a realizar os seus trabalhos e a resolver os problemas – como o fogo provocado artificialmente e que foge do controle e começa a lamber tudo. Mas todos ali parecem mergulhados numa espécie de solidão intransponível. (Sim… de certo modo o eco de 100 anos de solidão também ali é sentido?). Aqui, a transcendência da realidade não vem pelo mágico. O mágico vem, ao contrário, pelo quase excesso de realidade. No filme, parte do amadurecimento da personagem vai estar em encontrar um lugar – uma conexão – para acolher essa solidão. Num movimento desesperado de lutar pelo amor, Mia faz com a vaca o que não pôde fazer com a mãe. Mas ao poder se movimentar em direção a esse amor maior, ao poder sentir esse amor de que mães são capazes, algo nela parece conseguir, ao menos por um instante, acolher e transpor sua solidão.
Que fronteiras do “extra-ordinário” ou mesmo do inusitado conscientemente alarga numa dramaturgia de espera e de transformações internas do universo de uma jovem protagonista?
Penso que dos principais elementos da curta é o tema da fronteira, ou fronteiras, aqui talvez muito mais imaginárias do que necessariamente físicas. A curta é tecido no espaço imaginário de contrastes e metamorfoses entre o urbano e o rural, o humano e o animal, conflitos políticos e dramas ambientais, a máquina económica em operação e os corpos que doem e reagem. No caso do “Minha Mãe é Uma Vaca”, Mia é mandada para um oeste físico e também imaginário para sua própria proteção. Mas ali, depara-se com uma realidade estranha: a maior planície inundável do planeta Terra está agora em chamas – predominantemente por fogos originados por razões criminosas que visam abrir mais espaço para o gado e para a soja. Ao mesmo tempo que esse lugar é cada vez mais tomado por isso, ele é também habitado por um imaginário riquíssimo, mágico e resistente. Ali, cada uma das pessoas com quem trabalhámos no filme, a reinventar a história e trabalhar como atores, são também excelentes contadores de histórias. E nessas histórias habitam onças, jacarés, tesouros perdidos da época da Guerra contra o Paraguai, histórias de extrativismo, de exploração de gado e soja, de apropriação de terras, etc. As fronteiras ali – imaginárias e reais – estão em constante expansão e em atrito com a resistência.

Como foi desbravar esse espaço com sua equipa?
Com nossa equipa – maioritariamente formada por mulheres – mergulhamos nessa fronteira física e mítica do Brasil. Ao mesmo tempo que é fascinante, mágica, potente, ela vê-se ameaçada por uma máquina bastante destruidora (na lógica de um agronegócio depredatório). No entanto, diferente dos filmes de Velho Oeste a que cresci assistindo, não está em xeque a expansão da fronteira e a chegada da lei, mas o declínio da lei e a expansão das fronteiras por razões bastante comerciais. No coração desse choque está cada um de nós, sendo devorado por esse “moinho de gastar gente” como dizia Darcy Ribeiro.
A delicadeza é uma marca do filme, em múltiplas categorias. Como se deu a sua direção de arte para a composição delicada que vemos?
Como realizadora, antes da narrativa, formam-se imagens na minha cabeça. E antes das imagens, sensações, atmosferas, perceção do espaço, que, para mim, tem um papel central em narrar o intangível das histórias. Talvez porque eu tenha algo sobre a dimensão do pertencer e habitar o próprio corpo, que me são constituintes como desafio. De todos modos, o corpo e a forma de ocupar o espaço são, provavelmente, onde meu olhar se inicia. Então, o próprio argumento já é escrito pensando em imagens e atmosferas. Ao mesmo tempo, sou uma diretora que “dialoga” muito com certos filmes e obras, pelos quais me obceco dependendo do projeto em que estou mergulhada. No caso de “Minha Mãe é Uma Vaca”, um dos primeiros passos foi montar uma paleta de cores do filme. O segundo foi montar, com a diretora de fotografia, Carol Costa, um vision e mood board com a lista de enquadramentos e planos que intencionávamos para cada cena. Daí, as referências são cineastas (Bresson, Pasolini, Bergman, Denis, Martel), mas também pintores (Henry Rousseau, Bacon). Além de filmes como “Deixa-Me Entrar”. De outro lado, tínhamos o desafio de trabalhar com os recursos que estavam disponíveis na Reserva Caiman, local em que filmamos. Então, para desenhar os espaços, Isabela Azevedo, nossa diretora de arte, saiu a caminhar pela fazenda, a entrar tanto em lugares já desocupados, mas sobretudo a pedir emprestados objetos para os moradores da Reserva Caiman. E, claro, determinante tanto na direção de fotografia como na direção de arte, foi a própria magnitude da paisagem. Escolhemos esse local no Pantanal, não apenas porque minha memória de infância – que originou o filme – passou-se naquela região, mas porque, ali, a vastidão da planície se impõe. O céu desaba sobre a gente. O horizonte está sempre se projetando ao infinito. É nesse cenário paradisíaco que a experiência da Mia se passa. E é também por conta da experiência de Mia desse lugar, e de seu momento interno, que introduzimos cortes abruptos e paragens no centro desse local monumental.
Que descobertas os festivais como o de Veneza e o Bafici te propiciaram acerca da mirada que o mundo tem sobre o Brasil? Como modificaram a sua mirada acerca de outros cinemas?
Em primeiro lugar, em ambos os festivais, o que experienciei foi uma energia de celebração do cinema, do fazer cinema, que é inspiradora. Fazer um filme independente, sabemos, é uma batalha. E na América Latina essa batalha parece ainda mais intensa. Nesses festivais, encontrei espaço de encontro do filme com um público ávido e aberto. São festivais que reconhecem o ofício do cinema e valoriza a visão de cineastas que nem sempre são bem comportados. Em ambos festivais, a minha sensação é que as pessoas não estavam tentando traduzir o cinema que se faz em relação ao que é certo ou errado no cinema. E sim, estavam ali para descobrir e compartilhar formas diferentes/novas/específicas de fazer cinema. E isso é de uma liberdade e inspiração imensas, pois abre espaço para você, como fazedor/trabalhador do cinema, perguntar-se onde é que pode estar e que cara tem seu tijolinho na construção do cinema como um coletivo. Em Veneza, a nossa curta estava com longas incríveis como “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles – que além de todos os méritos também introduziu para o mundo o fato de que o Brasil teve uma ditadura. Normalmente, quando se fala disso nos EUA, por exemplo, acha-se que foi algo circunscrito à Argentina e ao Chile… deixam de ver que as ditaduras, em toda a América Latina, foram algo que praticamente redesenhou os rumos do continente sul-americano. Também (esteve em Veneza) o filme de Petra Costa, “Apocalipse nos Trópicos”, com quem tive o prazer de colaborar no argumento. Tive participação na realização de algumas filmagens adicionais. Ao focar no Brasil, ele fala de uma realidade que está a se formar não apenas aqui, mas em diversas partes do mundo e, na qual, a ideia do Estado laico (que talvez nunca tenha se firmado totalmente no Brasil…) vê-se cada vez mais tensionada. Do outro lado (ainda no Lido), estava o filme delicado e importante “Manas”, de Marianna Brennand, sobre uma realidade dolorosa de um país marcado pela misoginia. Por fim, estava a nossa curta, que parece que trouxe um pedaço do Brasil que as pessoas pouco imaginam. O nosso Oeste.
Cada filme desse tem uma delicadeza própria, não?
Para mim, todos esses são filmes delicados que falam de feridas de Brasil. De um lado, foi doloroso perceber o quanto nosso cinema grita nossas veias abertas. Mas, por outro lado, são filmes que não desistem do Brasil. São filmes realistas que falam de nossas feridas, sim, mas as narram na tentativa de reparar a dor. São filmes que têm amor, muito amor, e muita esperança de Brasil. Por outro lado, são festivais que nos permitem também descobrir o “estado atual” do cinema. Como as pessoas estão fazendo e pensando cinema? Onde estão inovando? Quais os temas que estão afligindo realizadores, argumentistas (roteiristas), trabalhadores do cinema nos vários cantos do mundo? É uma janela que é uma arte. E é uma janela antropológica. Que nos permite momentos para, no mínimo, estranharmos e talvez reinventarmos nossas relações com o mundo.

